
O site www.mozeika.com.br tem como objetivo esclarecer origens e grau de parentescos entre as pessoas com este sobrenome e conta com sua colaboração.Para fazer parte deste projeto envie um email para fmozeika@gmail.com.
sábado, 5 de abril de 2008
sexta-feira, 4 de abril de 2008
Bronislav Mozeika
BRONISLAV MOZEIKANascido em 01 de janeiro de 1929
Porém registro mostra no documento nascimento em 01 janeiro de 1928(Errado)
Arquido desta informações foi tirado de um documento de benefícios previdenciários e confrontado com um de testamento e informa que pode ter variações no nome da Bronislav conforma citados abaixo:
Bronislav Mozeika
Bronislau Mozeika
Bronislau Mozeika
Antonio Mozeika
Arquido desta informações foi tirado de um documento de testamento e informa que pode ter variações no nome do Antonio conforma citados abaixo:
Antonio Mozeika
Antonio Mozeiko
Antonas Mozeika
Antonas Mozeiko
Antanas Mozeika
Antanas Mozeiko
Ana Saduikaite Mozeika

Ana Chaduskaite Mozeika (Chamada de Amelia)
Nascida no ano de 1900
Falecida em 26 de dezembro de 1949
Arquido desta informações foi tirado de um documento de testamento e informa que pode ter variações no nome da Ana conforma citados abaixo:
Ana Chaduskaite Mozeika
Anna Chaduskaite Mozeika
Ana Chaduikate Mozeika
Anna Chaduikate Mozeika
Ana Saduikaite Mozeika
Anna Saduikaite Mozeika
Podendo também ter a variação de Mozeika para Mozeiko.
Ana Chaduskaite Mozeika
Anna Chaduskaite Mozeika
Ana Chaduikate Mozeika
Anna Chaduikate Mozeika
Ana Saduikaite Mozeika
Anna Saduikaite Mozeika
Podendo também ter a variação de Mozeika para Mozeiko.
quinta-feira, 3 de abril de 2008
Antonio Mozeika e sua história dentro da Companhia Brasileira de Cimento Portland Perus.
Antonio Mozeika e sua esposaA negociação individual dos salários ..............................................................................O senhor Armando Piazza, paulista, admitido com 31 anos de idade em 21 de
outubro de 1933, registrado como “eletricista”, foi contratado pelo salário de 1$900
réis por hora de trabalho. Um ano depois, exatamente em 31.11.1934, o espanhol
Joaquim Correa da Silva, de 43 anos, casado, com 5 filhos, foi contratado pela
empresa para exercer a mesma profissão de “eletricista”, só que com o salário de
1$500,00 réis por hora.
O russo Antonio Mozeika, de 38 anos de idade, casado, pai de 3 filhos,
mecânico de profissão, foi contratado em 16 de julho de 1932, para receber um salário
de 1$900,00 réis por hora. O mineiro Agostinho Nunes Netto, casado, com 2 filhos, foi
contratado no dia 17 de dezembro do mesmo ano, para exercer a mesma função, mas
não teve a mesma sorte, pois receberia um salário de 1$600,00 réis por hora, 16%
menor que o do Russo.
Quais critérios a fábrica estabeleceu para contratar esses quatro operários por
salários diferenciados? O quadro abaixo mostra que esse fenômeno não se restringiu
aos casos dos Senhores Mozeika, Piazza, Netto e Silva, mas que se trata de uma
política da empresa de cimento:
171Abaixo o documento da onde foi extraido o texto que contém o comentário sobre Antonio Mozeika.
MARCELO ANTONIO CHAVES
DA PERIFERIA AO CENTRO DA(O) CAPITAL: PERFIL DOS
TRABALHADORES DO PRIMEIRO COMPLEXO CIMENTEIRO DO BRASIL.
SÃO PAULO, 1925 – 1945.
BANCA
Prof. Dr. Michael McDonald Hall (orientador)
Prof. Dr. Fernando Teixeira da Silva (membro)
Profa. Dra. Ângela Maria Carneiro de Araújo (membro)
FEVEREIRO/2005
Dissertação de Mestrado apresentada ao Departamento
de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas
da Universidade Estadual de Campinas, sob orientação
do Prof. Dr. Michael McDonald Hall.
2
FICHA CATALOGRÁFICA ELABORADA PELA
BIBLIOTECA CENTRAL DA UNICAMP
Palavras-chave em ingles (Keywords): Cement industries – Accidents.
Cement industry workers – Perus (São Paulo, SP).
Industrial accidents – Law and legislation.
Labor unions
Área de concentração: História social do trabalho.
Titulação: Mestre em história social do trabalho.
Banca examinadora: Michael McDonald Hall, Ângela Maria Carneiro de
Araújo, Fernando Teixeira da Silva.
Data da defesa: 25/02/2005.
Chaves, Marcelo Antonio.
C398d Da periferia ao centro da(o) capital : perfil dos trabalhadores
do primeiro complexo cimenteiro do Brasil, São Paulo, 1925-
1945 / Marcelo Antonio Chaves. -- Campinas, SP : [s.n.], 2005.
Orientador: Michael McDonald Hall.
Dissertação (mestrado) - Universidade Estadual de
Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas.
1. Cimento – Indústria – Acidentes. 2. Trabalhadores
da indústria de cimento – Perus (São Paulo, SP).
3. Acidentes do trabalho – Legislação. 4. Sindicatos.
I.Hall, Michael M. (Michael McDonald), 1941-
II. Universidade Estadual de Campinas. Instituto de
Filosofia e Ciências Humanas. III. Título.
3
Dedicatória
Aos meus pais,
Lourdes e Romeu,
começo de tudo.
E à minha companheira
de todos os minutos,
Maria Nizete,
porque tudo continuou.
4
Resumo
A primeira grande fábrica de cimento do país, inaugurada em 1926, no bairro de Perus, em São
Paulo, determina o recorte temático desta dissertação. As circunstâncias de sua instalação, a
articulação com outros empreendimentos – indústria de cal e transporte ferroviário -, a
produção de uma mercadoria fundamental para a expansão urbana – o cimento - e o singular
processo de produção/trabalho da fábrica, introduzem a escrita. Entretanto, o enfoque
privilegiado e articulador deste trabalho é a reflexão sobre os diversos aspectos da vida dos
trabalhadores da fábrica e das pedreiras, onde o momento da produção e da reprodução da
força de trabalho se confundem. Meu trabalho é fundamentado, principalmente, em fontes
documentais primárias, destacando-se a exposição, cruzamento e análise de dados extraídos de
1500 fichas de trabalhadores. Assim, procuro identificar as condições de vida e de trabalho das
primeiras gerações de trabalhadores da fábrica de cimento, entre os anos de 1925 e 1947:
migração e imigração, nacionais e estrangeiros, negros e brancos, grau de instrução, salários,
estabilidade no emprego, acidentes de trabalho, entre outros. Além de expor inúmeros dados
empíricos que revelam mais detalhes daquele rico período da história do Brasil, nesta pesquisa,
tem destaque também a conflituosa e ambígua trajetória de criação do primeiro sindicato dos
trabalhadores, em 1933, buscando, através dela, problematizar e ilustrar a não menos ambígua
e complexa história dos primeiros momentos de instalação do sindicalismo oficial no Brasil.
Abstract
The first great cement factory of Brazil, inaugurated in 1926 in the neighbourhood of
Perus, in São Paulo, determines the thematic focus of this dissertation. The
circumstances of its construction, its articulation with other enterprises – limestone
industry and railroad transport -, the production of a basic element for the urban
expansion - cement - and the singular production/work process of the factory open the
writing. However, the main focus of this work is a reflection on the diverse aspects of
the life of workers from the factory and from the quarries, where the moments of
production and of reproduction of the work force blend in with one another. My work
is based mainly in primary documentary sources, emphasizing the exposition,
comparing and analysis of data extracted from 1500 worker’s profile records. Thus, I
try to identify the life and work conditions of the first generations of workers from the
cement factory between the years of 1925 and 1947: migration and immigration;
natives and foreigners; black and white; degree of instruction; wages; stability in the
job; industrial accidents, among others. Besides displaying innumerable empirical data
which disclose more details about that rich period of Brazil’s history, this research also
highlights the conflicting and ambiguous trajectory of the creation of the first workers
trade union, in 1933, attempting through that to discuss and illustrate the not less
ambiguous and complex history of the first moments of the institution of the official
unionism in Brazil.
5
Agradecimentos
Muitos corações, mentes e mãos dão o caráter coletivo a essa solitária atividade
da escrita. O reconhecimento dessa coletividade anônima não se trata de mera
formalidade laudatória. De fato, de uma maneira genérica, é preciso reconhecer que a
sociedade dispende muitos esforços para garantir que certos indivíduos possam se
dedicar a tarefas como essas que se inserem no plano do pensamento e da reflexão.
Tragicamente, uma sociedade em que a esmagadora maioria da população ainda luta
para conquistar os mais básicos recursos para produzir a sua existência.
Ao fim desta escrita me vem à mente uma série de professores e professoras, a
quem genericamente presto reverência, e uma procissão de colegas e amigos que em
maior e menor grau interferiram no meu trabalho. Optei por deixar anônimos todos
aqueles amigos, amigas e colaboradores que direta e indiretamente são responsáveis
por este resultado escrito. A dificuldade em graduar níveis diferenciados de
colaboração e o receio de ser traído pela memória, me faz optar pelo agradecimento
generalizador, porém sincero e profundo.
Agradeço aos meus amigos mais próximos, os de perto e os de longe, aos
colegas da Universidade, aos funcionários das entidades nas quais pesquisei, aos
companheiros e companheiras do Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias de
Cimento Cal e Gesso, à toda comunidade de Perus, razão maior pela inspiração deste
trabalho.
Esta dissertação é fruto de um trabalho de três anos e foi elaborada nas adversas
condições de um estudante atípico, que contou com o subsídio do governo federal
através do seu programa de bolsas destinado a auxiliar as pesquisas científicas no país
– o CNPq.
O meu muito obrigado ao professor Michael Hall, orientador maior desta
dissertação, que me dedicou muita confiança ao longo de tantos anos.
6
Apresentação
Esta dissertação está composta por quatro capítulos que, na verdade, são
recortes diferenciados de um mesmo assunto: a Companhia Brasileira de Cimento
Portland Perus.
O capítulo 1 contém a localização histórico-espacial do bairro de
Perus/ÁguaFria, salientando a sua formação econômica como um pólo paulistano
produtor de minerais calcários de grande importância para o crescimento urbano da
cidade. Apresento também, de forma panorâmica, a idéia de que o então recém
inventado produto – o cimento – vai sendo introduzido no país no momento em que
São Paulo vai se constituindo na mais importante metrópole brasileira, do ponto de
vista cultural, político e econômico.
No segundo capítulo procedi a uma caracterização descritiva do processo
produtivo do cimento, que engloba atividades de extração mineral e fabricação de
cimento em larga escala.
O capítulo III descreve com certo nível de detalhamento o perfil das primeiras
gerações de trabalhadores da fábrica e das pedreiras nos seus dois primeiros decênios
de existência.
O quarto e último capítulo trata da primeira organização sindical dos
trabalhadores da Companhia em Perus, onde tento traçar um perfil político-ideológico
dessa organização.
Os pressupostos teórico-metodológicos que orientam este trabalho estão
expressos no texto, de forma mais ou menos explícita. Portanto, prefiro evitar
comentários que só alongarão ainda mais a escrita. Apenas adianto que se trata de um
“estudo de caso” no qual procuro empreender a interpenetração das singularidades
com as regularidades. Ou seja, ao proceder o recorte temático, procuro não perder de
vista o panorama mais geral da conjuntura.
7
I n d i c e
Capítulo I
O Contexto histórico da implantação da fábrica..................................................................10
Uma história a partir da periferia .....................................................................................11
A produção do espaço de Perus..........................................................................................13
Perus parece uma mancha verde desprovida de progressos ..............................................13
Perus: invisível, mas integrada ao (à) capital ....................................................................17
São Paulo: mercado em expansão .....................................................................................18
Uma nova mercadoria muda a face de São Paulo: a “pedra artificial” .........................20
O cimento no mundo .........................................................................................................20
O cimento no Brasil...........................................................................................................21
Artigo estratégico e de luxo...............................................................................................24
Alguns antecedentes da produção cimenteira no Brasil ..................................................28
Indústria da cal como “pré-história” da produção cimenteira no Brasil.......................31
A indústria da cal: em busca de uma estimativa................................................................31
A primeira ferrovia industrial............................................................................................36
As “íntimas” relações entre o público e o privado ............................................................42
Alguns elementos do contexto da chegada da fábrica......................................................47
Indústrias de base: a “revolução” começa antes de 1930 ..................................................49
As transformações na economia......................................................................49
O incentivo à produção de cimento ...................................................................................52
Ambiente natural favorável ...............................................................................................56
O mercado do cimento.......................................................................................................58
Infra-estrutura montada .....................................................................................................59
A força de trabalho: Mecanismo de formação do Exército Industrial de Reserva............60
Capítulo II
Introdução ............................................................................................................................65
Um complexo de atividades ................................................................................................65
O trabalho nas pedreiras ....................................................................................................67
O transporte .......................................................................................................................73
O processo de trabalho na fabricação de cimento: primeira aproximação ...................74
Segunda aproximação: homens e máquinas na fabricação de cimento..........................77
Processos físicos de transformação ...................................................................................77
8
Transformação físico-química...........................................................................................80
As atividades colaterais .....................................................................................................84
Manutenção elétrica...........................................................................................................85
Manutenção mecânica .......................................................................................................87
A carpintaria ......................................................................................................................89
O laboratório.....................................................................................................................90
Capítulo III
Introdução
Considerações preliminares................................................................................................96
O tamanho da fábrica .......................................................................................................100
Cimento Perus: no masculino...........................................................................................102
Dados sobre faixa etária: força de trabalho jovem ........................................................103
Estado civil .........................................................................................................................104
Nacionais e estrangeiros na Cimento Perus ....................................................................107
Quem são esses estrangeiros .............................................................................................111
Uma fábrica “portuguesa”, com certeza..........................................................................114
A força de trabalho nacional ............................................................................................117
O impacto da “Lei dos dois terços” na fábrica ................................................................120
Qual a origem dessa força de trabalho nacional..............................................................121
Negros e Brancos em Perus ..............................................................................................125
Brancos, negros e mulatos: avaliação geral.....................................................................128
De onde vieram esses negros...........................................................................................131
Grau de instrução ..............................................................................................................131
Grau de instrução entre estrangeiros e nacionais.............................................................135
Acerca do grau de qualificação dos trabalhadores da CBCPP.....................................140
Qual o tempo médio de permanência dos operários na fábrica?..................................147
Salário como ponto de discórdia entre capital e trabalho .............................................153
A proeminência do salário...............................................................................................154
Jornada e valor dos salários.............................................................................................155
Dados sobre a situação salarial na fábrica.......................................................................157
Defasagem salarial...........................................................................................................166
A negociação individual dos salários ..............................................................................168
Faixas salariais e grupos de trabalhadores.......................................................................177
Acidentes de trabalho........................................................................................................181
Introdução.......................................................................................................................181
Breves comentários sobre a legislação em vigor.............................................................182
O que as fichas nos revelam ............................................................................................185
Acidentes e tempo de serviço ..........................................................................................190
9
Tipos de acidentes e regiões atingidas.............................................................................191
A poluição no ambiente do entorno da fábrica................................................................197
Capítulo IV
Introdução...............................................................................................................................200
A vida fora da fábrica .......................................................................................................201
Surge o sindicato................................................................................................................210
Os sindicatos ajudam a criar a “Constituinte Classista”, e vice-versa.........................212
Por detrás da marca do carimbo há sinais de organização ...........................................216
Ambigüidades do Sindicalismo oficial .............................................................................217
A direção do sindicato de Perus/Água Fria até 1936......................................................221
Continuidade e a ruptura de Realino Costa Pinto............................................................225
O sindicato e as empresas .................................................................................................228
A greve na Beneducci......................................................................................................231
O sindicato e a CBCPP....................................................................................................234
A relação do sindicato com os trabalhadores..................................................................238
O caso Gregório...............................................................................................................240
O sindicato e o Estado .......................................................................................................243
Vinculações com o "mundo exterior"..............................................................................247
Perfil ideológico do sindicato: uma primeira aproximação...........................................250
Qual socialismo esquerdista no Sindicato? .....................................................................260
Conclusão ...........................................................................................................................266
Créditos das fotos
As fotografias são cópias digitalizadas de imagens originais, cujos autores, na sua grande maioria,
são desconhecidos.
As imagens n° 1, 2, 5, 6, 8, 9, 10, 16 e 22 fazem parte do acervo particular de Nelson Camargo.
A imagem n° 4 foi enviada ao autor pela Professora Laura Maciel, da UFF.
As imagens n° 7, 11 e 16 pertencem ao acervo particular de Nilson Rodrigues, um dos autores do
site da Estrada de Ferro Perus-Pirapora.
As imagens n° 12, 14, 15 e 20 fazem parte do acervo particular de Mário Bortotto, morador do
bairro de Perus.
As Imagens n°: 17, 18 foram tiradas por mim, com permissão do Nelson Camargo, a 19 foi retirada
da Revista do IPT de 1935 e a 21 copiada da Revista do Trabalho de 1932.
Não obstante as diversas origens, todas as fotografias apresentadas nesta dissertação foram cedidas
ao autor por Nelson Aparecido Bueno de Camargo, morador de Perus e dos mais importantes
personagens na luta pela preservação da memória do bairro.
10
Capítulo I
O Contexto histórico da implantação da fábrica
Vista panorâmica de Perus em meados da década de 1930 (1)
11
Uma história a partir da periferia
O bairro de Perus forma-se subordinado à dinâmica produzida pelo capital, a
partir da chegada da fábrica de cimento em 1926. As evidências não permitem
contrariar essa constatação que parece ser bastante óbvia. Perus, até então, é, de fato,
um povoado relegado a uma extremidade (noroeste) pouco importante da cidade de São
Paulo.
A história da cidade de São Paulo se faz (e assim é escrita) do centro para a
periferia. Muitas vezes, temos a impressão de que a São Paulo do primeiro quartel do
século 20 resumia-se ao núcleo em torno do Brás, Mooca, Bexiga, Lapa, Barra Funda e
os eixos industriais e, então, vai se construindo aos poucos, em direção à periferia, à
medida que a sua população vai se expandindo, também nesse sentido. Assim, a
“periferia” vai se “agregando”, tendo existência real.
Essa dinâmica pode, no entanto, viciar o nosso olhar, a tal ponto de ocultar os
movimentos de contra-fluxo, ou os movimentos destoantes. Por isso, muitas vezes
necessitamos nos re-alocar para enxergar as grandezas do aparentemente pequeno e
perceber as relações nas coisas que estão aparentemente isoladas.
José de Souza Martins1 vê nesse fenômeno, a perspectiva elitista do centro que
“domina a concepção do que foi o subúrbio no passado. Mesmo quando se estuda a
história da classe operária, que sempre viveu nos bairros e no subúrbio, prevalece essa
orientação fora de contexto”. Segundo esse autor, essa concepção vem da “tradição
colonial e absolutista”.
Se os historiadores “economicistas” precisam enxergar para além do fluxo das
coisas (mercadorias), por outro lado, os historiadores sociais precisam enxergar as
“gentes” (e suas relações sociais) que se escondem nas coisas e seus fluxos. Os
1 MARTINS, José de Souza. Subúrbio: vida cotidiana e história no subúrbio da cidade de São Paulo. São
Caetano, do fim do império ao fim da República Velha. Hucitec, Prefeitura de São Caetano do Sul, 1992.
12
fenômenos que, aparentemente, não têm grande poder de interferência nos destinos dos
“grandes acontecimentos”, ou mesmo, aquele lugar desprovido de grandes
aglomerados populacionais, sempre correm o risco de ficar de fora dos focos das
análises dos estudiosos. O relativamente pequeno, ou o projeto não “vitorioso”, não
merece atenção, senão de forma marginal.
Mas, temos que ficar atentos às ilusões: fenômenos econômicos de pouca
magnitude, que envolvem mercadorias de pouco valor; ou mesmo, um lugar com
pequena expressividade em aglomerados populacionais, podem ocultar acontecimentos
importantes, repletos de poder de determinações históricas. Neste sentido, Martins
chega a dizer que, “o subúrbio é, certamente, um posto privilegiado para observação e
estudo das transformações da cidade e da formação das classes sociais” 2.
Tudo isso, talvez explique o fato de Perus, um lugar despovoado e de fraca
economia, ter passado ao largo das citações em quase toda literatura escrita sobre a
cidade de São Paulo, mesmo trazendo em seu rastro histórico, alguns exemplos de
pioneirismo e outros tantos marcantes na história paulista. Trabalhos de fôlego são
realizações muito recentes e, é claro, são ainda incipientes para dar conta do tamanho
da história a ser contada sobre aquele espaço. Não se trata de cair em erro oposto e
“jogar luz” sobre o nosso objeto de estudo, tentando convencer os leitores da sua
“importância vital”. Muitas vezes, o silêncio não ocorre por equívocos metodológicos,
mas porque a história é mesmo muito vasta para se dar conta de tantas variáveis.
Entretanto, não deixa de ser surpreendente o esquecimento de Perus, quando se fala das
vilas operárias paulistas; ou mesmo, em outra perspectiva, quando não se percebe a
revolução urbanística causada pela a introdução de uma nova técnica de construção, a
partir do uso de um novo aglomerante como o cimento.
Este trabalho certamente não irá reparar este “silêncio” da historiografia, senão
de forma panorâmica e fragmentada, pois as lacunas são infinitas. Entretanto, no
percurso do desenvolvimento do núcleo de minha narrativa, algumas passagens
2 Idem, ibidem, p.0 9
13
demonstrarão que, a despeito da pouca importância, há muito que se falar acerca da
inserção da região de Perus no contexto da economia paulista.
A produção do espaço de Perus
Perus parece uma mancha verde desprovida de progressos
No ano de 1926, a região de Perus já era um importante mas “invisível”
povoado3 da já vistosa cidade de São Paulo. Olhada de cima, o “núcleo urbano” de
Perus parecia uma mancha disforme a quebrar a monotonia do verde, que então
predominava e dotava a região com o tom do “atraso” típico de um lugarejo que ainda
não assumia o tom cinzento da “civilização”. À época, as matas virgens eram as
primeiras “vítimas” do “progresso”, da voracidade e velocidade com que se expandia o
capital em São Paulo. Olhando-se mais de perto, constata-se que aquele verde que
predominava ao redor de Perus não tinha o tom do “progresso conservador” típico do
verde dos pés de café. Perus e seus arredores situavam-se próximos, mas não fizeram
parte dessa rota de expansão vertiginosa e arrebatadora do café4.
Mas, se atentarmos bem, dessa perspectiva do alto, nesse ano de 1926,
poderemos distinguir tonalidades de verdes que nada têm de originais. Afinal, os pinus
não podem ser confundidos com simples árvores que se interpõem à “marcha do
progresso”, posto que, são eles importantes reserva de capital industrial. Em toda a
região a nordeste de Perus, eucaliptos e pinheiros estão a impor o território da fábrica
de papel Melhoramentos que, desde a década de 1890, utiliza aquelas áreas para prover
as suas reservas de matéria-prima, impondo, assim, um limite para qualquer tipo de
expansão urbana de Perus para aqueles lados.
O núcleo urbano da capital paulista está lá a sudeste de Perus e se expande
vorazmente em movimento centrífugo, devorando rapidamente áreas e criando espaços
urbanos apinhados de gente. Mas Perus ainda está longe de ser alcançada, pois dista de
3 Perus pertencia à Freguesia do Ó, passando à condição de Distrito de Paz em 1934.
4 A rota do café passou muito próximo da região de Perus. A cidade de Parnaíba, município vizinho de Perus,
chegou a fazer parte da região de plantio no final do século XIX. Jundiaí foi um importante pólo de
desenvolvimento cafeeiro do Estado, conforme Sérgio MILLIET, Roteiro do café e outros ensaios: contribuição
para o estudo da História Econômica e Social do Brasil. São Paulo, Hucitec, 1982.
14
longos 26 quilômetros do centro. É certo que, desde 1867, por ali rasgam os trilhos da
imponente São Paulo Railway, que faz de Perus um dos pontos de acesso que liga o
prodigioso oeste paulista ao mundo, via porto de Santos. E as ferrovias quando
implantadas, sabe-se, constituíam-se em pontos de convergência de produtos e pessoas
das áreas circunvizinhas:
Isto conferia ao local das estações a oportunidade de assumir uma modesta função
regional. Pequenos, às vezes, quase insignificantes, povoados surgiam em torno da
estação, com vendas e botequins destinados a servir aos caipiras dos arredores, que agora
para aí convergiam em busca da estação5.
Além do incremento das atividades comerciais e residenciais, as vias férreas
também atraíram para o seu leito atividades industriais de toda ordem:
A estrada de ferro, na realidade, não se limitou a orientar a suburbanização residencial,
mas continuou a fazê-lo com relação à suburbanização industrial. Ambos os processos de
ocupação suburbana dos arredores de São Paulo assumem grande importância no período
de 1915/1940 (Langenbuch, 1971, p. 140)
“O viajante que parte de São Paulo rumo a Santos, pela ‘São Paulo Railway’, observa
em ambos os lados da estrada de ferro aspectos da vida industrial já muito desenvolvida.
À direita e à esquerda sucedem-se grandes armazéns e depósitos, erguem-se muros de
fábricas junto ao limite da via férrea, quando a perspectiva se amplia percebem-se ao
longe os vultos das chaminés dos bairros industriais...” (Raul de Andrade, in Langenbuch,
p. 142).
Entretanto, sabe-se que a estação de Perus, que inicialmente fora criada para
servir de entreposto para abastecimento de água para as locomotivas6, não chegou a
desenvolver uma expansão urbano-industrial, como acontecera com outras regiões do
5 LANGENBUCH, Juergen R. Estruturação da Grande São Paulo, Rio de Janeiro, Fundação IBGE, 1971, p.104.
6 Conforme SIQUEIRA, Élcio. Companhia Brasileira de Cimento Portland Perus: contribuição para uma
história da indústria pioneira do ramo no Brasil (1926-1987), dissertação de mestrado, UNESP, Araraquara,
2001, p. 24.
15
entorno de São Paulo no mesmo período. Jungen Langenbuch constata uma
desproporção, em termos de aglomeração industrial, em torno da ferrovia “Santos -
Jundiaí”. Nota-se uma intensificação do parque industrial em direção a São Caetano e
Santo André, enquanto que, na direção oposta, entre a Lapa e as imediações de Jundiaí,
a ferrovia praticamente não atraiu indústrias. Esse autor assim procura explicar essa
diferenciação:
Note-se que os dois trechos mencionados em primeiro lugar (linha Jundiaí e Tronco da
Central) não apresentam o trinômio ferrovia - áreas planas extensas - água fluvial... que
tanto contribuiu na industrialização do eixo São Caetano - Santo André. (...) Na realidade,
a topografia movimentada do citado trecho da linha Jundiaí e Tronco da Central
(sobretudo o primeiro) é bastante adversa à instalação de fábricas, mormente de
estabelecimentos espaçosos. (Langenbuch, 1971, 183)
Langenbuch destaca também o aspecto funcional do tipo de empreendimento
instalado no sentido oeste da São Paulo Railway:
Em Caieiras, por exemplo, um dos principais centros industriais suburbanos do começo do
século, o parque fabril já existente, não apenas deixou de atrair novos estabelecimentos,
mas praticamente o impediu, em vista de sua natureza. Com efeito, para abastecer a sua
fábrica de papel em matéria-prima, a ‘Companhia Melhoramentos’ passara a adquirir
todas as terras confinantes, para aí desenvolver a silvicultura, não havendo sequer espaço
disponível para outras empresas aí implantarem suas fábricas. O contrário se verificou em
São Miguel, onde se instalou a importante indústria ‘Nitro-Química’, cuja montagem teve
início em 1935. (Langenbuch, 1971, p. 141)
Desta forma, grandes extensões territoriais achavam-se já economicamente ocupadas, e
deixaram de ser oferecidas à expansão metropolitana de cunho urbano. No mesmo sentido
funcionou o Hospital dos Alienados do Juqueri, que possui extensa gleba de terras. Este
fato e as condições topográficas adversas não favoreceram igualmente a suburbanização
residencial que (...) foi pouco intensa. Tal circunstância provavelmente também explique a
pequena atração de indústrias pela área pois não houve aí a formação de expressiva
reserva de mão-de-obra. (Langenbuch, 1971, p. 183)
16
Estes argumentos podem ser reforçados pelo fato de existirem, desde o início do
século XX, na região de Perus - Água Fria7, inúmeras áreas de extração de pedras e de
calcário, atividade que repelia a constituição de empreendimentos ao seu redor, não
apenas pelo uso extensivo de terras, mas também pelo tipo de exploração que requer
uso de potentes explosivos.
Eis o porquê da região objeto de nosso estudo, em 1926, situar-se na parte
branca que simboliza os “vazios” urbanos nas representações cartográficas que
delimitam as aglomerações humanas. Assim, àquela época, com suas poucas centenas
de habitantes8, Perus parecia condenada a esperar longo tempo até a chegada do
cinzento “progresso” e estaria confirmando a expressão de um morador e trabalhador
da região, o Sr. Antonio Ceciliano Gonzaga9, que, mesmo em 1934, ainda se referia
àquela região como um “sertão desprovido de mentalidades sociais”.
7 Água Fria era um povoado pertencente ao município de Santana do Parnaíba onde hoje é o município de
Cajamar. Água Fria e Perus, apesar de pertencerem a municípios diferentes, faziam parte de um único território
delimitado pela fábrica de cimento, que abrangia duas atividades ligadas por uma estrada de ferro: no entorno de
Água Fria situavam-se as minas calcárias e em Perus situava-se a fábrica de cimento.
8 O Censo de 1920 apresenta a região de N. S. do Ó, Pirituba e Perus como tendo 5.534 habitantes; ParnaybaÁgua
Fria apareciam com 5.798 habitantes. Perus é, então, a região menos populosa em relação a Pirituba e N. S.
do Ó, enquanto que Água Fria não é senão um pequeno povoado pertencente a Parnayba. Daí deduzirmos que
Perus – Água Fria, em 1920, não tenha muito mais que um milhar de habitantes. Só para efeito de comparação, as
populações da Mooca, Lapa e São Caetano/Santo André, no mesmo ano, são de 69.209; 22.001 e 12.036, (cf.
Langenbuch, p. 170/171)
9
Antonio Ceciliano Gonzaga é um dos fundadores do sindicato de trabalhadores em pedreiras, em Água Fria, no
ano de 1933. Esta citação aparece em documento enviado ao Ministro Agamenon Magalhães, em 06/09/1934, e
encontra-se no acervo do Sindicato dos trabalhadores em Perus.
Aspecto do núcleo central do bairro de Perus, na década de 1930. Imagem flagra a “timidez”
do desenvolvimento urbano, mesmo após a inauguração da fábrica de cimento. O “Pico do
Jaraguá” pode ser visto ao fundo à esquerda da foto (2).
17
Perus: invisível, mas integrada ao (à) capital
Mas não era exatamente esse o quadro da região. Se a linha de ferro que vai para
o centro de São Paulo não está a transportar grossos contingentes de trabalhadores, isso
não pode apressar conclusões de um total desligamento desse lado da periferia com o
coração palpitante da (o) capital.
Permanecendo com o nosso olhar a partir de cima, pode-se notar na região a
oeste de Perus, no caminho da velha Parnayba, algumas clareiras expressivas, ligadas
por tênues linhas sinuosas. Essas crateras poeirentas, que parecem feridas expostas na
natureza, causadas pela ação depredadora do homem, são, na verdade, fontes de
riquezas apropriadas e exploradas pelo capital. Ali se localizam as produtivas caieiras
da região, que alimentam os fornos de calcários para a produção de cal. Essas pedreiras
são ligadas por estrada de ferro construída com o fim de viabilizar o transporte de
produtos e matérias-primas. Entre elas há pequenos núcleos com tímidos traços
urbanos, como Água Fria e Gato Preto, que à época pertenciam ao município de
Parnayba. Esse pequeno complexo liga-se ao principal tronco ferroviário que tem São
Paulo como destino.
Tudo isso quer demonstrar que, além da possível produção de hortaliças para o
crescente mercado paulistano e também para o autoconsumo dos moradores da
região10; além do pequeno comércio instalado em torno da estação de trem, a região de
Perus-Parnayba, em 1926, abrigava um complexo produtor de uma mercadoria muito
importante no processo de expansão urbana de São Paulo: a cal. Ou seja, a região de
Perus - Água Fria, já está nessa época, bastante integrada com toda a dinâmica de
expansão da cidade de São Paulo. Uma integração que pode passar imperceptível, mas
10 A região de Perus compõe essa paisagem do “cinturão verde” que circunda o núcleo da capital e que é descrita
assim por Caio Prado em A cidade de São Paulo: geografia e história. Brasiliense, S. Paulo, 1989. : “...os
grandes centros urbanos...para seu abastecimento em certos gêneros, cercam-se de uma auréola de chácaras
dedicadas a cultura de hortênsias: de legumes, batatas, flores, etc. Este é particularmente o caso de São Paulo”.
18
que se encontra amalgamada nas construções que brotam fartamente durante a
expansão febril da capital paulista nas primeiras décadas do século XX11.
Assim, o eixo Perus - Água Fria, em 1926, no aspecto funcional da relação com
o centro da(o) capital de São Paulo, faz parte do chamado “cinturão caipira” de São
Paulo, exerce atividades agrícolas e sua economia baseia-se nas atividades
cognominadas de primárias, mas tendo a primazia a atividade industrial-extrativista e
produtora de mercadorias.
“No cinturão caipira são as olarias e cerâmicas, as serrarias, as pedreiras e os
portos de extração de areia, que abastecem o frenesi de construções que assolavam a
cidade”12.
São Paulo: mercado em expansão
Desde o início do século XX, São Paulo é a cidade brasileira que mais extensiva
e intensivamente espelha o vulto da acumulação de capitais gerada pela economia
cafeeira. Na verdade, o espaço urbano da cidade parece não conseguir dar conta da
intensidade e velocidade de investimentos “modernizadores” naquele período. Os
indícios disso não se apresentam apenas na forte concentração humana nas vilas e
cortiços, mas também no fato de São Paulo, já naquele período, apresentar
congestionamento do tráfego no centro e isso ser considerado problema de primeira
ordem:
O trânsito estava afogado. A área central era um híbrido com bancos, cortiços, sedes de
companhias, mercados, zonas de prostituição, comércio ‘chic’, espremidos em ruelas
estreitas. Cinco projetos de reurbanização se degladiaram (sic!) entre 1910 e 1911:
afirmavam com unanimidade que a questão principal era desafogar o trânsito da área
central e facilitar a circulação. (Rolnik, 1981, p. 114).
11 Em mapa da década de 1930 dessa região aparece a indicação de uma fábrica de pólvora, localizada próximo
da fábrica de cimento. Os relatos de moradores antigos do bairro falam também de fábrica de caolim e de
paralelepípedos, localizados no bairro.
12 ROLNIK, Raquel. Cada um no seu lugar: São Paulo, início da industrialização, geografia do poder.
Dissertação de mestrado, FAU/USP, 1981, p. 20.
19
O urbanismo no começo do século XX, durante a prefeitura de Antonio Prado
(1899 - 1911), seguia uma lógica que assim foi descrita por Rolnik:
Embelezar a capital - Desafogar seu trânsito na área central - Limpar a área central de
atividades e pessoas sujas - Desenhá-la como moderna e próspera cidade européia - e
ganhar muito dinheiro com uma imensa operação de especulação imobiliária. (Idem, p.
115)
Data também de 1910 o conhecido Plano das Grandes Avenidas na capital
paulista, que consistia em “alargamentos de ruas e construções de viadutos no centro,
reurbanização do Anhangabaú e construção de um eixo monumental entre o Largo
Municipal e o Largo do Palácio, compondo a esplanada da Sé, nova catedral
proposta”13; são vários os projetos arquitetônicos desse período que vão remodelando
a face da cidade: Parque do Anhangabaú, Viaduto do Chá, Teatro Municipal e tantas
gigantescas obras de arte a céu aberto.
O progresso era saudado com entusiasmo e, mesmo o amontoado de concreto
ganhava vida e aparecia revestido de palavras refinadas na linguagem jornalística:
Paulicéia (atingia) um grau de progresso e desenvolvimento que causa pasmo geral,
erguendo-se por todos os cantos da cidade esses arrogantes arranha-céus, que, orgulhosos,
apontam para o espaço infinito a pujança do trabalho paulista.14
Pois bem, toda essa parafernália monumental tem como materiais estruturantes o
ferro, o cimento, a pedra, a areia e a cal. Todo esse equipamento urbanístico abre de
forma espetacular o mercado para esses produtos.
Porém, há um detalhe a ser destacado: o cimento é, então, um produto novo,
que representa uma nova tecnologia no processo de construção e que irá permitir a
expansão de forma inaudita a construção civil no Brasil, como já acontecia no mundo.
13 ROLNICK, Raquel. Op. cit. p. 117.
14 O Correio Paulistano de 25/06/1926.
20
Por isso, antes de refletirmos sobre a introdução do fabrico de cimento no Brasil, vale
a pena atentar para esse detalhe de tamanha importância.
Uma nova mercadoria muda a face de São Paulo: a “pedra artificial”
Foi durante um curto percurso entre Perus e o bairro do Butantã, quando eu
passei parte do dia dentro de uma biblioteca pesquisando um pouco sobre a história do
cimento. Ao final, com a cabeça cheia de “pensamentos” e “concretos”, no retorno,
percorrendo pequeno trecho da Raposo Tavares e toda extensão do Rodoanel até
Perus, fui enxergando aquilo que sempre estivera diante dos meus olhos: a radicalidade
de uma cidade toda feita de concreto! Impressionante: as largas estradas por onde
deslizavam os carros, os enormes túneis, muros enormes, pequenas e grandes
construções invadindo todas as dimensões do espaço, sinuosas e enormes pontes e
viadutos, canalizações subterrâneas e superficiais, leitos de rios e córregos,
permeabilizações de encostas, monumentos artísticos, placas honoríficas, torresreservatório,
casebres de tijolo e cimento...enfim, fiquei a imaginar o quanto de
concreto guardavam os subsolos, com suas “raízes” a sustentar toda aquela edificação
cinzenta, tão cara ao conceito atual de “progresso”.
Ali me dei conta da profundidade das vulgares (e plenas de sentido) expressões
como “selva de pedra” e “cidade de concreto”. Porém, o mais chocante de tudo é
imaginar a velocidade em que todo esse arsenal urbano brotou das mãos dos operários,
intermediadas por máquinas gigantescas. Pensar que a idade de tudo isso não
ultrapassa a de uma vida, como, por exemplo, a de um indivíduo como Oscar
Niemayer, hoje aos 97 anos.
O cimento no mundo
De fato, o cimento do tipo “Portland”, que é esse conhecido por nós, é um
produto muito recente da “civilização”, apesar de que materiais aglomerantes para
construção existem desde tempos remotos:
21
Supõe-se que o homem primitivo, da idade da pedra, já conhecia uma forma de material
com propriedades aglomerantes. Ao acenderem fogueiras junto às pedras de calcário e
gesso, parte das pedras descarbonava com a ação do fogo, formando um pó que, hidratado
pelo sereno da noite, convertia-se novamente em pedra. 15
São muitos os exemplos de construções antiqüíssimas e monumentais, feitas de
pedra e aglomerantes, que se sustentam até os dias de hoje: as pirâmides egípcias, as
muralhas chinesas, o acervo “pré-colombiano” na América, as ruínas romanas e tantas
outras.
Porém, só em 1824 foi que “um Inglês de nome Jonh Aspadin patenteou um
produto com proporções adequadas das matérias-primas e calcinadas a temperaturas
em torno de 800ºC e o batizou de ‘cimento portland’, devido a ser a sua cor cinzenta
semelhante à pedra proveniente da ilha de Portland, ao sul da Inglaterra”16.
Já o “cimento armado”, como antes era chamado o concreto armado, este surge
em 1854, na França, 30 anos depois da invenção do cimento. O concreto armado
consiste na mistura de areia, pedra e cimento, revestindo estruturas flexíveis de aço. A
aplicação generalizada do concreto armado inicia-se com Gustavo Adolpho Waiss e se
expande a partir a Alemanha, através da empresa Waiss & Freytag, em 1875.
O cimento surge no contexto de expansão das cidades e estas se expandem a
partir da generalização das aplicações do cimento. Ou seja, a produção de cimento
aparece sempre intimamente associada ao crescimento urbano, principalmente ao
incremento das obras públicas.
O cimento no Brasil
No Brasil, como não poderia deixar de ser, a introdução do cimento coincide
com o processo de expansão das suas cidades mais importantes - do ponto de vista da
economia - Rio de Janeiro e São Paulo, que, já na virada do século XIX para o século
15 Informação extraída do site da Associação Brasileira de Cimento Portland – ABCP, “História do cimento”
(www.abcp.org.br), acessado em março de 2004.
16 Idem.
22
XX, apresentava altas taxas de crescimento, suportadas, principalmente, pela já
consolidada economia cafeeira. Nesse período, o enriquecimento de uma pequena
elite, associado aos sucessivos planos de remodelação dos principais centros urbanos,17
justificam o consumo de cimento importado da Europa, que chega próximo a 40 mil
toneladas, no ano de 1904. A expressão absoluta desse número, ainda que incite a
imaginação de alguns economistas18 para justificar a necessidade de implantação de
uma fábrica de cimento no Brasil desde o início do século XX, na verdade demonstra o
incipiente uso do produto no período, conforme podemos ver na tabela abaixo.
Consumo de cimento per capta
Fonte: Boletim da ABCP, n° 43, 1940. Dados de 1937.
Ou seja, mesmo em 1937, quando a produção de cimento no Brasil se aproxima
da auto-suficiência nacional, o consumo per capta era bem inferior ao de vários países
da América Latina.
17 Principalmente na gestão de Antonio Prado entre 1899 e 1911, em São Paulo e na gestão de Rodrigues Alves
com seu plano de remodelação do Rio de Janeiro em 1904
18 O texto da Consultec, p. 1-4, traz a seguinte afirmação: “O desenvolvimento do Brasil no fim do século
passado já exigia a implantação da indústria de cimento”. A Consultec – Sociedade Civil de Planejamento e
Consultas Técnicas Ltda. – elaborou um minucioso e profundo estudo sobre o setor cimenteiro no Brasil, em
1966, intitulado A indústria de cimento no Brasil: aspectos de seus custos e desenvolvimento, Rio de Janeiro,
1967. Considero uma obra indispensável para quem pretende pesquisar sobre o setor cimenteiro no Brasil e que
pode ser encontrado na sede da Associação Brasileira de Cimento Portland (ABPC) em São Paulo. Doravante,
este trabalho aparecerá citado simplesmente como Consultec.
PAÍS
Consumo anual
per capta (Kg)
Argentina 90
Chile 68
Venezuela 48
EUA 138
Colômbia 22
Suécia 155
Brasil 20
23
Não obstante o consumo do cimento no Brasil demonstrar o crescimento
constante e significativo, desde o início do século XX, a literatura sobre a aplicação do
concreto no país indica que, até meados da década de 1920, o uso do concreto era
ainda relativamente restrito. Segundo Vasconcelos19,
A mais antiga notícia que foi possível encontrar de alguma aplicação...data de 1904,
documentada no curso do Prof. Antonio de Paula Freitas (p. 13).
No que se refere a pontes, a primeira obra em São Paulo, devidamente documentada é
descrita na Revista Polytechnica nº 31/32 de 1910” (p. 14).
Na História das Ciências no Brasil, Milton Vargas cita o primeiro edifício de concreto
armado construído em São Paulo, à Rua Direita nº 7,... em 1913 (p.15)
A expansão da utilização do concreto no Brasil coincide com a vinda da
construtora alemã Waiss & Freytag, que se instalou no Rio de Janeiro em 1924, com o
nome de Companhia Construtora Nacional S/A. Essa Companhia “foi responsável pela
importação e formação de mão-de-obra brasileira especializada (mestres-de-obra e
engenheiros) para construção em concreto armado”20.
Já os blocos de concreto pré-moldados, só bem mais tarde terão o seu uso
alastrado no Brasil. Em 1939, a utilização desses blocos é muito restrita por aqui:
Apesar dessa possibilidade, o fabrico e o uso dos blocos de concreto pré-moldados não
vêm tendo, entre nós, o desenvolvimento que merece a bem da economia, da segurança e
do conforto das habitações. O reduzido mercado nacional ora existente não tem permitido
o aperfeiçoamento das instalações de incipientes tentativas de fabricação. (Boletim da
ABCP, nº 33, de 1939).
19 VASCONCELOS, Carlos Augusto, O concreto no Brasil: recordes, realizações, história. São Paulo, Editora
Copiare, 1985.
20 Cf. Parecer Técnico de Tombamento da Área de CBCPP. São Paulo, Agosto de 1992. Prefeitura Municipal de
São Paulo.
24
Segundo Maria Lúcia Gitahy21, a pesquisa tecnológica ligada ao setor de construção
civil começa apenas em 1926.
Artigo estratégico e de luxo
Pensamos que a história de São Paulo pode partir da metáfora das
três cidades, que são uma só: a cidade de barro, a de tijolo e a de concreto.22
Esse pequeno histórico demonstra a novidade que significa o cimento e seus
produtos entre nós. O concreto armado, de fato, uma espécie de “pedra artificial”, surge
como mercadoria no bojo da chamada “Revolução Industrial”, cuja aplicação vem a
substituir a pedra natural, que agora não precisa ser transportada e erguida, mas pode ser
produzida no local; substitui também largamente as estruturas de madeira e ferro, que
antes mantinham de pé grandes prédios e pontes. O novo produto apresenta as vantagens
de ocupar menor espaço; ser impermeável, inoxidável, resistir à ação da água líquida ou
em vapor; resistir bem aos choques, ser de rápida execução e ser principalmente
incombustível.
O concreto representa, portanto, pela larga utilização que mudará a face de
todos os centros urbanos, uma reviravolta tecnológica de grande alcance na construção
civil e tem sua imagem construída, colada à idéia de progresso e modernidade:
A alma das construções humanas é esse micrométrico elemento - o cimento23.
É incontestável...que o consumo de ferro e cimento são índices característicos para o
progresso e para a civilização dos povos24.
O consumo individual do cimento é hoje um dos mais seguros índices de prosperidade e
da elevação do nível de vida de um povo25.
21 GITAHY, Maria Lúcia C. O papel do Gabinete de Resistência dos Materiais da Escola Politécnica na
transferência da tecnologia do concreto para São Paulo, 1899 – 1925: um relato preliminar. In: Os
trabalhadores da construção civil na belle époque, IICongresso Brasileiro de História Econômica, ABPHE-UFF,
Niterói, 13-16 de outubro de 1996.
22 Citação extraída do livro Espaço, técnica e construção, de PEREIRA, Paulo C. Xavier, São Paulo ed. Nobel,
1988.
23 Revista do Sindicato Nacional das Indústrias de Cimento (SNIC), n° 205/6, Nov/Dez de 1970, p. 302.
24 Consultec, op. cit. p. 1-10.
25
A produção de cimento pode ser considerada como um dos mais acertados índices de
progresso de um país em plena fase de expansão26.
Assim, numa época em que as cidades são retratadas como símbolo do
progresso, o cimento aparece como sendo a sua “alma” oculta.
Nas décadas de 1930/40, o cimento terá a sua imagem ligada também à nação e
à segurança militar, por ser um produto da indústria básica estratégica:
Ela não é apenas uma indústria básica, no sentido puramente econômico, porém, uma
indústria de interesse nacional, das que mais ligadas se acham ao progresso27.
O cimento pode ser hoje considerado como um dos mais valiosos materiais de guerra, tal
o vulto a que atinge o emprego do concreto em obras militares de defesa e de
aparelhamento estratégico28.
Porém, não é difícil imaginar que, no período descrito até aqui, o cimento seja
um artigo de luxo, cujo consumo se restringe à diminuta parcela da população, mesmo
porque, o aludido progresso, não passa de privilégio de poucos. Nunca é demais
lembrar que, concomitantemente à construção dos palacetes e das “obras de arte” da
construção civil, que rapidamente brotavam em toda São Paulo da época, se
espalhavam as vilas, os casebres e os cortiços que abrigavam os trabalhadores de
então.
A moradia popular era, na década de 1920, um dos mais sérios problemas
sentidos pela população. Certamente, em 1926, quando aqui se implantou a fabricação
de cimento em grande escala, a grande maioria da população só podia usufruir das
benesses propaladas desse produto, quando as obras públicas estavam ao seu alcance.
Isso porque,
os primeiros usos do concreto em São Paulo ocorrem associados à construção de uma
infra-estrutura urbana, energética e de transportes, envolvendo grandes companhias
25 Boletim da Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP), n° 43, 1940.
26 SCHLESINGER, Hugo. Enciclopédia da Indústria Brasileira, 2° volume, São Paulo, Ed. Brasiliense, 1959.
27 Dinet Tout Alegre, in Boletim Observador Econômico e Financeiro, de dezembro de 1948.
28 Boletim da Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP), op. cit.
26
nacionais e estrangeiras (como a Docas, Light, as companhias ferroviárias) e o governo
do estado, responsável por obras públicas29.
Até os anos 20, as iniciativas são isoladas no campo da construção de moradias
para a população de baixa renda, “tais iniciativas ficavam sob a responsabilidade dos
municípios, ou então, dos empresários e das construtoras particulares”, conforme
afirma Marisa Carpintero30. Mas o problema habitacional se agrava e só na década
seguinte passa a ser encampada pelo Estado. Segundo esta autora,
...o discurso da “casa própria” foi algo novo mas não exclusivo da classe dominante. Ele
nasce também, nesse final dos anos 20, nos “bairros operários”, no instante em que seus
moradores passam a redefinir suas concepções de cidade e de habitação. Para os setores
dominantes, a casa própria significava o elemento eficaz para a moralização e controle do
trabalhador urbano; já para os operários, ela representava uma questão de necessidade,
sobretudo, de luta pelo direito de sobrevivência na cidade. (p. 15)
Nesse ano, as casas populares não eram fabricadas com cimento, devido ao seu
alto custo e porque o seu uso requeria conhecimentos ainda pouco difundidos no
Brasil. Para termos uma idéia, por volta de 1940, “nos grandes centros, o cimento
nacional é vendido ao preço de 11$500 a 12$500 [réis] por o saco”31. Isso
correspondia a cerca de 10 horas de trabalho de um operário não qualificado da
CBCPP. Ou seja, era um produto quase inacessível ao trabalhador comum. Ocorre que
esse preço, certamente, era aquele cobrado na saída da fábrica, pois, segundo o
relatório da Consultec32, em 1940, a saca de cimento na Fábrica custava 12$300 réis,
mas, com os caros custos do transporte o preço chegava a 18$500 réis no atacado.
Seguramente o cimento nesse período, não compunha a cesta básica do
trabalhador. Nessa época, o tijolo de barro estava se consagrando como substituto da
29 GITAHY, Maria Lúcia C.. op. cit., página 233.
30CARPINTERO, Mariza Varanda Teixeira. A construção de um sonho, habitação econômica:os engenheirosarquitetos
e a formulação da política habitacional no Brasil. Campinas-SP: Editora da Unicamp, 1997.
31 Informação extraída do Boletim da Associação Brasileira de Cimento Portland (APCP), n° 43, de 1940.
32 Conforme relatório da Consultec, 1967, p. 2-33.
27
taipa em São Paulo. “Os blocos de concreto pré-moldados, são nesse momento, temas
de estudos científicos e teóricos, não testados na prática”33. Nesse sentido, os técnicos
que elaboraram o Parecer de Tombamento da Fábrica de cimento chegam a uma
interessante conclusão:
Concluímos, então, tratar-se de projeto pioneiro no Brasil a utilização de alvenaria de
blocos de concreto na construção, em 1926, das Vilas Triângulo e Fábrica, em Perus.
Soma-se a isso o fato dessas vilas possuírem características arquitetônicas peculiares, que
as fazem únicas neste aspecto (p. 91).
O mesmo Parecer, na página 93, alerta que a presença da fábrica de cimento no
bairro não significou a expansão do uso desse produto para os seus moradores na
década de 1930, pois:
Toda a produção de cimento era comercializada e enviada para fora de Perus; quem
optasse pela sua compra deveria faze-lo em outros bairros de São Paulo e pegar o frete até
Perus, o que tornava o uso do bloco de concreto mais dispendioso que o do tijolo de
barro ou cerâmico.
Parte dessas construções ainda estão preservadas e atestam a utilização do
concreto armado não só na estrutura das casas, mas também na fabricação das lajes e
telhas. Elas podem ser pensadas como um flagrante curioso, ligeiramente antecipado,
da transição da cidade de tijolo para a cidade de concreto.
33 Conforme Parecer Técnico de Tombamento da área da Companhia Brasileira de Cimento Portland Perus. São
Paulo, Departamento de Patrimônio Histórico do Município de São Paulo (DPH – STLP/STCP), 1992.
28
Alguns antecedentes da produção cimenteira no Brasil
Falamos sobre a importância da invenção do cimento no mundo pós-revolução
industrial e também comentamos sobre a expansão vertiginosa da cidade de São Paulo
desde o início do século XX. Foi essa expansão urbana que inspirou o cônsul norteamericano
a escrever, em 1908, sobre a crescente demanda por cimento no Brasil.
“Não há razão para que o Brasil não forneça o seu próprio cimento”34. Quando
o diplomata relata esse ponto de vista, certamente ele está se apoiando em dois
aspectos básicos para a instalação de um empreendimento cimenteiro, como se
problemas dessa ordem se resumissem aos seus aspectos técnicos: a existência de um
grande mercado para o produto e a existência de jazidas de calcários adequados para a
produção de cimento. Não obstante o relatório do político norte-americano enxergar os
entraves causados pela precariedade do sistema de transporte, ele parece abstrair
outros fatores que são essenciais, como as circunstâncias políticas e econômicas
governamentais que favorecem ou não os investimentos na produção nacional, além da
questão do combustível, que compõe parte considerável do custo do cimento, no caso
brasileiro de então.
De fato, a história da introdução da produção de cimento no Brasil não foge à
lógica do tortuoso trajeto da “tardia” industrialização brasileira, mas, não deixa de
apresentar traços peculiares, que carecem de pesquisas mais aprofundadas.
Aparentemente, não obstante a lógica geral comum, há muitos aspectos obscuros nessa
história. Porém, o meu propósito neste trabalho passa bem ao largo destes problemas,
não por falta de interesse, mas pela exigência da objetividade nesta pesquisa. Ainda
assim, faz-se necessário, pelo menos, mencionar sucintamente essas tentativas
frustradas de implantação de fábricas de cimento no Brasil, antes da chegada da
Companhia Brasileira de Cimento Portland (CBCP). Essas experiências remontam ao
final de século XIX.
34 Citação extraída do livro de SUZIGAN, Wilson. A Indústria Brasileira: origem e desenvolvimento. S. Paulo,
Hucitec - Unicamp, 2000.
29
Os vários textos consultados que tratam da introdução do cimento no Brasil
versam sobre três importantes experiências fracassadas: a primeira, é datada de 1892,
ocorrida na Ilha de Tiriri, na Paraíba. Esse empreendimento precoce, não obstante
localizar-se próximo a uma grande reserva calcária perto da capital do Estado e ter
conseguido produzir um cimento de boa qualidade, não durou mais que três meses.
A cessação definitiva das atividades é um mistério para o qual não se encontrou ainda
uma explicação aceitável...É possível que a causa do abandono da fábrica fosse a
verificação da impossibilidade de lutar com o cimento importado, pelo alto custo de
produção em Tiriri, devido ao trabalho em pequena escala e tendo que conquistar
mercados muito distantes da zona de produção, ou talvez ainda por desinteligência entre
os financiadores e o animador do empreendimento.
Um articulista atribui a paralização definitiva das atividades à campanha de
desmoralização contra o produto nacional desencadeada pelos importadores de cimento35.
A outra experiência ocorreu na fazenda Santo Antônio, a 80 km de São Paulo,
sob a iniciativa de Antônio Proost Rodovalho36, que chegou a montar, com aval de
capital francês, em 1897, uma instalação com capacidade para produzir 25.000
ton/ano, “o que deveria corresponder ao consumo nacional da época de sua
inauguração” (Consultec, 1967, p. 1-7). Com a produção irregular marcada por várias
paralisações das atividades, esse empreendimento encerra suas atividades em 1918,
sem ter conseguido se impor no mercado nacional.
35 Consultec..., p. 1-16.
36Antonio Proost Rodovalho foi o mesmo empreendedor que implantou a primeira grande fábrica de papel do
Brasil, no final do século XIX, que mais tarde, em 1921, foi encampada pela família Weiszflog, de origem
alemã. Além da fábrica de papel, o empreendimento comportava também fábrica de cerâmica e fábrica de cal.
A breve história do cimento “Rodovalho”
mostra que não basta ter boa matéria-prima
para alcançar sucesso: é indispensável,
também, uma assistência tecnológica
adequada para atingir com segurança a meta
desejada. (Consultec, 1967, p. 1-8)
Logotipo do produto da Rodovalho (4)
30
A escrita especializada no assunto cita também outra experiência fracassada,
iniciada em 1912, desta vez no Espírito Santo, a partir de iniciativa estatal, através do
Governo do Estado. Trata-se da primeira fábrica de cimento dotada de forno rotativo;
era de pequena capacidade, em condições de produzir apenas cerca de 8.000 ton/ano.
Segundo Teixeira de Castro, “as dificuldades inerentes a essa fábrica não se relacionavam
com a técnica propriamente dita, mas eram dependentes de fatores de ordem externa,
envolvendo problemas de transporte, distribuição e consumo” (Consultec, 1967, p. 1-8)
Se procedêssemos a um estudo mais pormenorizado acerca das motivações reais
que determinaram o fracasso dessas experiências, poderíamos, talvez, encontrar as
razões desse relativo atraso na implantação bem sucedida da fabricação de cimento em
larga escala no Brasil. Élcio Siqueira37 sugere que isso se deve ao fato de haver, à
época, um mercado internacional oligopolizado no setor, o que dificultava a instalação
de empresas sem potencial de concorrência. Assim, só um empreendimento que já
nascesse grande e poderoso poderia dar conta de enfrentar um mercado já controlado
por grandes corporações.
Contudo, a questão do relativo atraso ganha mais pertinência quando nos
colocamos diante do fato da Argentina ter iniciado a produção de cimento em larga
escala desde 1919, sendo que, no ano de 1937 esse país produzia quase o dobro de
cimento que o Brasil, atingindo a produção de 1.035.496 t, quando no Brasil, nesse
mesmo ano, a produção era de apenas 571.452 t38.
De qualquer forma, pelo exposto acima, para que um empreendimento do porte
de uma fabricação de cimento logre sucesso, é necessário que haja simultaneidade de
incidência de vários fatores, tais como: abundância de matéria-prima adequada, grande
mercado consumidor, pesquisas que garantam conhecimento técnico-científico para
assistência técnica e controle de qualidade do produto, capacidade de aquisição de
fontes energéticas viáveis, circunstâncias favoráveis no país para enfrentar os
37 SIQUEIRA, Élcio. Op. cit. p. 66.
38 Boletim ABCP, n° 43.
31
interesses dos beneficiários com a importação do produto e condições políticas e
econômicas que garantam a disputa com o mercado internacional.
Como veremos adiante, a primeira experiência bem sucedida na produção de
cimento no Brasil surge exatamente a partir de uma enorme infra-estrutura préexistente
e mediante uma articulação de muitos interesses que envolviam altos
escalões do grupo hegemônico da política paulista.
Indústria da cal como “pré-história” da produção cimenteira no Brasil
Convém uma rápida descrição desse complexo produtor de cal, que envolve a
articulação de dois empreendimentos que requerem grandes inversões de capitais: a
exploração de minérios e a construção de ferrovia. Acho muito importante retomar esse
histórico, não só para situar o leitor, mas também porque a história desse complexo traz
íntimas relações com a formação da primeira fábrica bem sucedida de cimento do país.
O que mais diretamente me interessa aqui é dimensionar o tamanho e o grau de
importância desse empreendimento para, então, relacioná-lo com a gestação da
fabricação do cimento em larga escala no Brasil. Afinal de contas, a exploração das
jazidas de cal e a montagem da Companhia Estrada de Ferro Perus Pirapora (CIEFPP),
formam o que poderíamos chamar de “pré-história” da indústria de cimento no Brasil.
A indústria da cal: em busca de uma estimativa
A região entre Caieiras, Perus e Parnayba, desde o final do século XIX,
destacava-se como produtora de cal no Estado. Não foi possível dimensionar com
precisão o tamanho relativo dessa indústria, porém, como as jazidas de calcário estão
situadas nessa região de São Paulo, certamente era essa a fonte principal a fornecer
esse produto para garantir o crescimento imobiliário da capital39.
39 Relatório da EMPLASA – Empresa Metropolitana de Planejamento da Grande São Paulo, de outubro de 1979,
constata que toda produção de calcário e dolomitos da região da Grande São Paulo, localiza-se apenas em 2
municípios: Cajamar e Pirapora do Bom Jesus. Nesse ano, a produção desses minerais atingia 43.000 t/mês.
32
O processo de fabricação da cal é muito mais simples que o do cimento, pois, o
seu processamento é bem mais simplificado, exigindo equipamentos muito menos
complexos, além de que, apesar da sua matéria-prima também ser o calcário, este não
precisa ter as especificações de componentes como o calcário utilizado na fabricação
do cimento.
A cal, além da aplicação na construção, já nessa época, era também utilizada na
fabricação do vidro, do papel, do açúcar, do sabão, das velas, de azulejos e outros
produtos similares. A cal era também aplicada na siderurgia, na purificação de gases,
na indústria química (soda cáustica, ácido acético, vulcanização de borracha, etc), em
obras de saneamento, etc. Em uma publicação do Ministério das Relações Exteriores
encontramos a informação de que,
Embora não possamos determinar em que proporções é a cal utilizada nas diversas
indústrias do Brasil, podemos adiantar que cerca de 80% da produção é consumido pela
indústria da construção40.
De todas as fontes consultadas, nenhuma informa especificamente a produção
ou consumo desse material no início do século XX. Normalmente os dados abrangiam
a produção mineral em geral, não distinguindo a produção caieira no Estado. Nem
mesmo a Associação Brasileira de Produtores de Cal (ABPC) dispõe de informações
tão remotas sobre a produção de cal. A contabilização do setor é algo muito recente e
ainda hoje é difícil dimensionar a produção, devido ao sem número de pequenos
produtores de cal cuja produção não aparece nos dados estatísticos.
Em 1940 a situação não era diferente:
Existem 1.582 caieiras no país (...). Difícil se torna apurar a produção total de cal no
Brasil, em virtude da enorme disseminação dos depósitos por todo país41.
40 Conforme publicação do Ministério das Relações Exteriores, Brasil: 1940-41, relação das condições
geográficas, econômicas e sociais, Rio de Janeiro, 1941, p.278.
33
Entretanto, através de uma documentação da época, tive acesso a algumas
informações que nos dão uma idéia da produção de cal na região, em termos absolutos.
Os empreendedores da Companhia Industrial Estrada de Ferro Perus Pirapora
(CIEFPP), ao justificar a importância da abertura da ferrovia, citam uma capacidade de
produção de 180 mil sacas de cal por ano, das empresas Beneducci (60 mil/ano) e
Melhoramentos (120 mil/ano), nessa região, no ano de 190942. Isso corresponde a
7.200 toneladas/ano, se considerarmos o peso das sacas em 40 kg.
Já no ano de 1923, conforme os dados fornecidos pela própria Fábrica de
cimento em Perus43, a Estrada de Ferro Perus-Pirapora transportou cerca de 23,2 mil
toneladas de cal. Digamos que a capacidade de produção da Melhoramentos tenha se
mantido nas 10 mil sacas por mês, teríamos, então, uma produção anual de 28 mil
toneladas de cal produzida em 1923. Se foram transportadas 23 mil toneladas de cal, é
provável que a capacidade de produção da Beneducci tenha atingido as 25 mil
toneladas por ano projetada em 1909.
Em 1935, a CIEFPP informa o transporte de cerca de 13,5 mil toneladas de cal,
provenientes das pedreiras de Perus e Gato Preto, e, através do Processo do
Condephaat citado, p. 52, ficamos sabendo que no ano de 1935,
...a cerca de 3 km de Entroncamento [km 16, ponto onde oficialmente encerra a linha
Perus-Pirapora], já se estabeleceu uma nova bateria de forno para cal, das Indústrias
Reunidas Francisco Matarazzo, já estando, segundo informações que obtive com a
produção media mensal de 30.000 sacos de 40 kg, superior portanto á produção de Gato
Preto.
41 Idem, p. 278.
42 Esses números constam no ofício enviado ao Secretário dos Negócios da Agricultura, em 11/10/1909, página 3,
onde os empreendedores solicitam a concessão para montagem da Estrada de Ferro. Cópia deste documento
encontra-se na sede do “Sindicato dos Queixadas”, em Perus. O texto diz que a produção da Beneducci em 1909
é de 5.000 sacas por mês, mas já havia o projeto para ampliação que atingia a capacidade de 25 mil sacas/mês.
43 Conforme Porcesso Condephaat n° 21.273/80, p. 298.
34
Ou seja, se somarmos a produção transportada pela CIEFPP, com a produção da
Matarazzo e ainda uma estimativa da Melhoramentos de cerca de 4,8 mil
toneladas/ano, chegaríamos a uma estimativa de produção em torno de 32,7 mil
toneladas/ano de cal produzida na região de Água Fria, Perus e Caieiras. Entretanto, a
capacidade de produção seria muito maior que essa, se observarmos que estamos
considerando uma produção de apenas metade da capacidade produtiva das caieiras
Beneducci em 1935, e que não sabemos a capacidade instalada da Matarazzo e da
Melhoramentos nessa época.
Para formarmos uma idéia aproximada do que isso representa, vamos comparar
com um dado apresentado pela citada publicação do Ministério das Relações
Exteriores, do ano de 1941, que nos informa sobre o consumo da cidade do Rio de
Janeiro, mas afirma não conhecer os dados sobre o consumo de cal da cidade de São
Paulo:
A cidade do Rio de Janeiro consome em média 8.500 toneladas de cal por ano. Desse
total o Estado de Minas fornece 88,6% (cal de pedra) e o Estado do Rio 11,4% (cal de
mariscos).
Não há dúvidas de que o Rio de Janeiro seja um bom parâmetro para medirmos o
de consumo de cal de São Paulo. É de se supor que São Paulo consumia, então,
quantidade igual ou superior de cal em relação à cidade fluminense. Assim, aquela
nossa estimativa acima, que sugere a produção de 32,7 mil toneladas/ano de cal na
região em estudo, revelaria uma produção que excederia em muito o consumo da
capital paulista. Sou levado a crer, portanto, que a região de Perus, Caieiras, Parnaíba e
Pirapora, produzia cal, talvez, para todo o Estado de São Paulo, já que produzia,
efetivamente cerca de três vezes a quantidade relativa ao consumo de uma cidade do
porte de São Paulo.
Para efeito de elucidação e de síntese, apresento uma tabela que reúne e resume
os dados acima expostos:
35
Produção/consumo de cal
Em ton/ano
1909 7.200
1923 28.000
1935 32.700
Consumo de cal na capital
do Rio de Janeiro, em 1940
8.500
Se isso se confirma, veremos que a região abrigou uma importante indústria
antes da chegada da fábrica de cimento em 1926; uma indústria chave no setor da
construção civil.
A Revista do Trabalho44 n° 4, de 1932, publicou uma matéria resultante de uma
visita que os seus editores realizaram à indústria de cal em Gato Preto. Os
representantes da Revista se mostraram impressionados com o “estabelecimento
industrial aparelhado de maquinário e instalações modernas com capacidade para a
produção diária de 1.500 sacas de 50 quilos”. Os editores destacam a Fábrica de cal de
Gato Preto que fica na região de Perus, “onde estão localizados vários
estabelecimentos industriais de notável importância”. Ainda segundo essa matéria,
nessa fábrica trabalham “mais de 200 trabalhadores, em sua maioria chefes de família
e nacionais”.
Não obstante o tom da matéria mais parecer um reclame comercial da caieira de
Gato Preto, a redação não deixa dúvidas de tratar-se de uma fábrica de importância
significativa, que pelo número de operários que emprega, representa uma empresa de
porte médio.
44 Revista do Trabalho, Ano I, n° 4, São Paulo, 1° de fevereiro de 1932. Pode ser encontrada no acervo da FIESP
na biblioteca do IFCH-UNICAMP.
36
A primeira ferrovia industrial
Foi exatamente essa indústria de cal que justificou e viabilizou a criação da
Companhia Industrial Estrada de Ferro Perus Pirapora (CIEFPP). Essa ferrovia
compõe um complexo empreendimento que funcionaria como equipamento a serviço
da industria de transformação e não diretamente à indústria cafeeira. Aliás, esse é um
Fábrica de cal da Indústria Melhoramentos (5)
Foto de fornos de cal em Gato Preto (aproximadamente em 1914) (6)
37
fato que confere a marca de pioneirismo, no caso brasileiro, por se tratar da primeira
ferrovia industrial do país45.
A existência de um grande mercado para a cal, o fato de haver reserva de
matéria-prima disponível e abundância de força de trabalho que não requer grandes
qualificações, como é o caso dos trabalhos em pedreiras46, tudo isso explica a criação
da Companhia Industrial e Estrada de Ferro Perus Pirapora (CIEFPP), em 1910.
A história dessa ferrovia apresenta passagens tão tortuosas quanto suas linhas, a
começar pelo seu destino nunca alcançado: Pirapora. Com a justificativa de promover
o desenvolvimento da região e, ao mesmo tempo, atender à demanda de muitos
romeiros que para essa cidade se dirigiam para praticar a sua boa fé, a Estrada fora
projetada em 1910 e inaugurada parcialmente em 191447.
A estrada projetada visa o desenvolvimento da zona a percorrer (...) Durante as festas do
Senhor Bom Jesus, o número de romeiros que, de toda parte, afluem para Pirapora,
ultrapassa de 30.00048.
No entanto, o que não se sabe é se a boa fé também guiou os interesses de
quem se aproveitou das concessões dos poderes públicos e geriu o empreendimento
ferroviário, que, após vários pedidos de adiamento de sua conclusão, jamais chegou
ao seu destino original e publicamente propalado. Entre 1913 e 1934, foram oito os
45 A citada Estrada de Ferro é hoje considerada um dos maiores e mais interessantes acervos do patrimônio de
ferrovias no Brasil e, por esse motivo, foi tornado Patrimônio Histórico, tombado pelo Condephaat em 1987.
Trata-se de uma das raridades de ferrovia com bitola de 60 centímetros no país. Por ter sido uma das últimas a
tornar-se obsoleta no Brasil, a Ferrovia Perus - Pirapora beneficiou-se do desmonte de suas similares pelo Brasil a
fora, adquirindo, assim, equipamentos fabricados por diversas empresas em diferentes épocas, que expressa uso
de tecnologias variadas. A EFPP forma, assim, uma espécie de palimpsesto ferroviário, tornando-se um
“excelente museu em potencial”. Um pouco dessa história encontra-se em GORDINHO, Margarida C., Estrada
de Ferro Perus-Pirapora: uma proposta de revitalização, São Paulo, Marca d’água, 1990.
46 No capítulo seguinte trato da qualificação dos trabalhadores em pedreira voltadas para a produção de cimento.
47 Em Perus, na sede do Sindicato de Trabalhadores nas Indústrias de Cimento, há cópia de parte do Processo de
Tombamento da Ferrovia que contém documentos de desde 1909, que narra alguns importantes momentos da
constituição da CIEFPP. A concessão para exploração da ferrovia resultou, inclusive, de disputa jurídica que
envolveu a São Paulo Railway e a E. F. Sorocabana.
48 Cf. ofício enviado ao Secretário dos Negócios da Agricultura, em 11/10/1909, onde os empreendedores
solicitam a concessão para montagem da Estrada de Ferro. Este documento compõe processo acima citado.
38
pedidos de adiamento para a conclusão da linha até Pirapora49, prevalecendo sempre a
benevolência dos poderes públicos com a aceitação dessas prorrogações, ferindo o
contrato de concessão e contrariando interesses como o de moradores do município de
Parnayba, que se ressentia da falta desse que se constituía no mais eficiente meio de
comunicação e transporte da época: a ferrovia. Apesar de aparecer intercalada entre as
duas maiores redes ferroviárias de São Paulo, a Sorocabana e a “Ingleza”, a sede de
Santana do Parnayba não se beneficiara desse principal meio de transporte.
Em 1925, em uma publicação laudatória em homenagem ao tricentenário da
cidade50, esse ressentimento aparece em forma de lamentação:
No município acham-se installadas as grandes fabrica de papel, cal, cerâmica e outras da
Companhia Melhoramentos de São Paulo; a grande fabrica de cal e brevemente de
cimento da Companhia Industrial Perus-Pirapora, esta com o capital de vinte mil contos e
estrada de ferro própria; as fabricas de cal do Vão e dos Pires: entretanto estes grandes
estabelecimentos não influem para a sede do município, porque a exportação de seus
productos é feita pelas estações de Cayeiras e Perus, ambas na estrada de ferro Ingleza.
(...) Todavia, com tantos meios de desenvolvimento que o município possue, acha-se
privado do essencial, que é o transporte facil e barato, fechado como se acha por um
circuito de estradas de ferro: a Ingleza, de São Paulo a Jundiahy e a Sorocabana...(p. 32).
Em sua obra citada, Margarida Gordinho também se refere às reiteradas
solicitações feitas pelo município de Parnayba para que as obras da estrada de ferro
chegassem até o município51.
Além do ressentimento da sede do município de Parnayba, esse texto de 1925
flagra a construção da fábrica de cimento e inclui Perus e Caieiras como regiões
pertencentes ao município, fato que pode ser indício da falta de cuidado dos
historiadores de Parnayba que publicaram a “Polyanthea”, mas pode indicar também a
49 Cf. Processo n° 21.273/80, vol.II, Autos 19.795, p. 330, CONDEPHAAT.
50 Trata-se da publicação intitulada de POLYANTHÉA, datada de 1925, editada pela Cia. Melhoramentos de São
Paulo, organizada por João José de Oliveira, João Sant’Aanna e Antonio Cardoso Filho.
51 GORDINHO, Margarida. Op. cit.
39
íntima ligação do eixo Água Fria – Perus – Caieiras52, que, a despeito de pertencerem a
municípios diferentes, formavam o que hoje poderia ser considerada como uma microregião.
Os empreendedores da CIEFPP alegavam a falta de recursos, a pobreza da
região e o insignificante fluxo de gentes, como justificativas para a não construção da
ferrovia até o destino previsto no contrato de concessão. Não obstante, um ramal de 11
km estendia a ferrovia para destinos outros, cujos rumos eram guiados pelos interesses
privados dos proprietários das terras e jazidas minerais. Essa extensão foi construída
sem concessão legal do Estado, interligando vários centros de extração e produção de
cal ao tronco central da São Paulo Railway. As autoridades tinham conhecimento
dessas irregularidades, chegando a citá-las nos processos jurídicos que envolviam a
CIEFPP, mas faziam vistas grossas.
Em 1936, após vários pedidos de prorrogação, finalmente a Companhia Perus-
Pirapora solicita à Viação de Obras Públicas a desistência da concessão do trecho não
construído entre o km 16 e Pirapora, bem como a transformação da linha férrea
concedida para estrada de caráter particular. O primeiro pedido é atendido, mas não o
segundo.
Este processo deixa entrever algumas tensões existentes entre os sócios da
Estrada de Ferro e também, entre essa Companhia e a Fábrica de Cimento, apesar das
duas empresas terem um sócio em comum: o Sr. Sylvio de Campos. A transformação
da CIEFPP em estrada de caráter particular, além de desonerá-la das verbas
transferidas ao Estado pela concessão, a desobrigaria também do transporte de
passageiros. Esse episódio gerou um atrito entre a Companhia ferroviária e a
população usuária, que reagiu à proposta da empresa que se desobrigava do transporte
de passageiros. A grande maioria desses usuários era formada por trabalhadores das
indústrias de cimento e cal. Vivendo nos entornos dessas unidades fabris, uma
52 Enquanto Água Fria e Perus pertenciam a Parnaíba e S. Paulo, respectivamente, onde hoje é o município de
Caieiras pertencia ao Município de Juquery, que hoje é Mairiporã.
40
população estimada em 800 pessoas53, não apenas utilizava o trem como único meio
de locomoção, mas era este também responsável pelo transporte dos bens de consumo
dessas pessoas, que vinham de São Paulo e outras localidades. Segundo cálculos
fornecidos pela empresa, o número de usuários era muito pequeno para se justificar o
transporte, estimado em 7.990 passageiros no ano de 1934 e 8.454 passageiros no ano
seguinte. Porém, o Parecer da Viação de Obras via de outra maneira:
Do expostos, concluo, haver um publico que tem, como meio praticamente único, de
transporte, esta estrada de ferro, sendo certo que quase todo ele, se localiza na zona
estranha à linha concedida, e em grande parte é composto de empregados das industrias,
subsidiarias das quais, permanecerá a Estrada, si se deferir o requerimento54.
A atitude da CIEFPP em se desobrigar a transportar passageiros gerou um
processo que foi mediado pela Viação de Obras Públicas e o protesto da população
local, que se revoltara com a proposta da Companhia:
Acontece, porém, que reiterados protestos dos moradores da zona servida pela Estrada de
Ferro, publicados pela imprensa, fizeram o suplicante melhor ponderar sobre o assunto,
resultando daí convencer-se da inteira justiça daqueles protestos e da nenhuma razão do
pedido de cancelamento de concessão formulado pela EFPP55.
Os protestos dos moradores, que tiveram repercussão na imprensa, seriam
apenas mais um dos elementos a acirrar o que parecia ser uma disputa entre os sócios
da Companhia da Estrada de Ferro, pois, há indícios de que os proprietários da
CIEFPP encontravam-se divididos e em conflito. A relação contratual entre a Estrada
de Ferro e a Companhia de Cimento pode ter sido o pivô dessa refrega. A utilização da
ferrovia pela Companhia de cimento aparecia como salvação da CIEFPP, que sempre
53 Cf. Processo do CONDEPHAAT citado, Autos 19.795/36, p. 45. “...a população que se desenvolve junto aos
fornos e ás pedreiras, ultrapassa 800 habitantes, em sua quase totalidade trabalhando para essas Empresas,
nada retirando da terra portanto, recebendo para sua manutenção quase tudo de fora”.
54 Cf. Processo do CONDEPHAAT citado.
55 Idem acima.
41
se anunciava como deficitária, ao alegar que não poderia cumprir o contrato de
concessão que exigia o destino em Pirapora. Porém, a suposta fragilidade financeira da
Estrada de ferro, contrastando com o gigantismo e vigor do empreendimento
cimenteiro, parecia estabelecer uma “relação desarmônica”56, onde a única beneficiária
era a última. O parecer da Viação capta essa tensão:
Se é verdade que a Companhia [ferroviária] não tem distribuído dividendos, isso decorre,
antes, dos contratos verdadeiramente gratuitos que mantem com a Fabrica de Cimento
Portland e com empresas industriais de acionistas [provavelmente refira-se às fábricas de
cal pertencentes aos sócios da EFPPP, ou seja, as famílias Beneducci e Campos] que da
falta de fonte de renda.
Ora, em 1936, sete membros da família de Sylvio de Campos era dona de
50,2% das ações da CIEFPP, sendo que Sylvio era também sócio da Companhia de
Cimento; a família Beneducci, detinha 49,8% das ações da CIEFPP, mas não
participava do consórcio canadense. Isso pode explicar a posição dos Beneducci, que
retiram o pedido de cancelamento da concessão, advogando em favor do uso público
da ferrovia e denunciando os interesses da Companhia de Cimento, como podemos
perceber neste trecho do Processo citado do CONDEPHAAT:
Permitir que a Estrada passe de condição de concessionária de serviço público á de
Estrada particular seria lavrar sentença de morte á industria suplicante – que fatalmente
seria devorado ou tragado pela Companhia de Cimento, a maior interessada, por isso
mesmo, no cancelamento da concessão. (Parecer do advogado de Florindo Beneducci,
datado de 22.09.1937)
Os protestos dos moradores da região parece que foram favorecidos pela divisão
na cúpula empresarial do empreendimento ferroviário-cimenteiro, e que teve como
56 Tomo emprestado essa expressão das ciências naturais, onde os biólogos consideram uma “relação
desarmônica”, quando a vantagem de um organismo associado determina imediato dano ou desvantagem ao
outro.
42
desfecho a vitória dos usuários dos trens. Entretanto, o conflito parece ter se estendido
a disputas fundiárias envolvendo as famílias Beneducci na região, cujos indícios
aparecem no referido Processo.
O resultado do conflito termina com a saída dos Beneducci da Compmahia
Industrial Estrada de Ferro Perus Pirapora, que acabam vendendo todas as suas ações
aos outros sócios. Talvez eles não tenham suportado as pressões das forças cuja
articulação perpassava o capital fundiário, o industrial e o poder político, todos esses
concentrados na família Campos.
De tudo o que foi dito, o que quero ressaltar é que essa ferrovia constituiu-se
como um moderno equipamento para servir de suporte para produção de cal. São
quase trinta quilômetros de ferrovia que, apenas residualmente serviu para transportar
passageiros e mesmo assim o fez para deslocamento da força de trabalho que daria
vida a todo o complexo citado.
As “íntimas” relações entre o público e o privado
A Companhia Industrial e de Estrada de Ferro Perus Pirapora (CIEFPP) teve
como acionistas-fundadores, grandes proprietários de terras na região de Perus, como
Arthur da Costa Jambeiro e a família Beneducci (esta, aliás, que já explorava a
fabricação de cal na região), Clemente Neidhart, industriário, e também nomes
Composição da CBCPP em trecho da Estrada de Ferro Perus-Pirapora, na altura
de Gato Preto (7).
43
conhecidos na política paulista, como o do advogado Sylvio de Campos. Esses
acionistas associados montaram um empreendimento cujo capital declarado na Junta
Comercial em 1910 era de 400:000$000.
Sylvio de Campos é figura central e ponto de intersecção desses grandes
empreendimentos afins: junto com Costa Jambeiro e o canadense Neidhart, forma
consórcio que dá origem à CIEFPP, em 1910; mais tarde, em 1924, Sylvio e Jambeiro,
associados ao representante da Drysdale & Pease, do Canadá, compõem o grupo de
acionistas que funda a Companhia de Brasileira de Cimento Portland, em Perus, sendo
ele, Sylvio, o primeiro presidente da Companhia.
Todo esse poderio econômico-empreendedor vem acompanhado do tempero
político, que bem expressa a íntima relação entre economia privada e coisa pública
durante a Velha República, sempre capitaneada pelo PRP, partido do qual fazia parte a
família Campos: Sylvio era filho de Bernardino de Campos, este que fora presidente
do Estado de São Paulo por duas gestões, entre 1892 – 1896 e 1902 – 1904, e irmão de
Carlos de Campos, ocupante do mesmo cargo entre 1924 – 1927. Ele próprio, Sylvio,
foi deputado federal nos períodos de 1924 – 1930 e 1946 – 1951, sendo deputado
constituinte em 1946. Militante destacado do PRP, lutou contra o golpe da Aliança
Liberal em 1930; colaborou ativamente na resistência paulista de 1932 e foi um forte
opositor do governo Vargas57.
A São Paulo Tramway Light & Power Company aparece como outra variável
estratégica nesse imenso jogo de interesses. Desde o final do século XIX, esta empresa
atua no setor de transporte e na geração, transmissão e distribuição de energia elétrica,
participa e se beneficia de quase todas as grandes obras no processo de expansão da
cidade de São Paulo. A dimensão é tal que o jornal O Estado de São Paulo de
25/06/1908 chega a afirmar que a Light “é um estado dentro do município58.” O que
não se constitui em exagero, se compararmos o capital da empresa em 1900, de 36.000
57 Informações baseadas no Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro: 1930 – 1983. Rio de Janeiro, Forense –
Universitária, 1984.
58 Cf. A Cidade da Light (1899-1930), vol. I, São Paulo, Eletropaulo1996, (p. 13).
44
contos de reis, com a arrecadação do município de São Paulo no mesmo ano, que é de
3.760 contos de reis 59.
Seu imenso poderio econômico e sua capacidade de influência, inclusive na imprensa,
aliados à sua intimidade com as oligarquias dominantes locais – representadas pelo
Partido Republicano Paulista (PRP), cujas relações com a Light eram muito estreitas,
tanto a nível estadual como municipal – facilitavam a sua expansão60.
Não é fortuito esse destaque dado a essa empresa canadense, afinal, a família
Campos tem vinculações estreitas com a Light, e esta com a Companhia de cimento,
em Perus. Um dos irmãos de Sylvio de Campos, Américo de Campos, quando este se
encontrava em missão do Governo do Estado no Canadá, foi um dos responsáveis pela
articulação dos empreendedores que vieram a formar o consórcio fundador da Light e
sua instalação no Brasil, no ano de 1897 61. Carlos de Campos, outro irmão de Sylvio,
foi advogado da Light e “um dos mais importantes braços políticos, em pleno
exercício de seu mandato como presidente do Estado62”.
Em 1925, em meio a uma enorme crise energética, que atingiu São Paulo desde
1924, devido a uma longa estiagem e à pequena capacidade de se atender à crescente
demanda de energia elétrica no Estado, a Light constrói um ramal de alta tensão entre
Caieiras e Perus, beneficiando diretamente a fábrica de cimento que estava prestes a
ser inaugurada e tinha na energia elétrica uma força vital63.
Esse “favorecimento” à Companhia de cimento em 1925 contrasta com o
descontentamento dos parnaibanos, que estão a comemorar o tri-centenário da cidade,
mas não comemoram a permanência da Light no município:
A realidade, porém, não demorou a patentear-se.
59 SOUZA, Edgard de. História da Light, primeiros 50 anos. São Paulo, Eletropaulo, 1982. (p. 39)
60 Cf. A cidade da Light, op. cit. (p. 13)
61 Cf. SOUZA, Edgar de. Op.cit.. (p. 27).
62 Cf. A Cidade da Light, op. cit., (p. 13).
63 Cf. SIQUEIRA, Élcio, op. cit. (p. 30).
45
(...) Sacrificou-se Parnayba nas cláusulas de um contracto onerozíssimo que nada
proporcionou para o seu progresso.
(...) A construção de uma linha de bonde, única promessa escripta que se lhe fez, ainda
permanece sem execução...
(...) Da verdadeira beneficiada, a poderoza Light, nada podemos esperar. A ingenuidade e
boa fé dos nossos vereadores de então foi illudida com promessas que só se cumpririam
quando conviesse à beneficiada64.
Os parnaibanos lamentam um acordo com a Light para explorar as fontes
naturais do município, onde a empresa prometera proporcionar o progresso da região,
instalando ali, inclusive, uma linha de bonde.
No início da produção, 94% do cimento produzido pela empresa canadense em
Perus é adquirido pela canadense Light65. Aliás, a interferência da Light nos anos
iniciais da produção de cimento parece ter sido decisiva para a consolidação da
fábrica. Mesmo com todas as condições favoráveis à implantação da fábrica de
cimento naquele momento, a conquista de mercado, no caso desse produto, tem o
elemento complicador da necessidade de conquista da confiança do consumidor. Como
o cimento é um produto aplicado em obras de grande porte e que requer o máximo em
controle de qualidade, por razões óbvias, a imagem produzida da mercadoria assume
papel decisivo e isso não cabe apenas a um departamento de propaganda. Em
seminário66 realizado pelo setor do cimento em maio de 1948, o depoimento de um dos
participantes destaca as dificuldades encontradas pela primeira grande fábrica de
cimento para conquistar o mercado, devido ao teor de magnésio do calcário utilizado,
que estaria acima do limite recomendado pelas normas técnicas internacionais67. O
texto aponta a interferência decisiva da Light, ao ter adotado o uso do cimento nas
64 POLYANTHÉA... p. 71/72.
65 Cf. GORDINHO, op. cit.
66 Detalhes desse evento encontram-se no boletim Observador Econômico e Financeiro de dez/1948.
67 No início da produção, o cimento de Perus continha entre 6 e 7% de magnésio, enquanto que o tolerado
internacionalmente não deve ultrapassar o índice de 5%. O magnésio causa efeito expansivo no cimento,
colocando em risco a estrutura da obra, cf. Consultec, op. cit., p. 1-31.
46
obras hidráulicas de Cubatão, o que teria servido como atestado de boa qualidade do
produto.
Quando da inauguração da fábrica de cimento, em 1926, o Sylvio de Campos é
eleito deputado federal e o seu irmão Carlos, advogado da Light, é, nada menos que
presidente do Estado de São Paulo.
Esses vínculos com a cúpula do poder, com fortes ligações com o capital
estrangeiro, como demonstra o currículo do Sylvio de Campos, indicam que o início da
década de 1910 foi um período de preparação do terreno para a montagem de uma
fábrica de cimento. Certamente, o Sr. Sylvio de Campos e seus sócios, percebendo o
grande filão que representava o crescente mercado cimenteiro, montaram toda uma
infra-estrutura de um negócio intimamente afinado com a produção de cimento - como
é a indústria da cal - e se articularam para a montagem de um grande negócio que
parece ter servido até como uma espécie de “laboratório” para a produção de cimento:
De acordo com a publicação Twenty Century Impression of Brazil, editado em 1913, a
Companhia Industrial Estrada de Ferro Perus Pirapora contava com vários fornos de
cimento Hoffman e produzia entre trinta e quarenta mil sacas de 60 quilos de cimento por
ano”68.
De fato, o texto da Revista de Engenharia, da Faculdade Mackenzie, datado de
dezembro de 1926, e que anuncia a “Importante realização nacional de iniciativa
extrangeira”, confirma esse histórico:
Há cerca de 15 annos estudaram os proprietários dos depósitos de pedra calcarea de
Perus, E. S. Paulo, a possibilidade de fabricar cimento com materiais ahi existentes.
Segundo essa Revista, o projeto de instalação só fora adiado devido à
“conflagração Europea,” ou seja ao conflito bélico mundial iniciado em 1914.
68 Conforme GORDINHO, 1996, p. 86.
47
Distantes no tempo, percebemos as muitas coincidências que marcam a
trajetória entre a montagem da CIEFPP e a criação, catorze anos depois, da Companhia
Brasileira de Cimento Portland. Essas evidências e de tantas coincidências de fatos
correlatos, apontam para o fato de que toda essa história iniciada em 1910 fora
conduzida de forma planejada, consciente desde o seu primeiro momento.
Invariavelmente, quando algum autor se presta a narrar o histórico das tentativas em se
produzir cimento no Brasil, até eles chegarem ao exemplo de sucesso iniciado em
1926, todos citam as experiências fracassadas, mas a CIEFPP não é citada, seja por
desconhecimento, seja por não fazer ligação de uma coisa com outra. O ideal seria,
talvez, proceder um estudo que relacionasse essas duas vias que tiveram resultados
opostos (uma exitosa e outra não), que, seguramente, fazem parte de uma só história,
talvez cheia de vínculos.
Alguns elementos do contexto da chegada da fábrica
Quando no dia 18 de agosto de 1924, os representantes da empresa canadense
Drasdale & Pease, juntamente com os sócio minoritários brasileiros, vão firmar
A Estrada de Ferro Perus Pirapora interligando os empreendimentos
de cal e de cimento, desde meados da década de 1920 (8).
48
juridicamente a criação da Companhia Brasileira de Cimento Portland, a cidade de São
Paulo, certamente, ainda encontrava-se sob o pesado ar de ressaca, em decorrência da
enorme turbulência que a agitara havia menos de um mês. A fundação da CBCP em
São Paulo ocorre logo após o clímax da revolta tenentista69 que abalou a cidade desde o
dia 05 de julho, quando os tenentes Juarez Távora, Joaquim Távora e o Major Miguel
Costa, da Força Pública de São Paulo, lideraram um movimento rebelde iniciado com a
tomada do 4º Batalhão de Caçadores, no bairro de Santana. Este movimento estoura
exatamente no segundo aniversário do episódio do forte de Copacabana de 1922.
O movimento fracassara, mas o seu desfecho final ainda estaria longe de ser
concluído. Encarnado na Coluna Prestes e muito difundido e diluído nos ambientes
militares, principalmente na suas baixas patentes, o tenentismo seria um das principais
forças articuladoras do golpe de 1930.
Embora derrotada, a revolta paulista de 1924 causou um forte abalo social em
São Paulo, principalmente entre os dias 05 e 27 de julho. Durante aquele mês fatídico,
o pânico se instalou em meio à população, a tal ponto que parte dela chegou a
abandonar a cidade, buscando refugiar-se em seus arredores. Não podia ser diferente,
pois, alguns pontos da cidade estavam sendo controlados pelas forças rebeldes e as
forças leais ao governo central cercavam a cidade, promovendo bombardeios aéreos
sobre populosos bairros como Brás, Mooca e Belenzinho. A fome e o medo se
espalharam, dando ingredientes explosivos à revolta.
Pois bem, apesar de tudo isso, os representantes do capital canadense não se
abalaram o suficiente para aguardar momento mais propício ao investimento. Ao que
tudo indica, eles devem ter avaliado que a situação política do país estaria sob relativo
controle das frações dirigentes das classes dominantes, apesar daqueles abalos sísmicos
provocados pelas baixas patentes dos meios militares. Certamente essa leitura da
conjuntura não fora só dos canadenses, pois, em meados daquela década de 20, muitos
capitalistas estrangeiros buscaram investir produtivamente no Brasil.
69 Sobre o tenentismo, ver Tenentismo e a revolução brasileira, de BORGES, Vavy Pacheco. São Paulo,
Brasiliense, 1992.
49
Indústrias de base: a “revolução” começa antes de 1930
A fábrica de cimento em Perus é a primeiro empreendimento entre aqueles que
se convencionou chamar de “indústria de base”. É uma “indústria pesada”, cuja
instalação requer investimentos de vulto, consome grandes quantidades de óleo
combustível derivado de petróleo, consome quantidade considerável de energia
elétrica70 e possui maquinaria pesada. Além disso, a produção do cimento vem sempre
acompanhada com a atividade extrativa de minérios. A fábrica de cimento CBCP já
nasce como grande empreendimento e o seu capital originário não advém da economia
cafeeira, mas resulta em grande parte (70%) de capital canadense.
Como veremos, esse investimento não é fruto apenas do ato volitivo de seus
investidores e nem se trata de coincidência o fato da Companhia surgir em São Paulo,
em meados da década de 20. As circunstâncias da época concorrem como fator
determinante.
As transformações na economia
A década de 1920 marca um tempo cronológico em que transformações
econômicas e sociais de vulto são gestadas. A instalação da fábrica de cimento em
meados dessa década não deixa de ser um importante indício das mudanças
qualitativas e quantitativas que se processam na sociedade brasileira naquele período.
É certo que a economia ainda está largamente assentada nas riquezas geradas no setor
cafeeiro, o que vale dizer, amplamente dependente do setor de mercado externo.
Segundo Paul Singer71, mesmo a industrialização em curso não passa de uma
“conseqüência secundária da reorganização capitalista da agricultura”. Para este autor,
70 Segundo o relatório Consultec, p. 34, Cap. III, os gastos com óleo combustível para a produção do
cimento, representam cerca de 27% a 35% do valor do produto. Já o boletim nº 43, de 1940, da ABCP
informa que o consumo médio de energia elétrica das grandes fábricas de cimento brasileiras era de 132
kwh por tonelada produzida. Para efeito de comparação, o autor informa que à época, o consumo elétrico
anual das 06 grandes empresas de cimento superava ao das cidades de Belém, Fortaleza, Recife, Salvador,
Niterói, Porto Alegre e Belo Horizonte juntas, cujo total de habitantes era próximo a 2 milhões.
71 SINGER, Paul. Interpretação do Brasil: uma experiência histórica de desenvolvimento. In: História Geral da
Civilização Brasileira, Tomo III, 4° volume.
50
a grande maioria dos empreendimentos industriais era de pequeno porte, com
produção baseada em métodos artesanais ou produção simples, tendo destaque os
setores de alimentos, vestuário, toucador, velas, móveis, bebidas, enfim, o setor
produtor de bens-salário. As indústrias tinham caráter local e existiam poucas fábricas
modernas, exceto no ramo têxtil. Além do mais, esse processo de industrialização já
aponta para a enorme disparidade entre as regiões brasileiras, com a concentração na
região sudeste. Esse era o panorama geral do setor produtivo urbano até o início da
década de 1920.
Caio Prado72 enxerga um despontar de grandes indústrias subsidiárias do capital
estrangeiro, em meados da década de 1920, contrastando com uma crise do setor
industrial brasileiro como um todo:
A importação de artigos manufaturados, que vinha em declínio ou permanência
estacionária desde antes da Grande Guerra, cresce subitamente, desbancando em muitos
terrenos e atingindo em quase todos a produção nacional. O período que vai de 1924 a
1930 será uma fase sombria para as indústrias brasileiras; muitas fracassam e perecem, e
todas ou quase todas se manterão muito próximas do nível mínimo de subsistência.
Mais sólido é um setor particular da indústria brasileira que se veio desenvolvendo
sobretudo a partir da I Grande Guerra: refiro-me às subsidiárias de grandes empresas
estrangeiras. (p. 291)
Analisando esse mesmo período, Wilson Cano73 enxerga um quadro de grandes
transformações, principalmente no eixo Rio - São Paulo. O economista destaca a
expansão de alguns setores industriais mais complexos como as indústrias químicas,
metalúrgicas e de cimento:
O segundo momento, a década de 1920, a indústria de São Paulo dá um novo “grande
salto”, desta vez, não apenas quantitativo, ao implantar - ainda que precoce e
incipientemente - um pequeno compartimento produtor de bens de capital e de insumos
72 PRADO JR., Caio. História econômica do Brasil. Círculo do Livro. S/data.
73 CANO, Wilson. Raízes da concentração industrial em São Paulo. São Paulo, Hucitec, 1990.
51
mais complexos, diversificando também, em certa medida, a sua produção de bens de
consumo (...). É nesse período (1920 - 1928) que a indústria paulista cresce (em termos
reais) à uma taxa média anual de 6,6%... ( p. 254)
Outro aspecto desse período diz respeito à intensificação da entrada de capital
estrangeiro no Brasil:
Outra característica das indústrias que se desenvolveram depois de 1914 foi sua maior
integração com o capital industrial internacional. De fato, alguns oligopólios
internacionais tinham começado a investir em algumas indústrias no Brasil mesmo antes
da guerra (...), mas o investimento estrangeiro aumentou consideravelmente nas décadas
de 1920 e 1930. Em praticamente todas as indústrias que se desenvolveram nesse período,
havia alguma participação de capital estrangeiro, que em alguns casos era bastante
significativa, tais como cimento, ferro e aço, artigos de borracha, produtos químicos e
farmacêuticos, artigos de toalete74...
Em linhas gerais, essas são as circunstâncias que condicionavam a chegada da
fábrica de cimento em São Paulo.
Esse movimento expansivo material da economia vem acompanhado também
por um panorama ideológico em que propostas industrialistas, acompanhadas ou não
de viés nacionalista, ganham força no cenário nacional, expressando o que Wilson
Cano considera como uma “tomada de consciência para com a necessidade dessa
instalação industrial”.
Mas o discurso industrialista fazia parte de um panorama mais amplo em que as
medidas governamentais tendentes ao protecionismo à indústria sofriam fortes
restrições de setores dos cafeicultores. Esses discursos influenciavam até as camadas
médias e proletárias da sociedade paulista da época75.
74 Suzigan, Wilson. Op. cit. p. 264
75 Esse debate aparece com freqüência na bibliografia especializada, e bem exposto na obra de Ângela Castro
Gomes, Burguesia e Trabalho. Rio de Janeiro, Ed. Campus, 1979.
52
Entretanto, a hegemonia do PRP, com os cafeicultores à frente, não impediu que
medidas legislativas fossem tomadas pelo governo federal nesse período, criando uma
série de incentivos para ramos produtivos do aço e do cimento, promovendo a isenção
de impostos de consumo e de importação para máquinas e equipamentos para essas
indústrias; tarifas fortemente subsidiadas para o transporte de matérias-primas e bens
de capital.
O incentivo à produção de cimento
Em dezembro de 1924 o governo federal lançou uma medida de política
econômica que visava incentivar a produção de cimento no Brasil. Wilson Suzigan
sintetizou bem o teor do Decreto nº 16.755:
Entre outras provisões, eram oferecidos os seguintes incentivos:
1) isenção de direitos alfandegários sobre importação de máquinas, aparelhos,
instrumentos e acessórios (ainda não produzidos no país) destinados à
instalação e expansão das fábricas, extração da máteria-prima, geração e
transmissão de eletricidade necessária ao funcionamento das fábricas,
construção de ramais de estrada de ferro, ou outros meios de transporte para as
matérias-primas ou produto acabado, e laboratório para uso das fábricas;
2) isenção por vinte anos de todos impostos federais;
3) facilidade para aquisição de terras para a construção de fábricas, usinas
geradoras de energia, sistema de transporte, etc;
4) fretes reduzidos durante dez anos nas ferrovias e empresas de navegação do
governo. Além disso, o governo tentaria obter isenções de impostos estaduais e
municipais76.
Uma publicação no Diário Oficial do Estado de São Paulo de 08.04.1926, indica
como este decreto deve ter atiçado a imaginação de muitos investidores. Nesse órgão
de comunicação oficial aparece a dissolução de uma tal “Sociedade Paulista de
76 SUZIGAN, W. Op. cit. p. 268.
53
Cimento Portland S/A” que havia se formado em 1925 com a finalidade de produzir
cimento no município de Sorocaba e assim “pudesse gozar de favores federaes
prometido às primeiras fábricas de cimento que se organizassem no paiz”. Esse
empreendimento articulado a partir de um capital declarado de 5.000:000$000 (cinco
mil contos de reis), fora capitaneado pelo conhecido construtor Francisco de Paula
Ramos de Azevedo, que foi responsável por projeto e construção de inúmeros edifícios
públicos e centenas de obras residenciais77.
Vários autores fazem uma relação direta entre a promulgação do decreto de
1924 e a instalação da primeira grande fábrica de cimento (Peláez, Siqueira, Melero,
Consultec). No entanto, Suzigan objeta esse raciocínio que parece ser óbvio e, fazendo
um cálculo cronológico chega a afirmar que os incentivos governamentais não teriam
sido decisivos para a instalação da primeira fábrica de cimento, a CBCP:
Já se afirmou (Peláez, 1972:199-203) que foi em razão dessa legislação que a fábrica
canadense decidiu estabelecer-se no Brasil. Contudo, essa decisão foi tomada sem dúvida
muito antes de os incentivos do governo estarem em vigor, uma vez que a empresa
formou-se em agosto de 1924 e a construção da fábrica teve início no mesmo ano. A
companhia beneficiou-se de favores do governo, mas as concessões só entraram em vigor
em junho de 1925 (Decreto nº 16.944, de 16 de junho de 1925), quando a construção da
fábrica já estava provavelmente adiantada, pois, como foi mencionado, a produção teve
início em maio de 1926.
Esse debate não cabe diretamente nos interesses deste trabalho, porém não me
esquivo de fazer algumas considerações. Talvez este último autor citado tenha razão
se pensarmos que o Decreto pode não ter se constituído numa condição para a abertura
do negócio pelo capital canadense. Ou seja, como ele próprio afirma, “com ou sem
incentivos, as duas empresas controladas por capital estrangeiro teriam se
77 É grande o número de edifícios públicos realizados por seu escritório: Teatro Municipal, Fórum, Edifício dos
Correios, Escola Normal Caetano de Campos, Liceu de Artes e Ofícios, Escola Politécnica, entre tantos outros,
conforme Paulo César Xavier em Espaço, Técnica e Construção: o desenvolvimento das técnicas construtivas e a
urbanização do morar em São Paulo. São Paulo, Nobel, 1988.
54
estabelecido”. Para ele a “descoberta de depósitos de matérias-primas nas
proximidades dos mercados do Rio de Janeiro e de São Paulo foi o fator mais
importante”. Porém, usando o mesmo artifício cronológico, é de se supor que um
Decreto lançado em dezembro tenha sido objeto de debates por longo tempo e o seu
teor já deveria ser conhecido por influentes políticos como os Srs. Sylvio e Carlos de
Campos. Além do mais, o fato do decreto só ter vigorado em junho de 1925 não
excluiu a empresa canadense dos benefícios, pois só um ano depois a fábrica de
cimento foi inaugurada.
O difícil é admitir que a empresa tenha se eximido de benefícios tão
benevolentes e, quem sabe, tão necessários para se enfrentar uma concorrência
internacional. Afinal, o cimento portland é um produto que tem as mesmas
características e o seu processo de fabricação é também similar em qualquer parte do
mundo. Assim, serão os detalhes no custo que farão a diferença na disputa do preço de
venda menor. Os favores concedidos pelo governo, como vimos, não eram pequenos e,
se não foi o fator mais importante na decisão do investimento aqui no Brasil, temos
que considerá-lo como medida fundamental. A concorrência estrangeira era feroz e,
por diversas vezes foi acusada da prática de dumping78.
Para reforçar o seu argumento de que os incentivos fiscais não foram decisivos,
Suzigan cita também o caso da segunda fábrica a se instalar aqui no Brasil, que,
quando se decidiu pelo investimento, em 1929, o decreto de 1924 já havia sido
revogado em 1927, através da Lei nº 5.353. De fato, a Companhia Nacional de
Cimento Portland, de capital estadunidense, adquiriu as terras onde se localizavam as
então recém-descobertas jazidas de calcário em Itaboraí, no Rio de Janeiro, em 1929,
porém essa fábrica só entrou em atividade em 1933, coincidentemente, um ano após
um novo decreto voltar a estabelecer os benefícios, não só para o setor cimenteiro, mas
também para outros setores produtores.
78 O discurso dos representantes do setor cimenteiro na década de 1930, com freqüência apresenta denúncias de
prática de dumping. Destaco os Boletins da ABCP, n° 43 e o OEF n° 15, de abril de 1937. Muitas vezes isso
acontece para justificar o alto preço do produto no mercado interno.
55
Não seria de se estranhar que companhias fortes e bem capitalizadas
procurassem chantagear os governos a fim de conseguir benefícios que, ainda que não
fossem absolutamente necessários para compor um preço competitivo, pelo menos
serviriam para garantir a ampliação de suas margens de lucro. Tudo isso cabe bem
dentro das regras do jogo capitalista.
Suzigan também rebate, agora com mais razão, a caracterização de monopólio
do fornecimento de cimento, após a abolição dos benefícios incentivadores em 1927,
conforme afirma Siqueira (2001, p. 32), Peláez (1972, p. 203) e Melero (1996, p. 25).
Em nome do rigor conceitual, não se pode caracterizar de monopolista uma empresa
que detém apenas 15,2% do consumo interno, trabalhando com mais de 50% da
capacidade ociosa, como era o caso da CBCP em 1927. Isso não inviabiliza a
constatação de que a CBCP tenha se beneficiado temporariamente com a extinção dos
incentivos entre os anos de 1927 e 1932.
Ou seja, apesar de toda controvérsia e das dificuldades encontradas, num
período em que todas as esferas governamentais se alinhavam ao poder hegemônico do
setor cafeicultor, a implantação inicial da indústria cimenteira no Brasil se dá pelo
método que os economistas chamam de “substituição de importação”, mediante forte
intervenção do Estado:
...apenas podemos concluir que o Brasil efetivamente implementou, de modo satisfatório,
a proteção à indústria nascente, com a eficiência na produção de cimento. (Peláez, 1972,
p. 204)
Porém, o apoio governamental não se limitou aos incentivos aduaneiros,
tarifários e creditícios. Havia alguns órgãos da esfera estatal sempre prontos a auxiliar
os empreendimentos, seja na fase da pesquisa mineralógica, seja na fase dos ensaios
para dar garantias de qualidade do produto.
Nesse sentido destaca-se o Serviço Geológico e Mineralógico do Brasil, que, na
fase da pesquisa das jazidas de calcário desde 1923, elaborou vários relatórios para
56
“orientar os interessados sobre as jazidas que poderiam servir de base às indústrias de
cal e cimento” (Consultec, 1967, p. 1-10). Esse estudo cita ainda o envolvimento da
Escola Politécnica de São Paulo e o Gabinete de Ensaios da Estrada de Ferro Central
do Brasil, no Rio de Janeiro.
Merece destaque a atuação da Escola Politécnica de São Paulo que, através do
seu Gabinete de Resistência dos Materiais, criado em 1899, cumpriu importante papel
na transferência da tecnologia do concreto para São Paulo. Este gabinete transformouse,
em 1926, no famoso Laboratório de Ensaios de Materiais – L.E.M., que, por sua
vez, dá origem ao Instituto de Pesquisas Tecnológicas – I.P.T., no ano de 193479.
Ambiente natural favorável
Não bastaria que o ambiente político e as circunstâncias econômicas fossem
favoráveis, afinal, um dos itens fundamentais para a escolha do local para abrir um
empreendimento no ramo do cimento é um fator que depende da natureza.
Quando em 1923 a empresa canadense Drysdale Y Pease, de Montreal,
encarregou o especialista Dr. M.M. Smith de vistoriar as áreas mais adequadas para a
produção de cimento no Brasil80, ela apenas queria confirmar aquilo que certamente já
sabia: Perus era o local indicado para acolher tal investimento. Afinal de contas,
próximo a Perus encontra-se a jazida de calcário da então chamada “série São Roque”,
que é uma formação geológica que “estende-se pelo Estado de São Paulo, desde a
região de Caieiras, Perus, Santana do Parnaíba, Araçariguama, São Roque, Sorocaba,
estendendo-se rumo a oeste” (Consultec, 1967), atingindo boa área do Paraná. É aí que
se localizam as atividades de exploração de calcário para a produção de cal, desde o
início do século XX, de propriedade da nossa já conhecida CIEFPP.
Apesar do calcário ser matéria-prima comum à cal e ao cimento, não é todo
calcário que pode ser aproveitado para a produção do cimento, daí, logo de início, a
produção deste ser mais difícil que daquele:
79 Sobre esse assunto, verificar GITAHY, Maria Lúcia C. Op. cit.
80 Cf. Revista de Engenharia, São Paulo, C.A. Horácio Lane/Mackenzie, n° 40, dezembro de 1926.
57
O calcário é a matéria-prima mais difícil de ser encontrada, nas condições exigidas para a
fabricação do cimento. Deve possuir alto teor de carbonato de cálcio, convém ter pequena
proporção de sílica, de óxidos de ferro e alumínio e, sobretudo, baixo teor de carbonato de
magnésio, que é constituinte habitual no calcário. A maior parte dos depósitos de calcário
acusa teores de óxido de magnésio acima do nível que permite obter cimentos com teor
máximo de 6% de óxido de magnésio, limite superior tolerado pela especificação
brasileira.
Há muito vem sendo estudada a influência do magnésio nos cimentos, pelo fato dos
cimentos de alto teor de magnésio acusarem uma substancial expansão que já tem
causado grandes catástrofes, pela ruptura de obras de grande vulto. (Consultec, 1967, p.
1-30)
Como já foi dito, desde 1914, quando a CIEFPP é inaugurada, essas jazidas são
exploradas e, nesse período, seguramente, pesquisas foram feitas para testar a
viabilidade do uso daquela matéria-prima para a fabricação do cimento, como mostra a
citada Revista de Engenharia do ano da inauguração da fábrica:
De facto, por volta de 1912, deram resultados satisfatórios as experiencias feitas por um
especialista norte americano, com pedra calcarea, argilla e schisto de Perus.
A argila e o gesso são os outros componentes para a fabricação do cimento
portland (em alguns casos junta-se pequena quantidade de minério de ferro). A argila é
um elemento mais facilmente encontrado na natureza, seja em vales de rios, planícies e
encostas de morro. Esse componente também existia em grande quantidade no Sítio
Santa Fé, entre Perus e Gato Preto. Já o gesso, tem a função de retardar o tempo de
pega, a fim de colocá-lo nos limites estabelecidos pelas normas oficiais. As grandes
jazidas de gypso no Brasil situam-se no nordeste brasileiro, porém, a importação desse
produto de outras regiões do país para São Paulo, apesar da enorme precariedade do
sistema de transporte no Brasil de então, não se colocava como elemento impeditivo
58
para a produção, devido ao pequeno percentual utilizado na composição do cimento,
que varia de 2% a 3% do produto final.
Ou seja, conforme nos informa a citada Revista do Trabalho, n° 4:
A matéria prima que a Cia. Emprega é toda do nosso Estado. Com exceção do gesso, que
ora vem do Ceará, ora do Rio Grande do Norte, os restantes materiais são obtidos no
próprio terreno da empresa, sendo a argila extraída a 2 quilometros de distância da
fabrica, e o calcário obtido num raio que não vai além de 18 quilometros, nas pedreiras
da Bocaina, Água Fria, Pires e Casa da Pedra, todas de propriedade da Cia.
Assim, a primeira condição primordial exigida para a instalação de fábrica de
cimento estaria atendida pela natureza, no caso paulista. A proximidade do mercado
seria a outra condição básica.
O mercado do cimento
Não vou insistir aqui na argumentação sobre a força do mercado paulista, em
expansão desde o final do século XIX, pois já sabemos que a cidade de São Paulo
registra um estupendo crescimento populacional, experimenta surtos de
industrialização, e tudo isso exige obras de infra-estrutura, tais como: construção e
ampliação de sistemas viários, canalização de rios, construção de hidrelétricas, sem
falar no crescimento vertical das cidades.
Quando me refiro à dimensão do mercado, penso naquilo que seria o mercado
efetivo, não em um suposto mercado potencial, que aí incluiria uma demanda bem
maior, já que grupos da população ainda não consumiam cimento àquela época. Quem
compunha esse mercado eram grandes companhias como a Light, construtoras e
empreiteiras e, principalmente, as diversas esferas governamentais que empreendiam
as obras públicas. Entre os produtores e esses “consumidores” certamente havia
grandes grupos intermediários.
59
Por isso, no caso do cimento, para se compor uma idéia do tamanho do
mercado, basta observar o quadro evolutivo da importação do produto:
Consumo de cimento no Brasil
Ano Qtd.cimentoImportado
(ton/ano)
Produzido no Brasil
(ton/ano)
1925 336.474 -
1926 396.322 13.382
1929 535.276 96.208
1933 113.870 225.580
1935 114.154 366.261
1937 74.831 571.452
1940 14.896 744.673
Fonte: Peláez, 1972.
OBS.: a partir de 1933 são duas grandes fábricas produzindo no
Brasil. Em 1940, são 6 as grandes companhias de cimento no Brasil.
Infra-estrutura montada
O capital social declarado pelos empreendedores na Junta Comercial, em agosto
de 1924, era de 25.000.000$000 (vinte e cinco milhões de contos de réis), ou seja, em
torno de 3 milhões de dólares, segundo Peláez (1972)81.
O novo empreendimento encontrou um local privilegiado para a montagem das
instalações de sua fábrica: bem no entroncamento das ferrovias São Paulo Railway e a
Perus-Pirapora, ou seja, próximo ao acesso a toda São Paulo, ao porto de Santos e
também ao interior paulista. Acesso facilitado ao mercado, mas também fácil acesso às
fontes de combustível, derivado do petróleo, que vinha importado via porto de Santos.
As vantagens não param por aí. Como se sabe, Perus fica próximo a de Santana
do Parnaíba, cidade onde se localiza aquela que foi a primeira usina de eletricidade da
América Latina, construída pela Light em 1901 para abastecer a cidade de São Paulo: a
81 Para efeito de comparação basta observar que esse valor corresponde a mais de dez vezes a arrecadação de uma
cidade como Campinas que, em 1924 era de 2.238:443$600 réis por ano, conforme As Finanças de São Paulo no
Governo Armando Salles Oliveira, São Paulo, 1937.
60
hidrelétrica Edgar Souza. Dali partiram as linhas de transmissão que iriam atender as
necessidades da fábrica de cimento.
Como a usina queimaria óleo combustível em seus fornos, mas tudo mais seria
propulsionado por eletricidade, o projeto demandava uma linha de alta tensão da São
Paulo Tramway, Light & Power Company, Limited, para vinda de energia gerada na
usina hidrelétrica de Parnaíba. Para tanto, foram construídos ramais a partir do tronco
Parnaíba-Jundiaí, inaugurado em 1921. O trecho entre Caieiras e Perus foi concluído em
1925. (Brazilian Traction, 1912-1930)82.
Ou seja, havia uma excelente infra-estrutura montada, quando da chegada do
capital canadense que aqui montou a fábrica de cimento.
A força de trabalho: Mecanismo de formação do Exército Industrial de Reserva
Como colocar em funcionamento uma grande fábrica que é, praticamente,
pioneira e localiza-se tão distante das vilas e dos cortiços, esses que são os grandes
“reservatórios” de força de trabalho barata? Já sabemos que Perus tinha uma
população relativamente diminuta e, certamente, não será a fonte dessa mão-de-obra. É
certo que a fábrica foi construída à beira da ferrovia, mas isso não será bastante para
garantir a tranqüilidade dos investidores, que preferem o excesso de força de trabalho
garantidor do seu bom preço. E certamente esse foi o motivo principal que levou a
CBCP optar pelo conhecido recurso das vilas operárias próximo ao local de produção.
Porém, não pretendo desenvolver detalhes sobre os trabalhadores neste início
de dissertação, posto que, há um longo capítulo dedicado a eles, logo mais adiante.
Pretendo aqui mostrar apenas que também nesse item, a fábrica de cimento foi
favorecida pelas circunstâncias da época.
82 SIQUEIRA, op. cit., p. 30
61
De uma maneira geral, podemos afirmar que a CBCP é beneficiária do grande
mecanismo de montagem do chamado mercado de trabalho e o seu respectivo exército
industrial de reserva, montado desde o início da estruturação da economia cafeeira, em
meados do século XIX:
A massa de trabalhadores imigrantes que vem para o Brasil a partir dos anos 1880
representa certamente um mercado consumidor para a indústria nascente, mas ela
representa antes de tudo a formação do mercado de trabalho.83
Mecanismo acionado por grandes empresários e pelo Estado em seus diversos
níveis. Até 1926, são mais de setenta anos de introdução maciça de força de trabalho
estrangeira no Brasil. É certo que o grosso dessa mão-de-obra destina-se ao setor
agrícola, mas também é certo que há os atrativos da indústria e seu ambiente urbano
que “desvia” parte desse contingente.
O Boletim do Departamento Estadual do Trabalho – DET, de julho de 1933,
assim registra os dados da imigração para o Brasil:
A estatística federal registra, para o Brasil, 4.520.438 imigrantes (1827-30)84 (sic!).
Desses, desceram em Santos, 2.275.256. O total paulista, até 1930, é de 2.565.412,
incluindo-se os filhos de outros Estados, que, viajando de 3ª classe, são considerados
imigrantes.
Wilson Cano85 enxerga que o regime de trabalho livre possibilitou ao complexo
cafeeiro varias vantagens, entre elas,
proporcionou também o alargamento da disponibilidade de mão de obra para a expansão
urbana-industrial, tanto pela entrada direta de imigrantes não-agrícolas como pelo próprio
movimento de atracão e fuga de imigrantes, gerados pelas crises do café.
83 SILVA, Sérgio. A expansão cafeeira e origens da indústria no Brasil. S. Paulo, Alfa-Omega, 3ª ed. 1980.
84 Seguramente o Boletim se refere ao período de 1827 a 1930.
85 CANO, W. Op. cit. p. 62.
62
Também é certo que há os momentos de saturação, absoluta e relativa, dos
processos de absorção de mão-de-obra na agricultura, resultante das freqüentes
oscilações nos ritmos dos negócios.
Há que se considerar ainda a intensificação do processo migratório interno, cujo
sentido é nitidamente um fluxo em direção à cidade de São Paulo, onde o
desenvolvimento rural e urbano oferece as maiores oportunidades. Conforme Wilson
Cano, cerca de 226 mil trabalhadores nacionais, principalmente mineiros e
nordestinos, imigraram para São Paulo entre 1920 e 1929 (Cano, 1990, p. 61).
Os salários pagos pelas indústrias paulistas começaram, então, a ser fator de atração da
mão-de-obra mineira e nordestina. É a partir desse momento que surge a chamada
“oferta ilimitada do fator trabalho”, ou seja, uma realocação do fator trabalho de um
setor de subsistência com baixa produtividade para um setor capitalista de alta
produtividade.86
Além disso, a absorção de mão-de-obra feminina no meio urbano, faz esse
mercado de trabalho se ampliar:
Censo de 1919 constata também, uma grande porcentagem representada pelo emprego
feminino (33,7% da ocupação operaria) em São Paulo...
Ora, essa abundância de força de trabalho favorece ao barateamento do seu
preço, facilitando, assim, a absorção pelo capitalista que impõe salários a níveis muito
baixos. Lembrando que nessa época era comum o emprego não só de mulheres na
indústria, mas também menores.
Esse fator econômico, no âmbito da formação de um mercado de força de
trabalho abundante, não seria, no entanto, o único a determinar uma possível
desvalorização salarial. É bom recordarmos que desde 1921, com a decretação da lei
86 HOGAN & BERLINCK. O Desenvolvimento econômico do Brasil e a imigrações internas para São Paulo:
uma análise histórica. (Mimeo) Unicamp, Campinas, 1974.
63
de expulsão de estrangeiros e com a decretação do Estado de Sítio em 1922, no
Governo de Arthur Bernardes, devido ao movimento tenentista, desencadeia-se uma
enorme repressão ao movimento operário, que entra em refluxo. Esse ambiente,
seguramente não é favorável à ação sindical que lute por aumentos ou recuperações
salariais.
Em resumo, numa primeira visão geral, esses dados podem fundamentar
genericamente o que falamos acima: numa perspectiva do capital, o ambiente
econômico e social do Brasil, no período em que aqui se implantou a fábrica de
cimento, no que diz respeito à força de trabalho, era bastante favorável ao
investimento.
64
Capítulo II
O processo de produção na
Fábrica de cimento em Perus
Vista aérea da fábrica de cimento no início da década de 1930 (9)
65
Introdução
O trabalho é muitíssimo mais do que isso [fonte de toda riqueza]. É a
condição básica de toda vida humana. E em tal que, até certo ponto,
podemos afirmar que o trabalho criou o próprio homem.
F. Engels
Este segundo capítulo dedica-se à descrição de alguns aspectos do processo de
produção do cimento. Trata-se de uma descrição sucinta, que tem como objetivo central
reunir elementos para reflexão sobre as especificidades dos trabalhos executados na
fábrica e as possíveis decorrências disso no plano da subjetividade dos trabalhadores.
Além disso, servirá para situar melhor o leitor no ambiente interno da fábrica e também
para adicionar novos elementos para a compreensão de parte desse universo do operário
fabricante do cimento. Com isso, sem perder a perspectiva de análise do trabalhador
genérico, como produtor de valor, buscaremos uma aproximação das características
específicas do trabalho útil do produtor de cimento.
Creio que o ofício, no ato de produção e reprodução da vida através do trabalho,
é importante momento condicionador na formação da consciência e da visão de mundo
do indivíduo, ainda que este não seja elemento determinante único na formação da
consciência, pois esta tem múltiplas determinações e infinitas formas de manifestação.
Contudo, creio que essa relação teleológica do homem com a natureza, traduzida no ato
social do trabalho, impõe importantes marcos condicionantes do pensar do indivíduo.
Um complexo de atividades
O cimento é um produto relativamente simples, resultante da mistura de algumas
matérias-primas (calcário, argila e gesso), mistura essa feita através de um complexo de
operações que envolvem equipamentos pesados para a transformação de matérias brutas
em um pó extremamente refinado, que adquire características específicas. Isso torna o
cimento uma mercadoria relativamente de alto valor agregado.
66
A produção do cimento envolve três atividades bem diferenciadas, no que diz
respeito ao processo de trabalho e que também são espacialmente compartimentadas.
Normalmente as três fases são encampadas pela mesma empresa, dado o alto grau de
interdependência das três atividades. Seria, talvez, arriscado para o capitalista, a
separação espacial, temporal e administrativa de atividades tão interdependentes e
essenciais umas às outras. Por isso, as atividades extrativas e fabris, e os serviços delas
decorrentes, eram todas aglomeradas sob uma só administração e sob um mesmo espaço
físico. Como já afirmei em capítulo anterior, normalmente as fábricas de cimento
localizam-se junto às fontes de calcário. No caso da fábrica de cimento Perus nos seus
primórdios, a essa aglomeração de atividades produtivas, era adicionada também o
envolvimento da atividade reprodutiva da vida do operário fora da fábrica, através da
montagem das vilas operárias que co-existiam com o espaço de produção.
A primeira fase engloba todo processo de extração e beneficiamento da matériaprima
fundamental do cimento: o calcário. A segunda é o transporte dessa matériaprima
até a fábrica. No caso em estudo, esse transporte é feito pela via férrea. A terceira
fase é, exatamente, todo processo de produção do cimento até a fase de embalagem.
Essas três fases comportam atividades produtivas radicalmente distintas. Já numa
primeira generalização, podemos dizer que, enquanto a primeira atividade – a extrativa -
é praticamente manual, absolutamente dependente da destreza corpórea do operário, a
última atividade produtiva – a de transformação -, principalmente nos momentos mais
cruciais do processo, caracteriza-se por uma produção que os economistas chamam de
“produção de fluxo”, posto que, o grosso do processo se dá sem a intervenção direta da
mão humana. Nesse referido momento da produção, a função do operário restringe-se
mais às atividades de controle e acompanhamento dos movimentos das máquinas.
Respeitando essas especificidades, optei por também separar a descrição do
processo produtivo. Chamo a atenção que, doravante, toda referência feita ao processo
de fabricação do cimento diz respeito ao período inicial de sua produção no Brasil,
desde 1926 até em torno do final da década de 1930. Apesar desse processo não ter
sofrido alterações radicais, não se pode desconsiderar significativas mudanças a partir
67
de introduções de novos maquinários no curso do desenvolvimento tecnológico
nacional.
Toda descrição do processo produtivo será acompanhada de comentários rápidos
que chamam a atenção para os riscos de acidentes, pois estes serão tratados
especificamente em capítulo posterior.
O trabalho nas pedreiras
Mão tenazes e obtusas.
Feridas na remoção de pedras e tropeços
Quebrando as arestas da vida
Cora Coralina, “Estas mãos”
A descrição dessa atividade baseia-se fundamentalmente em duas fontes que,
para mim, dão a credibilidade necessária para as análises que dela decorrerão, nos
limites propostos por esta dissertação. Uma das fontes utilizadas é o texto intitulado “A
Segurança e a Higiene do Trabalho na Indústria do Cimento”, que encontrei na Revista
do Sindicato Nacional da Indústria de Cimento (SNIC), n° 205/6, de
novembro/dezembro de 1970. Trata-se de trabalho apresentado ao IX Congresso
Nacional do Prevenção do Acidentes, em 1966, por Romeu Oscar Pretz, do
Departamento do Higiene e Segurança Industrial da Cia. Cimento Portland Itau e
membro da American Society of Safety Engineers.
O meu objetivo era encontrar um documento com esse teor, mas de anos mais
próximos ao período estudado. A impossibilidade não implicará em qualquer prejuízo
para o fim proposto, pois, a descrição feita refere-se a atividades manuais e, certamente,
é amplamente válida para períodos anteriores. Afinal, esse texto não cita a utilização de
tratores, de retroescavadeiras ou de jatos d’água, como acontece mais modernamente.
Em comum, além do esforço físico, podemos citar o uso de marteletes, picaretas,
equipamentos simples de limpeza de pedras e explosivos.
68
A outra fonte são depoimentos orais de trabalhadores idosos que atuaram nas
atividades de extração de calcários ou próximos a elas. Portanto, o texto que segue, é
fruto do cruzamento do referido trabalho de Pretz com depoimentos orais.
Há que se fazer também uma importante distinção: o caso estudado refere-se a
pedreiras voltadas para a produção de matérias-primas do cimento, que se diferem das
pedreiras que se prestam a produzir material para as construções urbanas, como o de
calçamento de ruas ou mesmo edificações de prédios feitos com pedras. No caso destas
últimas há algumas diferenciações importantes, no que diz respeito ao processo de
trabalho e à própria formação da força de trabalho. O processo de corte e modelagem
das pedras que constroem os prédios e calçamentos de ruas é realizado nas próprias
pedreiras. Esse fato determina a existência de um operário com perfil de artesão, capaz
de formar laços identitários específicos, com possibilidades de formação de
sociabilidade específica87:
Os trabalhadores que pavimentam as ruas – aos quais chamaremos genericamente
calceteiros – e os que trabalhavam nas pedreiras cortando blocos de rocha – aos quais
chamaremos genericamente canteiros -, malgrado sua visão tradicional do mundo do
trabalho, permeada de atributos de honra típicos do ofício, foram fundamentais no
processo de modernização urbana sofrido por Porto Alegre e outras cidades como Pelotas,
Rio Grande, Rio de Janeiro, São Paulo, Santos, Montevidéu e Buenos Aires88.
No entanto, os serviços executados por trabalhadores em pedreiras voltadas para
a produção de cimento, prescinde da modelagem das pedras. Estas, quando detonadas
pela dinamite, são quebradas por marretas e triturada por máquinas.
Em uma pedreira normalmente são executadas as seguintes tarefas básicas:
87 Sobre os trabalhadores em pedreiras, verificar os trabalhos do historiador Adhemar Lourenço da SILVA JR.,
que estão citados na bibliografia. Há também uma dissertação de mestrado produzida na FFLCH-USP, em 1995,
de autoria de Antonio José MARQUES, que trata das organizações operárias e sindicais dos trabalhadores em
pedreiras de Ribeirão Pires, onde se destaca a atuação dos anarquistas.
88 Silva Jr., Adhemar Lourenço da. Quem construiu o calçamento da rua da praia? In: D’ANGELO, Ana Lúcia
Vellinho (org.). Histórias de trabalho. Versão 1995. Porto Alegre, Universidade Estadual de Porto Alegre, 1996.
69
1. a limpeza e preparação do terreno ou superfície da pedreira para início da
perfuração
2. a perfuração da rocha com martelete
3. a preparação dos explosivos para o “tiro” (detonação)
4. o “tiro”
5. a operação de descombramento e limpeza
6. a remoção do calcário extraído e seu transporte e,
7. finalmente, sua britagem em dois estágios.
Praticamente todo serviço executado numa pedreira é feito a céu aberto. A
primeira fase, de preparação do terreno para a perfuração, envolve grupos de
trabalhadores que se utilizam de diversos equipamentos simples e manuais, tais como
enxadas, pás, facões, marteletes, vassouras, picaretas e objetos similares. Os operários
que executam estas tarefas possuem denominação própria e características de suas
funções. “Assim o ‘descombrador’ é o homem que limpa e prepara o local para
perfuração, como também é ele quem, após a detonação, faz o descombramento, isto é,
o deslocamento de rochas soltas na plataforma da pedreira”89.
Não há, portanto, nesta fase, o requerimento de qualquer habilidade mais
complexa que exija qualquer tipo de formação profissional. Resistência e força física
são atributos suficientes para execução de tais tarefas. Esses operários estão expostos às
intempéries da natureza, resvalamentos, quedas das e nas rochas, e a uma constante
poeira em suspensão. “Os desmoronamentos, as quedas de rochas e pedriscos
constituem-se como perigo constante junto à face da pedreira. Os descombradores e
marteleiros, que necessitam trabalhar em locais elevados e de diminuto espaço, estão em
constante risco de queda ou mesmo de resvalamento na face escorregadia do calcário.
Somemos a isto, os imprensamentos e esfoladuras das mãos e pernas nas arestas
89 Conforme PRETZ, Romeu Oscar. Segurança e Higiene do Trabalho na Indústria de Cimento, Revista do
SNIC, nº 205/206, novembro/dezembro de 1970.
70
ponteagudas das rochas; as partículas esvoaçantes, com sérios riscos para os olhos”
(Pretz).
Num segundo momento entram em cena aqueles que perfuram as rochas para a
colocação de explosivos. Essa operação é realizada sobre as rochas ou em suas escarpas,
quando os operários, amarrados por cordas, ficam pendurados a executar a furação do
bloco de pedras, através de martelos e ponteiros. Trabalho pesado que requer alguma
destreza e que expõe o trabalhador a riscos imagináveis, como quedas, resvalamentos e
alvo de pedriscos esvoaçantes.
O Sr. Augusto Silva de Souza90, nascido em 1915, trabalhou durante muitos anos
na fábrica de cimento, desde a década de 1940. Antes de trabalhar na fábrica em Perus,
ele trabalhou nas pedreiras em Água Fria. O seu depoimento ilustra bem a descrição
dessa atividade:
Então, ele chegava...numa pedra, uma parede como essa, então eu tinha uma corda lá
no alto da pedreira e amarrava...numa árvore lá longe e lá aquele homem ficava lá com
uma marreta e um...ponteiro e ia fazer um furo na pedra para ele colocar um penhasco
de aço, para depois fazer o andaime. Fazia um furo lá e outro aqui e colocava uma
tábua ali e aí subia ele e o ajudante dele pra furar as mina pra pôr fogo pra quebra a
pedra. O cara lá a vinte, vinte e cinco metros de altura, em cima, batendo marreta... e
numa corda amarrada. Se ele perdesse o pé, como aconteceu muito, o cara ...tava
morto mesmo.
Concomitantemente, os “cabo de fogo” preparam as dinamites para serem
colocadas por eles próprios nas fendas abertas nas rochas.
Eles ficavam pendurados na escora...É, e depois ali, tinha um martelo com uns
containeres de aço, aí eles perfuravam 2 ou 3 metros e depois colocavam a dinamite, né?
90 Entrevista concedida à Equipe de História Oral do DPH, em 30/04/1991, cujas fitas se encontram no Sindicato
em Perus.
71
Para dinamitar, então, ali, durante o dia eles ficavam preparando toda aquela mina para
ser explodida quase na hora de sair do serviço91.
Feito isso, eles ateiam fogo no cordão detonante, espoleta ou estopim e saem a
correr para os abrigos, a espera das explosões. Abrigados, os “cabo de fogo” atentam
para a quantidade de explosões que devem coincidir com o número de pontos de fogo.
No caso de não haver coincidência nos números, aguarda-se um momento para depois
se fazer a aproximação e verificação daquelas dinamites que “falharam”. É dispensável
falar dos riscos que envolvem esse tipo de tarefa com explosivos e seus agentes
detonantes. É uma função que requer bastante perícia, pois os trabalhadores se expõem
a perigos constantes “com o manuseio, transporte e preparação dos explosivos. Suas
mãos apresentam-se amareladas e, em alguns casos, com sinais de dermatose,
provocadas, provavelmente, pelos componentes químicos da dinamite” (Pretz).
Uma vez ocorrida a fase das explosões, o descombrador volta à sua atividade
para deslocar as pedras soltas e o marroeiro, com seu marrão, quebra as rochas de porte
médio que não podem ser explodidas. Com as mãos ou as pás, os carregadores
alimentam os carros que levarão as pedras até os vagonetes na ferrovia, em direção aos
britadores que irão executar a moagem do calcário.
“Na área de britagem do calcário, existem, normalmente, dois britadores de
grande porte - o primário, que brita pedras em tamanhos variáveis entre 250 a 300 mm,
as quais passam diretamente para o secundário, de onde saem com 10 a 15 mm de
tamanho, seguindo por correia transportadora ou elevador, para o silo de
armazenagem”(Pretz). Neste setor de britagem, o risco potencial de acidentes reside,
principalmente, nas partículas esvoaçantes lançadas pela boca dos britadores, assim
como os componentes dos mesmos, tais como os volantes e transmissões de grande
porte.
No mais, ocorrem os serviços auxiliares como transporte, manutenção,
administração, etc. A descrição não deixa dúvidas sobre o tipo de serviço pesado,
91 Entrevista concedida por Sr. Garrido à Equipe do DPH, em 16/07/1991. Idem acima.
72
agressivo à saúde do trabalhador e de alto risco. O grosso das atividades são executadas
manualmente, com ajuda de ferramentas simples. Os britadores são equipamentos
pesados e de grande porte, mas de fácil operacionalidade. Trata-se de um grande
moedor acionado por eletricidade, onde o corpo central é composto por uma enorme
peça de aço em forma de “pêra”, ou de “martelo”, que, ao girar, pressiona as rochas
contra as paredes de um cilindro de aço, triturando-as. Além do serviço de alimentação,
cabem operações de limpeza, desobstrução e manutenção.
O depoimento do sr. Zacarias92 chega a ser dramático:
...e o Pedrinho foi dar uma marretada na “gonda” e é perigoso escapar dentro do britador,
porque passou um homem dentro do britador é como uma muié passa uma carne numa
máquina..., aí escapou a marreta da mão dele e foi dentro do britador (a marreta). O irmão
do Faustino, você lembra ...”.
O irmão do Faustino, a quem se refere o Zacarias, segundo depoimento de
outros trabalhadores, perdeu a vida após ter sido triturado em um britador da
fábrica em Perus.
92 Depoimento do Sr. Zacarias de Oliveira, narrando o início do seu aprendizado numa máquina ferroviária, em
14/05/1991
Aspecto de uma pedreira na região de Caieiras
73
O transporte
O calcário em forma de pedras é transportado por cerca de 20 km até a fábrica,
através da ferrovia. Quando da formação da Companhia Brasileira de Cimento Portland,
em 1924, a Estrada de Ferro Perus Pirapora (EFPP), inaugurada desde 1914, fora
incorporada à Companhia. Os equipamentos rodantes sobre os trilhos geravam um
pequeno contingente de trabalhadores diretos. As informações adquiridas93 indicam que
até 1930 existiam em torno de seis máquinas tracionadoras. Cada máquina requeria
serviços de um maquinista, que conduzia a locomotiva, um foguista, que alimentava as
fornalhas do trem com combustível (lenha) e alguns operadores de tráfego. Os serviços
auxiliares executados nas oficinas mecânicas, para reparos das máquinas e vagões, esses
sim, reuniam operários em maior número e com tarefas mais diversificadas.
...eu pegava e abaixava na boca da fornalha da Maria Fumaça e lenha pra dentro, lenha
pra dentro, levantava um pouquinho a pressão eu tava faltando um poquinho de água
eu engatava o engetor, engetor era de alimentar cardera, quando abaixava um
poquinho a pressão e a cardera tava suficiente de água fechava a cardera e lenha e
lenha... (...) [às vezes] ia dormi o foguista e ficava só o maquinista na máquina; ele
fazia o serviço de foguista e o serviço de maquinista94.
Os trabalhadores desse setor de transporte tinham condições de trabalho bem
peculiares e, mesmo quando registrados como empregados da Companhia de cimento,
eles se expressam como “ferroviários”. As entrevistas com os ex-empregados da fábrica
de cimento que trabalhavam na ferrovia, demonstram que os equipamentos de trabalho
diretos tem uma força simbólica nas memórias desses trabalhadores de tal forma, que a
sua relação jurídica com a Fábrica de cimento fica ocultada e até confusa. Creio que
93 Principalmente em GORDINHO, op. cit.
94Depoimento do Sr. Zacarias, citado acima.
74
esse aspecto tenha alguma relevância para analisarmos interferências no curso dos
processos associativos dos trabalhadores.
Com relação aos riscos a que se submetem esses trabalhadores, destacam-se
aqueles decorrentes da manutenção dos vagões e locomotivas, os riscos de colisão e
descarrilamento e riscos de queimaduras devido à proximidade da cabina com a
caldeira.
O processo de trabalho na fabricação de cimento: primeira aproximação
A definição técnica do cimento, proposta pela Especificação Brasileira
EB-1, nos diz:
“Cimento portland é o aglomerante obtido pela pulverização do clinquer resultante da
calcinação até fusão incipiente de uma mistura íntima e convenientemente
proporcionada de materiais calcáreos e argilosos, sem adição, após a calcinação, de
outras substâncias a não ser água e gesso”.
Todo material que satisfaça a essa definição, que obedeça em sua composição
química a determinados limites e apresente coeficientes de resistência especificados, é
um cimento portland, seja qual for o local de sua fabricação. “A designação portland
Locomotiva pertencente à CBCP em atividade. (11)
75
não determina e jamais determinou origem ou procedência do cimento; define porém
um produto”95.
Compreende-se o esforço para uma especificação tão precisa, afinal, como já se
disse em passagem acima, a utilização de aglomerantes para a construção civil vem de
tempos imemoráveis, porém, o produto desenvolvido no final do século XIX, que
possibilitou a engenharia civil concretizar obras antes inimagináveis, requer um controle
de qualidade absoluto, por razões óbvias.
O processo de fabricação do cimento conjuga em um mesmo espaço produtivo as
atividades de extração, transporte e transformação das matérias-primas, o que faz com
que o projeto arquitetônico da fábrica e seu lay-out sejam planejados de tal forma a
otimizar o fluxo produtivo, aproveitando ao máximo os recursos, visando,
principalmente, a racionalização de esforços e energia. Não esqueçamos que no início
da década de 1920, os equipamentos mecânicos de grande porte eram raros e, no caso
de São Paulo, as fontes energéticas representavam alto custo. Ou seja, onde não
existiam máquinas, o equipamento corpóreo humano era o único recurso para executar
aquelas tarefas mais penosas.
Observando o lay-out do processo produtivo da CBCP, podemos perceber
o porquê ela fora considerada uma moderna fábrica de ponta, quando da sua
inauguração. Diante dos “restos mortais” em avançado estágio de deterioração da
fábrica, é inevitável o esforço mental que reconstrói abstratamente o processo
produtivo, ligando tubos desconectados, pontes sem começo e sem fim, fornos sem
alimentação, dutos sem destinos e, o que é mais criativo: recolocamos mentalmente todo
esse equipamento em movimento. A imaginação é difícil e a reconstrução não é
simultânea, mas é suficiente para percebermos o vulto da obra de engenharia.
Do ponto da ferrovia onde é feito o descarregamento do calcário dos vagões de
trem diretamente no primeiro britador subterrâneo, até o carregamento de outros vagões
ferroviários com o cimento já ensacado, são cerca de 250 metros de distância em linha
reta. Porém, o “milagre” da transformação da rocha de calcário em pó de cimento,
95 Cf. Boletim da ABCP, n° 43, de 1940.
76
ocorre num “desvio de rota” de cerca de 600 metros, cujo trajeto é feito através de
esteiras rolantes que correm no subsolo, passando por percurso aéreo que chega a atingir
a altura de uns 30 metros; também através de elevadores, fusos e ar comprimido.
Para melhor visualização desse processo mostro a planta da fábrica no anexo 1
desta dissertação, onde podemos ver a área onde convivem o local de produção e as
vilas operárias. Esta planta é cópia da que consta em anexo do citado Parecer de
Tombamento, elaborado pelos técnicos da Prefeitura Municipal de São Paulo.
De fato, a obra de engenharia que combina túneis, silos superficiais e
subterrâneos, enormes chaminés, pontes e os grandes equipamentos, chega a causar
certa perplexidade.
A figura que aparece no anexo 2 desta, mostra o esquema linear de
funcionamento de uma fábrica de cimento padrão.
Note-se que o processo consiste basicamente na transformação da matéria bruta
(rochas) em pó extremamente refinado, e tem no forneamento das matérias-primas
beneficiadas, a atividade mais complexa do processo de produção. São, portanto, os
fornos, os equipamentos que formam o que se costuma chamar vulgarmente de “coração
da fábrica”.
Como adiantei anteriormente, vou proceder à descrição do processo de
fabricação do cimento com o intuito de destacar os equipamentos da fábrica, para daí
refletir sobre o tipo de trabalho que elas exigem. Portanto, a descrição não respeitará,
necessariamente a seqüência produtiva, pois o nosso interesse limita-se a compreender
fundamentalmente como se dá a relação homem-máquina no processo produtivo e as
qualificações dos operários mediante o emprego dos equipamentos específicos.
Sendo assim, descreverei o processo produtivo a partir do seguinte agrupamento
de atividades:
1. processo de transformação física da matéria-prima, que envolve trituração,
moagem e mistura;
77
2. processo de transformação físico-química, quando matérias-primas são
misturadas e submetidas a altas temperaturas, até atingir o ponto de
incandescência.
3. as atividades “colaterais”, que reúnem os trabalhos que tornam possíveis
essas duas acima, tais como: mecânica, elétrica, manutenção, controle de
qualidade, etc.
São várias etapas de moagem, uma de forneamento e dois momentos de mistura.
Portanto, as atividades centrais do processo de fabricação do cimento requerem,
basicamente, grandes moinhos, equipamentos de trituração, fornos de grande porte,
equipamentos de transporte. A essas atividades centrais, adicionam-se outras auxiliares
(mas também essenciais) tais como estocagens, controle de qualidade e manutenção.
Segunda aproximação: homens e máquinas na fabricação de cimento
Vamos, pois, a partir dessa primeira aproximação, procurar descrever um pouco
mais detalhadamente as atividades centrais do processo de fabricação do cimento,
seguindo a decomposição em duas fases, conforme feito acima, ou seja, a fase que
envolve trituração e moagem, que não altera a composição da matéria-prima e a fase da
transformação físico-química da matéria.
Processos físicos de transformação
Esse processo é feito através de diversos equipamentos bem diferenciados uns
dos outros, mas cuja função é uma só: promover a trituração e moagem da matériaprima
até torná-la pó. Nessa categoria podemos distinguir basicamente dois tipos de
equipamentos: os britadores e os moinhos. Há também um processo de secagem da
matéria-prima que se realiza em grandes cilindros rotativos, bem parecidos com os
moinhos.
78
A britagem do calcário, já iniciada desde a fase de extração, dá início ao processo
produtivo propriamente dito. Acondicionado nos vagões de trem, a matéria-prima é
despejada, por gravidade, em um grande britador, localizado sob a ferrovia.
Esses britadores são máquinas que possuem basicamente uma pesada ferramenta
que realiza movimentos giratórios e que, através da compressão, trituram a matériaprima.
Após essa trituração, esteiras rolantes subterrâneas conduzem o calcário triturado
para outro britador (Pensilvânia), de onde seguem para depósitos de pedras. Nesse
processo há peneiras que selecionam as maiores, que tornarão de volta aos britadores.
Nesse mesmo depósito, em compartimento separado, é armazenada a argila, que
também chega à fábrica da mesma maneira que o calcário, ou seja, através dos
vagonetes.
Antes de seguir para o processamento, o calcário passa por um processo de
secagem no interior de secadores cilíndricos de aço, rotativos e ligeiramente inclinados,
aquecidos por grandes maçaricos, de onde saem completamente desidratados.
Misturados à argila são armazenados em grandes silos de concreto. Todo esse percurso
é também cumprido através de esteiras rolantes e o trabalho operário direto resume-se a
tarefas de acompanhamento e vigilância, além do acionamento e limpeza/desobstrução
desses equipamentos.
Já bem fracionado, essa mistura (calcário seco + argila) passa por novo processo
de moagem, agora em moinhos cilíndricos de aço com pequenas esferas de aço em seu
Aspecto de um dos armazéns
intermediários de calcário da
fábrica de cimento.
No detalhe, trabalhadores
que alimentam carrinhos
transportadores de matériaprima.
Operações manuais
combinadas com mecanismos
automáticos, onde o homem
funciona como “apêndices”
das máquinas (12).
79
Silos que alimentam os moinhos cilíndricos, que aparecem na parte inferior (13)
interior, localizados em um grande compartimento de concreto, repleto de máquinas
auxiliares. Com a rotação, as esferas chocam-se com as pedras, reduzindo-as até
transformá-las em pó, que é chamado de “farinha crua”. Após esse processo, o produto
é armazenado em outros silos, de onde seguirão para os fornos.
Após a calcinação nos fornos, o novo produto sai incandescente, sob a forma de
pequenas bolas (clinquer) e passam por resfriadores, que são grandes recipientes
cilíndricos rotativos. Daí, através de correias e elevadores, são estocados em enorme
armazém subterrâneo, mas com cobertura na superfície.
Desse depósito o clinquer é conduzido por esteiras e elevadores para outra
esteira que conduz o gesso devidamente dosado e que fora também refinado em outro
triturador. O gesso e o clinquer seguem para o “moinho de bolas” onde serão misturados
e moídos até virar pó. Através de grandes fusos que giram sobre a superfície, e de ar
comprimido que circula em longos tubos, o cimento é guardado em outros grandes silos
e daí seguirão, também por pressão de ar comprimido, às ensacadoras.
80
Percebe-se que nesse processo, todo mecanismo automático de alimentação,
condução e processamento, onde a mão humana não participa diretamente no processo
de transformação da matéria. Aliás, esse automatismo fora destacado pela redação da
citada Revista de Engenharia, do ano de 192696:
No seu interior tudo é automático; só se vêem elevadores, transportadores, etc.
Desde a chegada até a sahida a mão do operario não toca a matéria.
Ou seja, a máquina cumpre o papel central e centralizador das atividades,
cabendo aos trabalhadores as funções básicas de alimentação, fiscalização, limpeza e
desobstrução das mesmas. Os homens assumem, assim, funções de importantes
apêndices de grandes equipamentos que funcionam acionados por força motriz elétrica.
A observação desse processo nos remete diretamente às observações feitas por Karl
Marx, quando ele analisa o processo de transformação da manufatura ao maquinismo:
Nos numerosos pontos do sistema mecânico, o trabalho aparece apenas como corpo
consciente, sob a forma de alguns trabalhadores vivos. Dispersos, submetidos ao processo
de conjunto da maquinaria, não formam mais do que um elemento do sistema, cuja
unidade não reside nos trabalhadores vivos, mas na maquinaria viva (ativa), que, em
relação à atividade isolada e insignificante do trabalho vivo, aparece como um organismo
gigantesco. Neste estágio, o trabalho objetivado aparece realmente, no processo de
trabalho, como o poder dominante face ao trabalho vivo...97
Transformação físico-química
Passo agora à descrição do segundo agrupamento de atividades que trata,
basicamente, do processo de forneamento do calcário.
96 Revista de Engenharia, op. cit., p. 33.
97 Fundamentos da Crítica da Economia Política (Grundisse), in: Conseqüências sociais do avanço tecnológico.
Apresentação de Rudi Supeck, Edições populares, 1967.
81
A clinquerização, ou calcinação do calcário já misturado com a argila, é
processada no interior de longos fornos horizontais98, ligeiramente inclinados e que
giram sobre enormes roletes. Esses fornos são revestidos por tijolos refratários e têm
diâmetro que chegam a cerca de cinco metros, com comprimento que varia de 60 a 150
metros.
A “farinha crua” é introduzida numa das extremidades do forno, através de uma
grande recâmera, onde também se dá a filtragem da poeira e a exaustão de gases pelas
chaminés e que serve também como controladora de temperatura do forno. Na outra
extremidade um maçarico a óleo e um ventilador jogam ar aquecido e fogo para o
interior do forno. A matéria, sob uma temperatura de aproximadamente 1500° C,
percorre uma trajetória helicoidal facilitada pela inclinação do forno, saindo
incandescente e completamente cozida, na forma de pequenas pedras arredondadas que
recebem o nome de “clinquer”.
98 A fábrica é inaugurada com apenas um forno e, aos poucos, vão se instalando novos, ampliando, assim, a
capacidade produtiva. Em 1951, o quarto forno, com cerca de 150 m de comprimento, fora instalado, dotando a
fábrica com uma capacidade de produção de 360 mil toneladas de cimento por ano.
Esses três equipamentos compridos e cilíndricos são os fornos onde o cimento é calcinado (14)
82
O clinquer incandescente é conduzido por gravidade aos resfriadores, localizados
na parte inferior dos fornos. Estes são também equipamentos cilíndricos e giratórios.
O clinquer é armazenado, em seguida, num depósito coberto para ser feita toda
extinção da cal excedente e, depois, encaminhado à última fase de moagem que resulta
no cimento.
A moagem do clinquer é feita junto com gesso em moinhos idênticos aos
“moinhos de cru”, cujos motores são também acionados por alta voltagem. O cimento
assim obtido é pressionado por ar comprimido através de tubos, em direção a outros
silos, em cuja base, máquinas realizavam o ensacamento.
Não obstante poder ser considerado o “coração da fábrica”, a atividade de
forneamento envolve diretamente poucos operários, se abstrairmos as atividades de
manutenção, é claro. O forno fica horas a girar lentamente calcinando a matéria-prima.
Manipulando um painel de comando e observando o interior do forno, fica o operador
sempre atento ao processo. Ao forneiro é exigida muita experiência no
acompanhamento do produto, verificando pressão, intensidade da chama, temperatura,
etc.
“As operações conjuntas do forno no seu todo, apresentam alguns problemas
relacionados diretamente à higiene do trabalho, tais como: o calor radiante do próprio
corpo do forno que afeta diretamente os homens que cuidam da manutenção e
lubrificação dos rolos de apoio do mesmo; este calor atua com mais rigor no operário
(BOLEIRO), que, eventualmente, precisa quebrar os aglomerados de clinquer que, pelo
seu tamanho, não passam pela grelha; a poeira aquecida pelo calor é elevada neste local;
a luminosidade intensa e ofuscante na operação de inspeção e exame das condições
internas do forno e seu calor radiante; o despreendimento de poeira na operação de
limpeza dos filtros e da caixa de fumaça, são alguns exemplos”.
Como riscos de acidentes, podemos mencionar as queimaduras e os corpos
estranhos nos olhos, como os principais” (Pretz).
A última etapa do processo produtivo consiste no embalamento do cimento. Dos
silos que acondicionam o cimento vindo dos moinhos, o produto segue comprimido em
83
tubos até as máquinas ensacadoras. A ensacadora encontra-se numa pequena plataforma
junto às ferrovia. A tarefa dos operários consiste basicamente em pressionar alavancas
que liberam o cimento já mecanicamente dosado e que cai por pressão em sacos com
pequena abertura. Com o enchimento o saco veda automaticamente. Pelo que podemos
deduzir da imagem abaixo, esses sacos caíam sobre carros e eram conduzidos para os
vagões que ficam estacionados bem rentes à plataforma. Entretanto, posteriormente,
também essa operação fora automatizada, sendo que os sacos já tombavam em esteiras
que conduziam o cimento para toda a extensão dos vagões, reduzindo, assim, o esforço
dos carregadores.
Para o ensacamento são utilizadas ensacadeiras automáticas com sistema de
aspiração de pó para evitar sua dispersão no local. Entretanto, apesar da eficiência do
equipamento, existe sempre poeira em suspensão neste local de trabalho, o que obriga
aos ensacadores ao uso de máscaras de proteção.
Aspecto do setor de sacaria da fábrica de cimento (15)
84
“Como o pó de cimento possui características abrasivas, existe uma resistência
quanto ao uso deste equipamento de proteção, pois sua escolha inadequada e
conseqüente utilização, acaba por provocar esfoladuras por abrasão na face dos
operadores” (Pretz).
Este mesmo poder abrasivo do cimento afeta as mãos dos operários que
trabalham no carregamento dos vagões ou caminhões. Suas mãos apresentam-se
ressecadas, com rachaduras nas palmas e dobras dos dedos e as marcas digitais quase
não aparecem nas suas extremidades.
Quando o carregamento é feito para o interior de vagões ferroviários, temos
ainda a poeira e o calor como agravante das condições de trabalho.
A descrição resumida de todo esse processo de transformação de rochas calcárias
em um produto extremamente refinado como o cimento, deixa entrever um processo
mecânico automático, acionado por enormes equipamentos, que requer um sistema
organizacional perfeitamente sincronizado, para que o processo seja fluente. A
manutenção, nesse caso, é imprescindível, havendo necessidade de plantões
permanentes, pois algumas máquinas funcionam ininterruptamente, dia e noite.
Observemos, mais uma vez, que a interferência do trabalho vivo nesse processo
coloca-se como suplementar, sendo que a mão humana quase não intervém diretamente
na transformação do calcário em cimento. Essa característica é marcante e precisa ser
destacada, pois a produção mecânica e de fluxo é, certamente, característica de poucas
fábricas existentes no Brasil de então.
As atividades colaterais
No entanto, esse processo “de fluxo” restringe-se a esse circuito central da
fábrica. Isso porque, para a manutenção de todo o circuito produtivo, é necessária uma
infinidade de operações colaterais, que tornam possível o funcionamento de todo
complexo.
Destacam-se as atividades de manutenção mecânica e elétrica, os serviços de
carpintaria e do laboratório. Basta reparar as escalas proporcionais dos galpões onde se
85
realizam essas atividades, na planta em anexo, para se ter uma idéia da sua importância.
São verdadeiras fábricas, dentro da fábrica de cimento. Num período em que são nítidas
as dificuldades de importação de equipamentos, as oficinas mecânicas eram verdadeiras
fábricas de equipamentos de reposição. Equipamentos que atendiam as necessidades
não só da fábrica, mas também do sistema de transporte ferroviário.
Tão modestas quanto quaisquer outras instalações daquela ferrovia, as oficinas são um
simples galpão aberto e um armazém para almoxarifado. Não obstante, ali se repararam e
até se produziram todos os componentes para os veículos da ferrovia, que passaram pelas
mais difíceis operações de reparos e para os também antiquados fornos de cimento.
(Gordinho, op. cit., p. 53)
Nessas oficinas os processo de trabalho podem ser classificados como artesanais,
devido à complexidade das tarefas exigidas pelos ofícios, que requerem uma destreza só
atingível pelo perfeito equipamento que são as mãos humanas. Entretanto, também aí
se sobressai a moderna concepção de racionalização do trabalho99, como podemos
perceber nas palavras dos redatores da citada Revista de Engenharia100:
A situação das oficinas, umas ao lado das outras, dispostas de modo a reduzir ao mínimo
o transporte de uma a outra máquina, traz grande economia ao produto.
Manutenção elétrica
Desde a sua inauguração, a fábrica de cimento de Perus é movida a energia
elétrica. Pelas dimensões dos equipamentos, podemos imaginar o porte dos motores
elétricos destinados a movimentá-los.
99 Essa expressão nos incita à lembrança do conceito de “taylorismo”. Entretanto, a leitura de um artigo assinado
por Adalberto Marson, publicado em livro organizado por Ângela Araújo, Trabalho, cultura e cidadania, São
Paulo, Editora Scritta, 1997, chamou-me a atenção para o uso abusivo e generalizador daquilo que se
convencionou chamar de “taylorismo”. Além de relativizar e questionar a abrangência efetiva desse “método”
nas indústrias, o autor afirma que as proposições e práticas administrativas que visavam a organização
“científica” do trabalho eram comuns e muito variadas antes do aparecimento das idéias de Taylor e/ou
independentes delas.
100 Revista de Engenharia, op. cit. p. 33.
86
Todas as machinas são accionadas eletricamente por 40 motores no total de 200 HP.
Dois delles são syncronicos de 500 HP, cada um installados nas grandes moendas, e os
restantes são pequenos motores para acionar os elevadores, transformadores, etc. e se
utilizam ainda de 4 transformadores de 4400 volts101.
Uma sub-estação elétrica, localizada no pátio frontal da fábrica, era responsável
pela transformação da voltagem adquirida desde a hidrelétrica de Parnayba. Uma sala de
controle, localizada entre a oficina mecânica e o setor das ensacadeiras, comandava a
distribuição dessa eletricidade para toda a fábrica.
Os profissionais cuidavam dos equipamentos elétricos da fábrica, tais como os
painéis dos equipamentos, geradores, motores e toda a fiação responsável pela
iluminação e alimentação das máquinas. Como membros da equipe de manutenção,
esses operários circulavam por toda a fábrica, submetendo-se, assim, aos mesmos
problemas de poeira ou ruído, além do fato de estarem constantemente lidando com
equipamentos, acessórios ou dispositivos acionados por alta-voltagem, expondo-os às
queimaduras e choques elétricos. Os demais riscos de acidentes são representados pelas
101 Revista de Engenharia, op. cit. p. 33.
Vista do setor elétrico da fábrica no início da década de 1930 (16)
87
canaletas abertas por onde flui o material moído, em forma de pasta, e as arestas e
pontas externas dos parafusos no corpo do moinho.
Manutenção mecânica
Nesse setor já havia um grau de complexidade do “saber-fazer” operário muito
mais variado, requerendo, por conseguinte, uma miríade de funções especializadas:
torneiros, soldadores, serralheiros, ajustadores mecânicos, mecânicos de manutenção,
entre outras.
Esse setor agregava uma equipe significativa de trabalhadores, devido à
quantidade de serviços requeridos. Esses serviços eram requeridos tanto pelo processo
de manutenção e reposição de peças e equipamentos, da fábrica e da ferrovia, diga-se de
passagem, como também serviços que se faziam necessários pelo contínuo processo de
expansão da planta da fábrica. Note-se que a fábrica inicia suas atividades em 1926 com
apenas um forno, produzindo no primeiro ano somente 13 mil toneladas e, em 1951
implanta um quarto e maior forno, que dotaria a empresa com a capacidade de produção
anual em torno de 360 mil toneladas de cimento. Esse processo de ampliação física da
capacidade produtiva era acompanhado também de aperfeiçoamentos tecnológicos
muitos deles desenvolvidos na própria fábrica.
O grande galpão da oficina mecânica constituía-se numa verdadeira manufatura
de reposição de peças, montagem de maquinários e fabricação de equipamentos para a
produção. O maquinário da fábrica viera todo importado dos Estados Unidos, Canadá e
países europeus. Além de representar altos custos para a produção, as importações,
principalmente devido às dificuldades de transporte àquela época, incentivavam a
criatividade e a engenhosidade dos técnicos e trabalhadores das fábricas brasileiras. O
testemunho do sr. João de Barros, que trabalhou na fábrica durante 40 anos, desde 1943
e foi durante muito tempo chefe da mecânica, em entrevista concedida a mim, ilustra
bem esse aspecto. Em visita recente que fizemos juntos ao que resta dos equipamentos
da empresa, intercalando às informações sobre o processo produtivo, ele explicava
88
muito orgulhoso sobre os diversos engenhos que ele desenvolvera para melhorar e
reduzir custos da produção, como por exemplo uma máquina que usinava engrenagens
de grande porte e que aparece na foto abaixo.
Inúmeras peças novas e de reposição, pequenas e grandes, eram moldadas e
fabricadas na Cimento Perus, sendo que apenas a fundição era encomendada em
empresa de terceiros. O Sr. João de Barros calcula em aproximadamente 140 o número
de trabalhadores da mecânica no período em que ele chefiava o setor.
Os operários da manutenção mecânica e elétrica ocupavam, portanto, lugar de
destaque no processo de fabricação, pois, da experiência e habilidade deles dependia o
sucesso econômico do empreendimento.
Uma máquina ou equipamento avariado pode paralisar a produção, cabendo à
manutenção colocá-los imediatamente em funcionamento, independentemente da hora,
dia ou condições precárias da tarefa a ser executada.
Este fator pode ser apontado como uma das causas fundamentais da incidência
dos acidentes neste setor. A urgência da reparação de determinados equipamentos,
máquinas ou acessórios, para que voltem a funcionar, integrando-se no processo
produtivo, faz com que sejam negligenciados os preceitos e as normas de segurança que
devem acompanhar os trabalhos de manutenção.
Equipamento desenvolvido e fabricado pelo Sr. João de Barro (17)
89
A reparação ou substituição de refratários no interior de um forno pode servir de
exemplo, pois nem sempre seu interior apresenta temperatura ou condições ideais para o
ingresso em seu interior. Muitas vezes os homens da manutenção se vêem obrigados a
suportar calor intenso nestas tarefas, com conseqüentes danos à sua integridade física, a
fim de suprimir as falhas com o máximo de urgência.
Existem outras tarefas executadas pela equipe de manutenção e que apresentam
riscos permanentes de acidentes, tais como: a remoção ou colocação de corpos
moedores dentro dos moinhos; os trabalhos à grande altura ou em locais acanhados e
com elevada concentração de poeira, calor, umidade ou ruído.
A carpintaria
A imagem nos mostra alguns exemplos de moldes fabricados na empresa.
Podemos imaginar os movimentos das mãos dos carpinteiros a pressionar ferramentas,
dando formas novas a objetos antes em estado bruto. Através das imagens desses
produtos, podemos perceber ser a carpintaria um grande centro de artesanatos. Como já
se disse, na fábrica de cimento funcionava uma verdadeira manufatura de peças novas e
de reposição para os veículos da ferrovia e para a fábrica. As peças eram concebidas e
moldadas ali mesmo, desde engrenagens até chaminés. O processo de fundição requer a
fabricação de moldes de madeiras, com muitos detalhes refinados e com relativa
Moldes de peças de reposição produzidas no setor de carpintaria para fundição (18)
90
precisão de medidas. A modelagem era uma das atividades essenciais da fábrica, que
requeria, aí sim, operários muito bem qualificados e extremamente hábeis. Além dos
serviços de modelagem, a carpintaria atuava ativamente na manutenção e também na
ampliação da fábrica, construindo andaimes, plataformas, coberturas, pontes e muito
mais.
Podemos inferir que, diferentemente do setor que engloba as atividades centrais
do processo de fabricação, os operários desses serviços “colaterais” mantêm uma
relação muito mais ativa no processo produtivo, ou seja, não se limitam à vigilância das
máquinas, mas, ao contrário, submetem as máquinas e ferramentas aos seus propósitos
e ritmos de trabalho.
O laboratório
O laboratório era outro compartimento fundamental na fabricação do cimento,
posto que o controle de qualidade do cimento se fazia necessário em todas as etapas da
produção, pois se trata de um produto que requer a plena confiabilidade dos
consumidores, por razões óbvias.
As análises começam desde a fase extrativa, quando várias amostras são
analisadas para distinguir os melhores calcários para a fabricação do cimento. As
análises químicas e físicas das matérias-primas, bem como dos produtos resultantes de
cada fase, ocorriam em um amplo espaço equipado, que localizava-se em galpão situado
entre a administração e o setor técnico de engenharia.
O Sr. Carlos Bernardo, de 79 anos, que trabalhou muitos anos no laboratório da
fábrica de cimento, também conta com saudosismo as suas atividades e fala que no
laboratório se reproduzia em miniatura todo o processo de fabricação do cimento, para
efeito de comparação com aquele produto efetivamente saído da fábrica102.
No laboratório eu entrei como ajudante...aprendendo a fazer o serviço de amostragem,
não é? Fui galgando, então eu cheguei a ser um ajudante especializado, que sabia tudo
102 Informações extraídas de entrevista concedida ao DPH, em 17/10/1991 e ao autor desta, em 29/04/2004.
91
sobre o serviço de ajudar o químico ... Depois aprendi o serviço da física...aprendi todo o
serviço de física, de cimento (1991).
Além de técnicos em química e engenheiros, muitos serviços no laboratório eram
feitos por operários sem especialização específica, como revela o próprio depoimento
do Sr. Bernardo e o depoimento de Zeca Costa Pinto, que foi contratado em 1940, com
18 anos. Ingressante, ele foi trabalhar diretamente no laboratório localizado em uma
pedreira de Água Fria, executando o serviço com mais outros dois. Nessa entrevista103
ele revela que
“não sabia nada...Aprendi porque o químico praticava a gente”.
Corpos de prova eram submetidos a pesquisas de resistência à compressão, à
tração, à umidade durante vários anos. O controle de qualidade não era acompanhado
apenas pelos funcionários da fábrica, mas era fiscalizado periodicamente pelos clientes
e também pelo IPT que, desde 1926, realizava ensaios sobre o concreto armado104.
Os trabalhadores do laboratório situam-se no intermédio entre os operários da
produção e a equipe técnica, composta por técnicos e engenheiros, que eram, também,
responsáveis diretos pela apropriação dos conhecimentos científicos disponíveis à época
e a sua aplicação tecnológica a serviço do capital. O setor de engenharia é, sem
103 Entrevista concedida à Equipe do DPH em 11/06/1991.
104 Conforme publicação do Instituto de Pesquisas Tecnológicas de S. Paulo, intitulado “Concreto: methodos de
ensaio e especificações”, São Paulo, Julho de 1935.
Imagem reproduz ensaio com concreto no início da década de 1930 (19)
92
dúvidas, de importância vital para a fábrica, porém, a sua descrição e análise escapam às
possibilidades deste trabalho e se reduzem a esta menção.
Esses são elementos que considero importantes para procurarmos entender parte
do universo dos trabalhadores que serão alvo de análise no nosso próximo capítulo.
93
Trabalhadores da fábrica de cimento em Perus (20)
Capítulo III
O perfil das primeiras gerações de
trabalhadores da cimento Perus
94
É como se estivéssemos compondo uma paisagem, onde já mostramos a
composição do espaço verde de Perus cedendo à implantação da fábrica canadense,
com suas chaminés, correias de transmissão e esteiras rolantes, que formam uma
engenhoca a se alimentar de pedras e regurgitar cimento.
Isto composto, resta-nos dotar a paisagem de movimento. É curioso pensar que
esse movimento não dependa do gigantismo engenhoso do capital constante e do
protagonismo dos senhores que o engendraram e que hoje batizam as ruas do lugar,
como o caso do Dr. Sylvio de Campos, que dá o nome da principal avenida que corta
(ou liga) todo o bairro de Perus.
De fato, sem a força do trabalho a compor a nossa tela, a paisagem não adquire
movimento; sem ela não há vida, nem na tela, nem do capital e nem do capitalista.
É verdade que a parte constante do capital tem supremacia absoluta em termos
de volume dos investimentos: em um simples cálculo, sem pretensões de precisão,
tomemos o capital original da companhia, que foi declarado, quando da sua fundação,
no valor de 25 milhões de contos de réis, aproximadamente 3 milhões de dólares105.
Em contraposição, partindo de uma média salarial de 1.200 réis por hora, pagos a 560
operários, chegamos ao número de 1.612.800.000 de réis, que compõe a parte variável
do capital, gastos na compra da força de trabalho durante um ano. Traduzindo: o valor
correspondente a 1 ano de salários de todos os operários da fábrica, compõe cerca de
6% de um valor106 que supostamente seria investido na montagem da fábrica, só para
termos uma dimensão, em termos de valor, da relação entre capital variável e capital
constante.
Que o leitor não se iluda: essa insignificância expressa em valor numérico, não
traduz a essência do valor de uso das coisas, pois este é imensurável. Aliás, uma das
mais importantes teses marxianas, baseia-se na afirmação de que o lucro do patrão
105 Cf. PELÁEZ, Carlos Manoel op. cit. p. 198.
106 Segundo cálculos que aparecem no texto da Consultec, 1967, p. 3-34, o custo da mão-de-obra representava,
em 1966, 9% a 12% do total de custos da produção do cimento.
95
ocorre exatamente porque este compra o valor de uso da força de trabalho, por
determinado tempo, porém, paga ao dono dessa força, quando muito, apenas o seu
valor de troca. Ou seja, o patrão troca o valor de uso da força de trabalho pelo seu
valor de troca, exatamente porque ele sabe de antemão que aquele é maior que este.
Pois bem, este 3° capítulo dedica-se exatamente à composição dessa massa de
trabalhadores da fábrica de cimento.
Trata-se de uma tarefa complexa: ao demiurgo é trabalhoso compor um só
corpo a partir de “almas” tão complicadas e diversificadas que se espalham pelo
espaço fabril de Perus.
Negros, brancos, culturas diversas, línguas estranhas, desejos e vontades
múltiplos e contraditórios, experiências e idades díspares, enfim, todas essas diferenças
terão que ser transformadas em um só produto (cimento), para atender ao único desejo
do capitalista: o lucro. O fundamental existe, então: essa massa de multiplicidades já
disposta a servir a um único senhor, em benefício deste e não dela própria. E não é o
caso de responder aqui à intrigante e insepulta questão colocada por um proponente no
século XVI: o que leva tantos homens a se subjugarem a um só tirano?107
Pois bem, montar a paisagem e a fábrica com seus mecanismos, já o fizemos,
com não pouco trabalho. Agora resta-nos a difícil tarefa de soprar pelas chaminés, as
almas, nesse corpo inerte e cinzento, para que a nossa tela ganhe vida(s). Vida(s) que,
certamente, não se tornará(ão) nomes de ruas. Até porque, na maioria dos casos, no
palco da história, os trabalhadores não têm nomes e vivem no anonimato. São eles
tratados como meras máquinas a se torturarem (para justificar a origem etimológica do
termo), para garantir o bem estar de poucos.
Mas, atenção: deste “sétimo dia” da nossa obra, apenas alguns dos seus minutos
serão revelados, posto que, uma parcela muito diminuta da história daquelas vidas
humanas será exposta, mesmo assim, a partir de dados e não de vivências.
107 Expressão inspirada no texto “A servidão voluntária”, de Etiènne de La Boetie, de 1573, cuja versão foi
editada pela Brasiliense, em 1982. “Coisa realmente surpreendente (...) é ver milhões e milhões de homens
miseravelmente subjugados e, de cabeça baixa, submissos a um jugo deplorável (...) apenas pelo nome de um que
não deveriam temer...”
96
Considerações preliminares
Neste capítulo traçarei o perfil dos trabalhadores que, ordenados sob a lógica do
capital, constituíam aquele enorme mecanismo produtor de riqueza que se realizava
sob a forma de cimento.
A principal fonte que dá suporte a minha pesquisa são fichas da empresa que
catalogavam a sua força de trabalho. As inúmeras informações de que dispomos, como
nome, endereço, filiação, data de admissão e demissão, profissão, fotografia e outras
mais, nos dão uma visão de conjunto, ainda que nos mantenha distantes do
efervescente mundo que aqueles trabalhadores construíram cotidianamente.
O fichamento é um recurso administrativo que vem a atender às necessidades de
controle não só dos patrões, mas também às ações fiscalizadoras do Estado, no que diz
respeito à gestão da força de trabalho pelo capital. As fichas dos operários resumem as
informações que aos donos da empresa bastavam para fins de controle. São
informações que friamente se transformam em números. Números que montamos para
agrupar e identificar os trabalhadores e que, paradoxalmente, ocultam as identidades
profundas daquelas pessoas. Ou seja, não obstante as fontes falarem dos trabalhadores,
elas não expressam necessariamente suas “falas”, mas nos fornecem dados bem
“objetivos” que registram marcos importantes na vida dos indivíduos.
Utilizarei os dados fornecidos pelas fichas, procurando algumas caracterizações
gerais que nos informem sobre os perfis dos trabalhadores da fábrica de cimento.
Como o universo de fichas que disponho é relativamente grande, ousarei realizar
algumas comparações a fim de inferir características que não são apenas
especificidades daqueles trabalhadores, mas representam também parte do universo
contraditório da classe trabalhadora brasileira no período.
Os dados fornecem informações de um período de cerca de 20 anos (1925-
1947). A minha tarefa fica um pouco facilitada quando mantenho a minha análise no
contexto da história da Fábrica de Cimento Perus. Entretanto, a tentativa de
generalização em um plano mais amplo, como o contexto dos trabalhadores paulistas
97
desse mesmo período, apresenta níveis bem maiores de dificuldades para produzir
afirmações com maior grau de segurança. Afinal, nesse quarto de século que vai de
1922 a 1947, movimentos e transformações profundas acontecem no Brasil, e em São
Paulo, particularmente. Não obstante os múltiplos traços de permanências, parece-me
inegável que as rupturas havidas na sociedade brasileira nesse período, causaram
transformações que tornam a realidade brasileira de 1922 significativamente diferente
daquela do final dos anos 40.
Com isso quero apenas antecipar as dificuldades que encontrei para decidir
algumas das formas de agrupamentos dos dados extraídos das fichas. Num período
curto de tempo, onde ocorrem grandes transformações políticas e sociais, tem-se que
tomar maiores cuidados com as periodizações, as generalizações e as afirmações.
Dos diversos dados das fichas, cujo modelo aparece no anexo 3, optei por
escolher alguns que julguei mais significativos e que despertaram mais o meu interesse
de pesquisa: origem, se estrangeira ou nacional e, nesse caso, de que estado da
federação; faixas etárias; cor da pele; níveis de salário; instrução; tempo de
permanência na fábrica; ofício e acidentes de trabalho. Percebam que, apesar da
seleção, são dados que podem introduzir debates em áreas muito diversificadas.
Daí a necessidade de esclarecer, desde já, o caráter apenas panorâmico no
tratamento de cada um desses aspectos, afinal, um debate aprofundado sobre tantos
possíveis temas, extrapolaria sobejamente o escopo desta dissertação. Conformemonos
com a quantidade de informações “brutas” que exponho, pois elas, por si sós,
seguramente servirão como “insumos” para outras várias pesquisas que se proponham
a estudar o perfil do proletariado brasileiro no período estudado.
Tenho muita cautela em sustentar em números um capítulo inteiro dessa
dissertação. Afinal, tenho consciência do poder de fascínio e encantamento que os
números nos causam, ainda mais na nossa sociedade onde os economistas e
numerólogos tanta influência exercem, principalmente na mídia. Muitos profissionais
utilizam os números exatamente para dar ares de verdades inquestionáveis aos seus
argumentos. Do meu lado, eu tenho a consciência da importância dos dados numéricos
98
como reveladores de aspectos significativos de determinados fenômenos, e, diria até,
que em certos casos, eles são indispensáveis. Por outro lado, também sei do potencial
escamoteador e velador da realidade que cabem em certas formas de agrupamentos dos
dados.
No caso deste estudo, a minha intenção é extrapolar um pouco o mundo dos
números, buscando compor alguns elementos culturais tecidos naquele ambiente
operário de Perus-Água Fira, cruzando os dados com alguns documentos que disponho
além das fichas. Dados como “cor da pele” podem muito bem servir para alimentar a
imaginação daqueles que buscam chegar a uma espécie de índice de racismo da
sociedade brasileira. Do meu lado, eu acho que esses dados, ainda que importantes, são
muito “frios” e limitados para dar conta de algo tão complexo e carregado de
subjetividades, como é o caso das relações humanas, no que diz respeito a etnias e
culturas díspares.
Não foi possível determinar a dimensão da amostra representada por essas 1500
fichas. Certamente elas não representam todo o universo de operários que trabalharam
na fábrica desde a sua inauguração até meados da década de 1940. Entretanto, temos
razões para supor tratar-se de uma excelente e bem abrangente amostragem.
Provavelmente, essas fichas sobre as quais trabalhei foram preenchidas em
meados da década de 1930; portanto, os dados anteriores a esse período foram
transferidos bem depois da efetiva contratação do empregado. Não creio de modo
algum que esse fato interfira na fidelidade dos dados. Penso que o prejuízo maior se
refira aos trabalhadores contratados e demitidos antes da década de 1930, que não
apareceriam nos registros.
Em alguns campos das fichas aparecem rasuras e registros que se sobrepõem.
Fiz a opção de levar em conta aquele registro original, que primeiro foi anotado. Sendo
assim, abstrairei as informações que refletem algumas alterações ocorridas durante a
vida funcional, como a de salários e de função, por exemplo. Isso seria importante caso
eu me dispusesse a verificar o aspecto da rotatividade nas ocupações ou evoluções
99
funcionais, fenômenos administrativos não tratados aqui. Sendo assim, os dados
descritos revelam mais sobre o panorama do momento do contrato do operário.
Devo ainda registrar que o estudo sobre a Fábrica de Cimento de Perus está
apenas no seu início. Há uma infinidade de informações que poderão estar prestes a
serem reveladas, se, de fato, conseguirmos chegar a outros acervos da empresa já
fechada. A resistência e o hermetismo dos seus últimos proprietários, a família
Abdalla, podem estar sendo superados pelas iniciativas de pesquisadores, entidades e
moradores do bairro que se esforçam pela preservação da memória de Perus.
Sabemos que os arquivos de fábricas formam um preciosíssimo acervo que
guardam informações valiosas sobre a história brasileira. Porém, não é fácil romper
com essa blindagem empresarial, que mantém cerrada a sete chaves, “segredos”
patronais das mais diversas ordens108.
No caso de Perus, sabemos que a história da empresa, principalmente a partir da
dedada de 1950, quando a propriedade e gerência da fábrica passou dos canadenses
aos Abdallas, reserva lances que deixaram profundas seqüelas na memória dos
empresários e, principalmente dos moradores de Perus. “Queixadas” e “pelegos”109 são
terminologias que, até os dias de hoje, demarcam territórios ideológicos e políticos
entre os moradores daquele bairro. A greve de sete anos, iniciada em 1962 deixou
cicatrizes profundas e que, em parte, são responsáveis pela nossa inacessibilidade aos
documentos oficiais da empresa. Porém, tenho fortes razões para crer que parte
importante desses problemas está sendo superada e que, dentro em breve, revelará
muitas novas fontes que se cruzarão com estas que ora exponho, para tornar mais rica
e complexa a tecitura dessa história que sempre está por ser (re)contada.
108 Há um pequeno artigo da Mirta Zaida Lobato e Fernando Rocchi, que se intitula Industria y trabajadores: el
valor de los archivos como fuente documental, publicado na Revista de História Entrepasados, nº 1, de 1991, da
Faculdad de Filosofia y Letras de Buenos Aires. Essa publicação se encontra na biblioteca do IFCH, da Unicamp,
em Campinas, São Paulo.
109 Sobre a história desse período que aborda esse acontecimento, consultar as citadas obras de Adilson
Gonçalves e Élcio Siqueira, que estão relacionadas na Bibliografia desta.
100
O tamanho da fábrica
A Companhia Brasileira de Cimento Portland é oficialmente inaugurada no dia
26 de junho de 1926. Entretanto, desde o lançamento da sua “pedra fundamental”, a
força de trabalho é posta em movimento produtivo para o capital. A constituição
jurídica da empresa acontece em agosto de 1924 e, supomos que já nesse mesmo ano
tenha sido iniciada a construção das suas instalações.
Entretanto, a data mais remota de registro que aparece nas fichas de
trabalhadores é do ano de 1925. Exatamente, a ficha informa o dia 07 de março de
1925, como data de ingresso do trabalhador com o sugestivo nome José Guillim
Pedreira, trabalhador espanhol, com 19 anos, contratado como “ferreiro”, cujo registro
funcional recebe o número 83. Contradições em outros registros não nos permitem
inferir ser este José o octogésimo terceiro funcionário registrado pela empresa.
Informações de outras fichas parecem confirmar que esse registro funcional, de fato,
não está de acordo com a ordem cronológica de admissão dos operários. Ainda do ano
de 1925, encontrei mais três fichas de operários.
Pelas fichas consultadas não é possível estimar quantos trabalhadores faziam
parte do quadro de funcionários quando da sua inauguração em 1926. Deste ano
encontramos o registro de apenas vinte e dois operários.
No boletim do Departamento Estadual do Trabalho (DET), n° 58, de 1927,
aparece publicado um extrato do recenseamento feito pelo DOPS, com a informação
de 610 trabalhadores empregados em fábricas de cal e cimento.
O citado texto da Consultec 110 nos fala de um total de 560 operários em 1927.
Como já dissemos, a Consultec faz um estudo encomendado pelo setor cimenteiro,
portanto, suas informações certamente têm origem nas próprias empresas.
É certo que em 1927 há dois fornos instalados, e só a partir de 1930, a fábrica
tem os três fornos funcionando, com capacidade total de produção de 200.000
110 Consultec, op. cit., p. 1-13.
101
toneladas de cimento por ano. Lembramos que o quarto e último forno só é introduzido
no ano de 1951.
Ou seja, se partirmos do pressuposto de que o processo de fabricação do
cimento não se altera qualitativamente até o final do período em que estudamos, e que
o processo de automatização da produção já existe desde a sua abertura, podemos
inferir com alguma segurança, que os contingentes de trabalhadores só se alteram
significativamente por circunstâncias conjunturais que obriguem a fábrica funcionar
variando a sua capacidade ociosa, ou quando a empresa contrata operários para a
ampliação da planta.
Comparativamente ao ano de 1926 esses números parecem confirmar a
informação da Consultec. Se, por um lado, em 1927 não estavam em funcionamento os
fornos 3 e 4, por outro, há que se computar os muitos trabalhadores que operavam todo
o processo de ampliação da planta que estava em curso naquele período. Talvez por
isso os registros apontam número relativamente elevado de pedreiros e carpinteiros na
fábrica.
Se simplesmente subtrairmos do total de fichas que registra admissão de
trabalhadores (1493 admitidos) com as fichas que registram os trabalhadores demitidos
em todo período pesquisado (978 demitidos), teremos a sugestiva cifra de 515
operários.
Ou seja, esses números servem para dimensionarmos o tamanho relativo da
empresa que pesquisamos: talvez pudéssemos trabalhar com a média que varia entre
500 a 600 trabalhadores no período pesquisado; o que, do ponto de vista do emprego
de força de trabalho, coloca a fábrica de cimento de Perus como uma empresa de
grande porte no seu período inicial de existência.
O Censo de 1920111 indica que apenas 3,5% dos estabelecimentos industriais de
São Paulo possuíam mais de 100 operários registrados.
111 Cf. Censo Geral de 1920, Volume V.
102
Cimento Perus: no masculino
Quando eu me refiro ao universo de trabalhadores da fábrica, seguramente nada
me constrange pelo fato de utilizar o substantivo no masculino, mesmo ao generalizar,
posto que, tudo indica que na fábrica de cimento só trabalhavam quase que
exclusivamente homens. Localizamos a incidência de duas prováveis mulheres, a
presumir pelos seus nomes: uma chamada Ilze de Castro Winz, nascida em 1919 e que
ingressou com 25 anos na fábrica, ocupando o cargo de “enfermeira”, em outubro de
1944; a outra, chamada Angelina Frediani, registrada como “servente”, ingressou na
fábrica em 25.11.1933, também com 25 anos de idade.
É um fato digno de nota, se lembrarmos que, conforme mostram os Censos
Gerais de 1920 e 1940, em São Paulo, cerca de 1/3 da força de trabalho industrial é
composta por mulheres. Porém, também é certo que esse fenômeno acontece
principalmente no setor têxtil, mas é significativo também na produção de alimentos,
bebidas, papel e papelão, chapéu, nas indústrias químicas e de vestuário.
No caso da Fábrica de Cimento em Perus, podemos buscar explicação para esse
fenômeno da ausência feminina nas próprias características do processo de produção,
que, não obstante o grau de automatização na fábrica, os serviços de acompanhamento
e alimentação das máquinas podem ser considerados pesados e, à época, seguramente
inadequados ao trabalho feminino. Em indústria mecânica, de metalurgia e de
construção civil, o percentual feminino da força de trabalho é de 4%, 6% e 1%,
respectivamente112, em 1940.
De qualquer forma, tudo indica que, mesmo os serviços auxiliares de limpeza,
de copa, etc., tenham sido executados pela força de trabalho masculina.
112 Dados consultados no livro Mulheres e trabalhadoras: presença feminina na constituição do sistema fabril, de
PENA, Maria Valéria Junho, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1981.
103
Dados sobre faixa etária: força de trabalho jovem
O grosso dos trabalhadores pesquisados tinha idade entre 18 e 35 anos, quando
ingressaram na CBCPP113. Das 1498 fichas pesquisadas, 1184 registram trabalhadores
nessa faixa etária. O mais novo teria 10 anos de idade e o mais velho a ser contratado
apresentaria a idade de 66 anos.
Faixas etárias de ingresso CBCPP, entre 1925 e 1947
Idade N° de trabalhadores %
Menores de 18 75 5,1
Entre 18 e 35 1185 79,7
Entre 36 e 50 211 14,2
Maiores de 50 15 1
TOTAL 1486 100
Os dados revelam a presença de 75 menores de dezoito anos trabalhando na
empresa, sendo que, desses, 30 teriam entre 10 e 15 anos de idade. Entre 51 e 66 anos,
ingressou um pequeno contingente de trabalhadores na empresa, representando apenas
1% do total, sendo a maioria desses trabalhadores com alguma especialização.
A maioria dos menores de 18 anos é registrada como aprendizes (19), ajudantes
de funções especializadas (11), auxiliares (06) e serventes (13). Quinze aparecem
registrados como “trabalhador”.
A presença de menores na fábrica (5,1%) é significativa, embora com índices
bem inferiores àqueles apresentados em outros ramos da indústria. No ano de 1919, os
113Cheguei a essa informação da idade fazendo a subtração entre a data de admissão registrada e o ano de
nascimento. A idade que consta destacada na ficha nem sempre confere com esse cálculo, pois, certamente, foi
registrada quando do seu preenchimento, já em meados da década de 1930, quando essas fichas de registro foram
renovadas. Por isso, não adotei imediatamente a informação da idade destacada.
104
ramos têxtil e químico apresentam índices maiores que 35% e o de metalurgia próximo
a 10% de emprego da força de trabalho do menor114.
O registro formal da ocupação nas fichas (aprendizes e auxiliares) pode não
indicar exatamente a situação de exploração da força de trabalho do menor em serviços
pesados. A imprensa operária do período, costuma apresentar o dramático quadro do
uso abusivo de menores na indústria ainda nesse período115.
Porém, é visível que a Fábrica de cimento se apóia substancialmente na
exploração de uma força de trabalho que se encontra no clímax do seu vigor físico, ou
seja, entre os 18 e os 35 anos de idade.
Estado civil
Dentre esse contingente de trabalhadores, cerca de metade aparece com a
situação civil de “casado”:
Tabela com registro de estado civil
TOTAL Negros Brancos Mulatos Nacionais Estrangeiros
CASADOS 714
48,7%
82
40,8%
399
50,2%
68
46,2%
516
44,3%
198
65,8%
SOLTEIROS 740
50,5%
118
58,7%
387
48,7%
79
53,7%
639
54,8%
101
33,5%
VIÚVOS 12
0,8%
1
0,5%
8
1,0%
-
10
0,9%
2
0,7%
TOTAL 1.466
100%
201
100%
794
100%
147
100%
1.165
100%
301
100%
114 Conforme BOLSONARO, Esmeralda Blanco, Mulheres e menores no trabalho industrial. Petrópolis-RJ,
1982.
115 O fenômeno da utilização de menores na indústria atinge proporções tão grandes, que em 1927, após a edição
de várias leis, é editado o Código de Menores, o qual consolidou as leis de assistência e proteção aos menores.
Entretanto, sabemos que as leis do país não garantiam o seu cumprimento por parte dos patrões, e as denúncias e
reivindicações dos trabalhadores contra o uso desse recurso eram constantes. Em novembro de 1932 é editada lei
que substitui o antigo Código do Menor. O livro da Bolsonaro, Mulheres e menores..., entre outros, trazem
informações sobre essas condições de trabalho dos menores.
105
Percebe-se que a taxa percentual de casamentos é significativamente mais alta
entre os estrangeiros: enquanto que a representação percentual dos casados entre os
estrangeiros chega a quase 66%, essa representação é de cerca de 44% entre os
brasileiros. Um dos fatores que explica essa diferença pode estar inscrito no histórico
desses trabalhadores: de fato, estudiosos da imigração afirmam que, desde a introdução
do trabalho livre na agricultura em São Paulo, os contratantes de mão-de-obra
brasileiros davam preferência àqueles tinham famílias constituídas.
Os cafeicultores geralmente explicavam a sua preferência pela mão-de-obra familiar
sustentando que os imigrantes acompanhados de suas famílias eram menos propensos a
abandonar a fazenda. (...) tal noção de família oferecia aos fazendeiros lucros materiais
substanciais. (...) As esposas e filhos dos trabalhadores eram especialmente úteis quando a
demanda de mão-de-obra aumentava na época da colheita... 116
Além disso, os dados indicam que a força de trabalho estrangeira ingressou na
fábrica com uma média de idade bastante superior à média dos brasileiros, como
mostra a tabela abaixo:
Idade de ingresso na fábrica
Média de Idade Idade Modal
Nacionais 26,2 anos 18
Estrangeiros 31,9 anos 30
Quadro Geral 27,3 anos 21
Como se vê, a diferença é bastante significativa. Observe o leitor que a idade
modal, ou seja, aquela que mais freqüentemente aparece nos números, é também
bastante diferenciada: 18 entre os brasileiros e 30 entre os estrangeiros.
Daí podermos entender o porquê da diferença entre o número de solteiros
declarados, entre os trabalhadores nascidos no Brasil, ser maior.
116 STOLCKE, Verena: Cafeicultura, homens, mulheres e capital. São Paulo, Brasiliense, 1986.
106
Dessa taxa decorre que o maior percentual relativo de trabalhadores com filhos
aparece também entre os estrangeiros. Enquanto que o percentual de estrangeiros entre
o total de trabalhadores é de 20,5%, a taxa daqueles que têm filhos é de 27,9%, ou
seja, dos 524 que aparecem declarados como pais, 146 deles são estrangeiros.
São 1.362 filhos declarados, o que dá uma média de 2,6 filhos por família. Essa
média, que nos dá a chamada taxa de fecundidade, é muito semelhante para os dois
grupos: 2,7% para os estrangeiros e 2,55% para os nacionais. Esta última taxa nos
indica também que o número de filhos por família dos brasileiros deve ser um pouco
superior que a dos estrangeiros, já que estes apresentam um maior número relativo de
homens que são pais e, no entanto, o número de filhos por pessoa é praticamente igual,
sendo que, como já vimos acima, a média de idade dos estrangeiros é bem maior que a
dos nacionais.
O percentual de negros casados é o mais baixo. A média de idade de ingresso
do negro é idêntica à do branco: 26 anos, sendo que a idade modal é de 21 anos. Por
quais caminhos buscaremos essa resposta?
George Andrews considera uma visão preconceituosa aquela que cria os
estereótipos de que os negros levam uma via embrutecida e animalizada, que leva-os à
embriaguez, à violência e à negação de princípios familiares. O autor cita trabalhos
empíricos que contrariam essa visão, mesmo quando se reporta ao período da
escravidão. Andrews sugere que os índices podem simplesmente indicar “uma idade
mais tardia para o casamento entre os negros do que para o casamento entre os
brancos”117, mas termina levantando uma hipótese muito plausível, no meu entender:
Esses dados indicam uma tendência levemente mais baixa para os afro-brasileiros se
casarem e formarem unidades familiares. Isto deveu-se substancialmente a dificuldades
que os homens negros encontram em conseguir trabalho estável com salários decentes.
Testemunha contemporânea sugere que as famílias negras tenderam superar esses
117 ANDREWS, George R., op. cit. p. 128.
107
obstáculos construindo laços ampliados de apoio e solidariedade entre avós, parentes
padrinhos e amigos.118
De fato, os dados extraídos nas fichas dos trabalhadores da Cimento Perus
mostram que a diferença entre os percentuais de casamento entre os brancos e negros
não é tão significativo para sustentar as suspeitas preconceituosas como mostramos.
Nacionais e estrangeiros na Cimento Perus
No capítulo 1 desta dissertação, sugerimos que a fábrica de cimento se
beneficiou do grande mecanismo de montagem do mercado de trabalho no estado de
São Paulo, com a importação da força de trabalho estrangeira e depois a nacional.
Vimos também que Perus, não obstante pertencer ao município de São Paulo, era uma
região distante do centro e com uma população relativamente diminuta.
Iniciaremos este tópico buscando nos aproximar mais do nosso caso específico,
recorrendo às informações fornecidas pela obra já citada de Jungen Langenbuch119:
Passemos a considerar os “povoados-estação” que conheceram a implantação industrial,
em seu conjunto. De onde obtinham os estabelecimentos a mão-de-obra? Onde residia
esta? É provável que até certo ponto as várias fábricas tenham lançado mão da população
caipira das vizinhanças, pelo menos para tarefas não carentes de especialização
profissional. Mas, se tal recrutamento houve, deve ter sido diminuto, e restrito a algumas
fábricas, pois, tanto nas indústrias da cidade, quanto nas implantadas nos arredores
paulistanos, a proporção dos operários brasileiros era pequena, em alguns casos
desprezível; os estrangeiros predominavam largamente.
No caso da Cimento Perus, de fato, os relatos orais registram sempre a grande
presença de trabalhadores estrangeiros. O citado Parecer de Tombamento120, apoiado
118 Idem, p. 129.
119 LANGENBUCH, J. Op. cit.
120 Parecer de Tombamento do DPH, p. 19.
108
em reportagem de jornal de época e também em depoimentos de ex-operários da
fábrica, confirma a forte presença estrangeira:
Não apenas das proximidades vieram trabalhadores. Desde os mais variados Estados
brasileiros (Bahia, Pernambuco, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraíba), como dos mais
distantes países do mundo (Itália, Alemanha, Portugal, Hungria, Espanha, Argentina,
Iugoslávia, Rússia, Inglaterra, EUA, entre outros) afluíram pessoas em busca de emprego.
Segundo o texto do parecer, ainda baseado em jornal da época, a presença
estrangeira se justificava em virtude da necessidade de trabalhadores especializados
para determinadas funções e que isso provocara uma divisão entre estrangeiro como
trabalhadores especializados e brasileiros como trabalhadores não qualificados:
Para ter-se pessoal com essa experiência, tornou-se necessária a vinda de algumas pessoas
da Espanha, de onde aliás veio o engenheiro-chefe. O superintendente é norte-americano,
com experiência de 26 anos na fabricação de cimento”121.
Porém, no mesmo corpo da matéria vem a ressalva de que:
O grosso do pessoal, todavia é brasileiro, e do interesse que esse tem tomado neste novo
ramo de atividade nacional, deduz-se que dentro em pouco tempo tornar-se-á
eficientemente habilitado nessa indústria.
Já no relatório da Consultec, o nível de detalhamento nos números levanta uma
grande dúvida com relação ao percentual de estrangeiros:
Na sua fase inicial a fábrica de Perus valeu-se muito de know-how estrangeiro,
trabalhando no ano de 1927 com 281 operários nacionais e 268 operários estrangeiros, 7
técnicos nacionais e 4 técnicos estrangeiros122.
121 Correio Paulistano de 25.06.1926.
122 Consultec, op. cit. p. 1-13.
109
Sem identificar a fonte, Gordinho afirma que:
Reproduzindo o perfil da divisão do trabalho da época, os operários eram brasileiros e
imigrantes principalmente italianos e os trabalhos especializados estavam entregues aos
técnicos canadenses123.
Como vemos, os documentos trazem uma controvérsia envolvendo a
composição da força de trabalho da Cimento Perus, no que diz respeito à participação
estrangeira. Analisando o universo total das fichas, que engloba trabalhadores
admitidos desde 1925 até o ano de 1947, teremos o seguinte percentual de
estrangeiros:
Proporção entre nacionais e estrangeiros
Ingresso entre 1925 e 1947
Quantidade %
estrangeiro 308 20,6
nacional 1190 79,4
Total 1498 100,0
Mesmo os dados das admissões no ano de 1927, ainda que sejam pouco
representativos (apenas 27 fichas), eles indicam a presença de 63% de nacionais contra
37% de estrangeiros. Ainda que esses números não confirmem o percentual de 48% de
estrangeiros anotados pela Consultec, trata-se de um índice significativo de
estrangeiros, que gradativamente vai se reduzindo com o passar dos anos.
Ou seja, sob todas as perspectivas e, tendo em vista a excelente amostragem que
essa quantidade de fichas representa, os números colocam em dúvida o alto percentual
de estrangeiros apontado pelo documento da Consultec. Por outro lado, eles
confirmam a informação veiculada nos documentos da época que afirmam que “o
grosso do pessoal, todavia é brasileiro”. Assim, a análise dos dados fornecidos pelas
fichas dos trabalhadores indica que o caso da fábrica de cimento em Perus, em meados
123 Cf. GORDINHO, M. Op. cit.
110
da década de 20, pela ampla predominância de trabalhadores brasileiros, se
enquadraria naquele panorama de exceção propugnado por Langenbuch.
Todavia, embora as fichas não confirmem as proporções estatísticas do texto da
Consultec, precisamos fazer algumas ponderações, tendo em vista a dificuldade em se
caracterizar com segurança a definição de estrangeiro numa cidade como São Paulo
daquele período. De fato, no início da década de 1930, a maioria dos moradores da
capital paulista era estrangeira ou composta por filhos de estrangeiros.
Mesmo em 1934, quando os imigrantes formavam 28% da população total, o
recenseamento revelou um dado impressionante: 67% dos paulistanos eram ou
estrangeiros ou filhos de estrangeiros124.
Podemos considerar os filhos dos estrangeiros recém chegados ao Brasil,
simplesmente como brasileiros? Será que as fontes usadas pela Consultec teriam
englobado como estrangeiros aqueles filhos de imigrantes nascidos aqui? Sobre essas
questões pouco nos importam a resposta exata. O fato é que as estatísticas baseadas
nas fichas indicam o percentual de 20,6% de nascidos fora do país, entre os
trabalhadores que ingressaram na fábrica entre 1925 e 1947. Entretanto, se
considerarmos o número de trabalhadores contratados desde 1925 até 1934, veremos
que o percentual de estrangeiros é bem maior:
Percentual de estrangeiros entre 1934 e 1940
124HALL, Michael. A Imigração, in: Paula Porta (Org.), São Paulo 450 anos, São Paulo, Paz e Terra (a sair), p. 2.
Admitidos até (ano) Estrangeiros (%) Nacionais (%)
1934 34,6 65,4
1936 31,2 68,8
1938 27,0 73,0
1940 24,5 75,5
111
Ou seja, o percentual de estrangeiros admitidos até o ano de 1934 é ainda
superior ao percentual de estrangeiros em São Paulo, conforme índice de 28%
apresentado por Hall. O quadro é claro ao apresentar uma cada vez maior diluição dos
estrangeiros no universo cada vez mais predominantemente brasileiro.
Quem são esses estrangeiros
Ao escutar algumas das entrevistas com ex-trabalhadores da fábrica, hoje muito
idosos, considerei curioso o fato deles não distinguirem claramente as nacionalidades
dos trabalhadores imigrantes. Quando eles se reportam à administração que antecedeu
os Abdalas125, que adquiriram a fábrica em 1951, ora falam “dos americanos”, ora
falam dos “canadenses” ou simplesmente de “gringos”. No geral, os membros da
administração são chamados de “americanos”. Quando perguntamos sobre os
operários estrangeiros, distingue-se o trabalhador espanhol, italiano e também é
comum referirem-se aos “hungarezes”. Perguntei ao Sr. João de Barros,126 que era
filho de um iugoslavo que trabalhou na fábrica desde a sua inauguração, se tinha
muitos iugoslavos na fábrica, ao que ele respondeu prontamente:
- Tudo hungarês...a maior parte da fábrica era tudo hungarês...
- Hungarês?
- É, esses iugoslavo, né? hungarês, tinha polonês...
- da Hungria?
- É..., iugoslavo, polonês, alemão...
Esse fato pode simplesmente ser classificado como uma falta de informação no
que diz respeito à geografia mundial da época. Entretanto pode também dar suporte a
questões como: em que medida esses operários cultivavam, naquele espaço de Perus,
as memórias de sua terra, de sua etnia, de sua cultura? Ou, contrariamente, a sua
125 Em 1951 o então empresário José João Abdalla adquire dos canadenses a propriedade da Estrada de Ferro
Perus Pirapora, a Fábrica de Cimento e algumas pedreiras.
126 Entrevista concedida ao autor em 29 de abril de 2004.
112
permanência aqui no Brasil ocorreu à base de uma integração tal que as memórias do
estrangeiro se diluía rapidamente diante da dura e comum identidade de trabalhadores,
seja no espaço da produção, seja nos locais de reprodução da sua vida social e cultural
fora da fábrica? Segundo Michael Hall127:
Uma vez na cidade, os imigrantes tendiam a procurar emprego e moradia nos bairros
industriais nas vizinhanças das linhas da estrada de ferro. Em São Paulo, nunca houve
guetos étnicos tão fechados como em várias cidades norte-americanas. Certamente (...)
havia concentrações de imigrantes e, em alguns casos, de certas nacionalidades.
Entretanto, a única pesquisa aprofundada da questão, baseada em dados de 1934,
identificou apenas três grupos que formavam, numa terminologia cara ao Estado Novo,
“enquistamentos étnicos”: os judeus no Bom Retiro, os Japoneses na Liberdade e os
sírios numa parte dos distritos da Sé e Santa Ifigênia.
Tudo indica que o processo de assimilação dos estrangeiros e de integração
étnica em geral, aconteceu sem sobressaltos. Alguns vestígios que poderiam denotar
uma tensão entre estrangeiros e nacionais, são exemplos pontuais e datados. Encontrei
algumas correspondências da primeira metade da década de 1930, onde mostra que o
sindicato aparentando preocupação com o número de estrangeiros na fábrica. Como
exemplo, cito carta enviada por Miguel Soria a Antonio Ceciliano Gonzaga, datada de
23 de março de 1935:
Caro companheiro, e preciso dar um pulo aqui porque o corte não e pelo direito. Fica
muito extrangeiro novo no lugar destes Brasileiros (...) tem muito gringo novo em
serviço que não tem X [?] meses na Companhia...
Ao meu ver, no caso de Perus, estes seriam apenas sinais de um tempo
delimitado, nos marcos dos primeiros momentos do governo de Getúlio Vargas e que
não apresentava nenhum contorno de conflito entre estrangeiros e os operários
nacionais. No capítulo seguinte retomo rapidamente essa questão.
Contrariamente à formação dos guetos, a questão que alimentamos é exatamente:
como se dá esse processo de diluição de experiências culturais dentro de um novo
ambiente como o do Brasil naquele período. Apesar de não conhecermos algum
127 HALL, Michael. Op. cit., p. 3.
113
vestígio que indique a existência de qualquer forma de associativismo étnica ou
cultural em Perus, a nossa pesquisa não é capaz de dar nenhuma resposta conclusiva a
questões desse tipo. Mas há algumas considerações a fazer e que nos dão algumas
pistas indicativas.
Primeiramente, as datas que registram a chegada dos estrangeiros ao país indicam
que quando eles foram admitidos na empresa em Perus eles já tinham alguns anos de
permanência no Brasil.
Chegada dos estrangeiros por nacionalidade e por período
1889 – 1910 1911 – 1922 1923 - 1929 1930 - 1947 Total %
Alemanha 01 02 03 - 06 2,1
Argentina 02 03 - - 05 1,7
Austrália - 01 - - 01 0,3
Áustria 01 - - - 01 0,3
Espanha 05 19 14 01 39 13,8
Estônia - - 01 01 0,3
EUA 01 02 01 - 04 1,4
França 01 - - - 01 0,3
Hungria 01 01 05 01 08 2,8
Inglaterra - 03 - - 03 1,0
Irlanda - - - 01 01 0,3
Itália 06 01 06 01 14 4,9
Iugoslávia - - 22 - 22 7,8
Lituânia - - 04 01 05 1,7
Noruega - - 01 - 01 0,3
Polônia - - 03 01 04 1,4
Portugal 10 41 70 18 139 49,1
Romênia - - 23 - 23 8,1
Rússia - - 02 01 03 1,0
Suíça - - 01 - 01 0,3
Tchecoslováquia - - 01 - 01 0,3
Total 29 73 151 24 283 100,0
% 9% 23,7% 53,3% 8,4% 100,0
Podemos perceber que a grande maioria dos trabalhadores (53,3%) que foram
admitidos na Cimento Perus, chegaram ao Brasil em um período de 7 anos, entre 1923
e 1929 (isso dá uma média de ingresso 22 trabalhadores por ano). Em contrapartida,
nos dezoito anos posteriores a 1929, apenas 8,4% ingressaram no Brasil e foram
admitidos na fábrica (média de 1,4 trabalhadores por ano).
114
Com relação à idade de chegada desses estrangeiros apresentamos o seguinte:
Idade de chegada dos imigrantes no Brasil
A partir de um cálculo genérico podemos perceber que a ampla maioria veio
para o Brasil na “flor da idade”, com uma média é de 20 anos, sendo que a idade mais
freqüente é de 18 anos, e ingressam na fábrica de cimento com uma média de idade de
31 anos. Ou seja, esses estrangeiros não vieram de seus países para trabalharem na
fabricação de cimento, mas, em média, eles já tinham onze anos de Brasil quando
chegaram a Perus.
Uma fábrica “portuguesa”, com certeza
Há um outro fato que para mim causou uma certa curiosidade: em várias
entrevistas, espontaneamente, nenhum entrevistado se refere a portugueses. Quando
perguntados, respondem: “ah!, sim, também tinha uns portugueses”. Ora, o que o
quadro abaixo nos informa é que o número de portugueses é praticamente igual ao de
todas as outras nacionalidades somadas.
O percentual de lusitanos, é, aliás, bastante expressivo no grupo de estrangeiros
(49,4%), para que a sua memória se sobressaia menos que a dos outros estrangeiros.
Isso se explicaria pela maior facilidade de integração devido à identidade da língua?
Essa é uma das sugestões de Michael Hall128:
128 HALL, Michael. Op. Cit. p. 18.
FAIXA ETÁRIA DE CHEGADA QUANTIDADE %
De 0 a 14 anos 64 23
De 15 a 30 anos 168 60
De 31 a 45 anos 41 15
Acima de 45 anos 07 2
TOTAL 280 100
115
A língua comum e algumas semelhanças culturais parecem ter tornado os portugueses
praticamente invisíveis aos historiadores.
As entrevistas com trabalhadores parecem indicar que a invisibilidade não se
restringe apenas aos historiadores.
Se compararmos o percentual de portugueses no quadro total de estrangeiros na
fábrica com o percentual de portugueses em São Paulo, veremos que há uma
desproporção razoável. Porém, não dispomos de qualquer elemento para tentar
explicar esse alto índice de lusitanos na fábrica de cimento e suas pedreiras.
Não obstante, os portugueses formavam o segundo contingente de imigrantes
em SP, em 1920 (64.687 pessoas) e em 1940 eram os mais numerosos estrangeiros na
capital (78.949), chegando a ultrapassar os italianos129. Além do mais, a implantação
da fábrica ocorre justamente no período em que a imigração portuguesa começa a se
igualar e, posteriormente, a superar a imigração italiana.
Dos 152 portugueses que trabalharam na fábrica, 55 (cerca de 1/3) seria,
segundo os critérios aqui adotados, trabalhadores qualificados e 86 (57%) de não
qualificados. Entre os considerados qualificados, quase metade (26) foi registrada
como carpinteiro e marceneiro.
Depois dos portugueses o grupo mais expressivo é o de espanhóis, que perfaz
13,6% entre os estrangeiros. Os ibéricos juntos formariam o enorme percentual de
63% entre os estrangeiros.
Os países da região que hoje é chamada de “Leste Europeu”, incluindo-se a
Alemanha e a Áustria, aparece com muita expressividade: são 82 operários, que
representam 26,6% do total de 308 estrangeiros, incluídos aí trabalhadores da
Alemanha, Áustria, Romênia, Iugoslávia, Hungria, Estônia, Lituânia, Polônia, Rússia,
Tchecoslováquia. Os romenos e os iugoslavos são os grupos mais expressivos, com 24
operários (7,8%) de cada nacionalidade. Porém, há que se fazer algumas ponderações
sobre esses registrados de países: o mapa da Europa nesse período do entre-guerras é
129 Idem, p. 18.
116
muito instável e flexível. Michael Hall130 ressalta que a imensa maioria dos imigrantes
húngaros, por exemplo,
veio na década de 1920 dos territórios que a Hungria perdeu à Romênia e à Iugoslávia
após a Primeira Guerra Mundial, portanto, entraram na estatística oficial como súditos
desses dois países.
Já citei um ex-operário que em entrevista falou dos “hugarezes”, mas querendo
se referir aos iugoslavos, romenos, poloneses, etc. É curioso que em Perus até hoje
tenha uma de suas primeiras vilas chamada de “Vila Hungareza”:
Um exemplo da presença maciça de estrangeiros nas décadas iniciais do funcionamento
da fábrica de cimento em Perus, é a mudança da denominação da Vila Margarida que,
pelo fato de morarem nela 'só hungarês, seu nome ficou Vila Hungaresa', segundo
depoimento de D. Zenaide Horvath (63 anos)131.
Entretanto, os trabalhadores que têm como registro de origem a Hungria são em
número de 09, representando apenas 3% do total de estrangeiros. Será que essa
observação do Michael Hall explicaria esse fato?
É curioso que a vila não seja chamada de “Vila húngara”, segundo manda o
padrão da língua portuguesa, mas sim de “hungareza”, cujo termo se aproxima mais da
expressão italiana “ungarese”, que nessa língua significa justamente “húngara”.
Porém, o significativo para mim é o fato dos próprios operários terem se
designado pela nacionalidade registrada nas fichas.
Os italianos, que sempre aparecem citados nas entrevistas e que, para Margarida
Gordinho132, formava um grupo expressivo na fábrica, compunha apenas cerca de 5%
entre os estrangeiros. Talvez o fato dos italianos terem cumprido importante papel na
130 Idem, p.40.
131 Conforme Parecer de Tombamento p. 20.
132 GORDINHO, M. Op.cit.
117
formação da classe operária brasileira, principalmente no final do XIX e início do XX,
além da força da produção da sua memória, talvez isso explique em parte a lembrança
recorrente a eles, quando se fala de estrangeiros em São Paulo. Ademais, os
sobrenomes dos operários que nos sugere filiação italiana não parece ser muito
significativa para justificar essa “confusão”.
Excetuando-se o caso dos portugueses, todas as demais nacionalidades se
expressam em quantidades relativamente pequenas de pessoas em Perus, se
considerarmos que este era um bairro afastado do centro, com uma possibilidade bem
menor de sociabilidade, o que, certamente dificultava qualquer forma de
associativismo por categoria étnica.
A força de trabalho nacional
Vimos como os números revelados pelas fichas da fábrica indicam clara
tendência à ampliação do quadro de trabalhadores nascidos no Brasil com o passar dos
anos. Esses dados não fazem senão confirmar a tendência de nacionalização do
emprego da força de trabalho no Brasil desde a década de 1920.
Esse, digamos, “ambiente” de nacionalização, em parte, é fruto do reordenamento
geopolítico do mundo no período de pós-primeira guerra. Com a ordem
mundial abalada pelas cisões entre as potências capitalistas e pelo ascenso dos
movimentos socialistas e comunistas em grande parte do globo, o liberalismo
econômico resulta como a principal vítima. A crítica ao liberalismo dá origem a uma
miríade diversificada de movimentos políticos econômicos e sociais, até antagônicos,
mas que põem em evidência a questão nacional.
No caso do Brasil essa questão adquire contornos bastante particulares, devido
a extrema dependência da economia ao mercado externo e o processo de
internacionalização maciço da força de trabalho empregada na agricultura e nas
indústrias, principalmente no caso paulista, desde finais do século XIX. Nesse
processo, os proprietários do capital se fartaram em utilizar a força de trabalho
118
estrangeira, que fora aqui introduzida através de um enorme e fantástico mecanismo
capitalista de importação e alocação nas lavouras e fábricas, principalmente paulistas,
onde empresários e Estado se articularam de forma exemplar. Esse mecanismo fora
acompanhado de forte arcabouço ideológico, onde a mão-de-obra estrangeira e branca
era exaltada e laureada, com a imagem colada à idéia de progresso. O racismo
científico deu suporte à facilitação e legitimação desse processo.
Vários fatores concorrem para que esse discurso comece a se modificar
substancialmente, entre os quais, podemos destacar: a crise nesse sistema de
fornecimento de força de trabalho que parece ter apresentado exaustão nas duas pontas
do mercado. De um lado, já não há abundância de força de trabalho sobrante em certas
regiões da Europa que muito já alimentara os cafeicultores brasileiros, como a Itália,
por exemplo. Além da diminuição do fluxo de trabalhadores em decorrência do
conflito mundial iniciado em 1914, houve também o aumento das restrições feitas
pelos governos desses países europeus à exportação desses trabalhadores, devido às
constantes denúncias de maus tratos no ambiente de trabalho no Brasil.
Na outra ponta do mercado, além da manutenção do processo de expansão da
economia cafeeira, sempre faminta por excesso de força de trabalho, já há o
fortalecimento de um certo desencanto dos capitalistas com os valores supostamente
superiores dos trabalhadores europeus, principalmente após as enormes e contundentes
mobilizações operárias que estouraram principalmente no sudeste brasileiro, desde
1917.
Mas à medida que a década de 20 prosseguia – e um número maior de imigrantes assumia
o controle do mercado de trabalho assalariado ou continuava a se envolver em difíceis
negociações com os patrões – aura que envolvia os trabalhadores estrangeiros escurecia e
se desvanecia. Em 1925, uma enquête com fazendeiros de café paulistas descobriu que a
maior parte deles desejava agora empregar mão-de-obra brasileira, e dois anos depois o
programa de imigração européia subsidiada finalmente terminou133.
133 ANDREWS, George Reid: Negros e brancos em São Paulo (1988 – 1998). Bauru, SP, Edusc, 1998.
119
A partir de um certo momento na história da economia paulista, não sem
contradições134, iniciou-se uma reorientação no mecanismo de utilização da força de
trabalho para o próprio mercado interno, ao mesmo tempo em que se acentua a
concentração de capitais e riqueza no sudeste-sul, acelerando-se o processo de
desestruturação de outras regiões do país, como o norte e nordeste135. Da mesma
forma, esse processo econômico vem acompanhado dos apelos ideológicos que
começam a revelar o valor força de trabalho nacional.
Seja como for, em que pese o ainda intenso fluxo de trabalhadores
estrangeiros, principalmente vindos dos países ibéricos e do Japão, o certo é que desde
o início da década de 20, os números começam a demonstrar o crescente incremento
no uso de trabalhadores brasileiros. Em 1927 o governo brasileiro põe fim à política de
subsídio à importação de força de trabalho estrangeira. Já em 1928, pela primeira vez o
número de imigrantes nacionais supera o de estrangeiros.
É nesse contexto que se insere a formação do conjunto de trabalhadores da
Cimento Perus. Esse contexto aparece revelado nas propagandas, quando da instalação
da fábrica de cimento, onde se ressaltam a importância em se romper com a
dependência estrangeira com a importação do produto, mesmo em se tratando de uma
empresa composta majoritariamente por capital estrangeiro.
Não obstante reconhecerem o papel importante dos especialistas estrangeiros,
percebe-se nos argumentos de propagandas da empresa, o recurso à necessidade de
nacionalização do emprego:
A maioria dos operários são brasileiros, porém os trabalhos de responsabilidade estão
entregues a operários extrangeiros com larga prática da fabricação. Com o tempo, porem,
os operários brasileiros ficarão aptos a assumir essa responsabilidade, tornando assim a
Companhia uma organisação inteiramente brasileira136.
134 Odair Cruz PAIVA, em sua tese de doutoramento, FFLCH-USP, 2000, relata algumas das controvérsias que
aparecem na imprensa da década de 30, em relação à lei dos 2/3.
135 Sobre esse processo ver Wilson CANO, op. cit.
136 Revista de Engenharia, op. cit.
120
O grosso do pessoal todavia é brasileiro, e do interesse que esse tem tomado neste novo
ramo de atividade nacional deduz-se que dentro em pouco tempo tornar-se-á
eficientemente habilitado nesta industria. Dentro em breve ter-se-á uma organização
essencialmente nacional que será de grande valor a Companhia e ao País137.
Percebemos que a “nacionalização” propalada não passa, na verdade, de uma
internalização do capital.
O impacto da “Lei dos dois terços” na fábrica
Em 1931 o Governo decreta uma Lei que fica conhecida como “Lei dos dois
terços”, cuja principal característica era a determinação de que todos os empregadores
deveriam manter no seu quadro de pessoal uma proporção de brasileiros natos nunca
inferior a dois terços. Em 1939 a lei é modificada, ocorrendo um “relaxamento” que
salvaguardava os interesses daquelas empresas dos setores que demonstravam a
necessidade de utilização de força de trabalho qualificada, cabendo a decisão, ao
Ministério do Trabalho.
Com as informações que disponho, não tenho condições de fazer qualquer
afirmação segura sobre o percentual de estrangeiros na fábrica na década de 30, senão
aquilo que as amostras nos permitem.
Até 1930 o percentual de estrangeiros admitidos na fábrica foi de 36,4% . Até
então não aparece registro de demitidos.
Entre 1931 e 1934 foram admitidos 517 operários e demitidos 159. Temos um
saldo positivo de 358 operários nesses 4 anos. Nesse mesmo período, foram admitidos
176 e demitidos 62 estrangeiros, formando um saldo positivo de 114 estrangeiros. Do
saldo de trabalhadores incorporados à fábrica, temos que 32% correspondiam a
trabalhadores estrangeiros.
Talvez, o que podemos concluir, é que, além de haver um tendencial aumento
no percentual de brasileiros com o passar dos anos, há indícios de que a fábrica
137 Correio Paulistano de 25.06.1926.
121
buscava se adequar à lei dos 2/3, mas com dificuldades. Se considerarmos que até
1930 havia um percentual de trabalhadores estrangeiros superior a um terço (talvez os
36,4% registrados na admissão até 1930), mantendo-se o saldo de admissão de
estrangeiros próximo a esse 1/3 até 1934, essa pequena taxa acima do estipulado na lei
tenderia a permanecer por mais tempo.
Em um documento produzido pelo sindicato dos trabalhadores e enviado ao
DET em 27 de março de 1935, a empresa CBCPP é denunciada por desrespeitar a
chama Lei de Nacionalização:
Segunda cláusula ao que se refere o artigo 7º que diz, quando por falta de trabalho,
qualquer Estabelecimento, ou Empreza, houver de reduzir o número de seus empregados,
operarios ou trabalhadores, a dispensa dos Extrangeiros, deverá preceder sempre a dos
Brasileiros natos na mesma categoria. A Companhia está sendo também infratora neste
artigo pelo seguinte. Haverá uma dispensa de operarios até o fim do mez, em duas
secções: Secção de Construcção e Secção de Pedreiros...
Reparem que o Sindicato leva a Lei de Nacionalização à sua máxima
radicalidade, tornando-a válida não apenas no âmbito da empresa, mas até nos setores
desta. Porém, o contato que tive com a documentação do sindicato, leva-me a supor
que se trata de uma artimanha utilizada pelo sindicato para lutar contra as demissões.
Qual a origem dessa força de trabalho nacional
Entre 1920 e 1929, cerca de 226 mil trabalhadores nacionais migraram para São
Paulo. Este contingente era composto, principalmente de mineiros e nordestinos138. Se
ampliarmos o período, teremos o impressionante número de 714.994 migrantes
internos para a capital de São Paulo, entre 1900 e 1940139. Só para avaliarmos a
enormidade que isso representa, em 1920, as cinco maiores cidades do país, excluindose
o Rio e São Paulo, contavam com as seguintes populações:
138 CANO, Wilson, op. cit. p. 61.
139 BERLINCK & HOGAN, op. cit., p. 12.
122
Populações de grandes cidades brasileiras em 1920
CIDADE Número de habitantes
Salvador 283.422
Recife 238.843
Belém 236.402
Porto Alegre 179.263
Curitiba 78.980
Fonte: Censo de 1920
Ou seja, em 40 anos, migrou para a capital paulista quase a quantidade das três
maiores cidades do país, depois do Rio de Janeiro e São Paulo.
Entretanto, no nosso caso em estudo o que vemos é que 70,4% dos
trabalhadores da Perus tem sua origem registrada no Estado de São Paulo, conforme
podemos constatar no quadro abaixo:
Ingresso de trabalhadores por Estado de origem
Estado (sigla) Quantidade %
AL 10 ,8
BA 28 2,4
ES 01 0,1
GO 01 0,1
MA 01 0,1
MG 223 18,7
MT 01 0,1
PA 01 0,1
PB 05 0,4
PE 16 1,3
PI 01 0,1
PR 04 0,3
RJ 42 3,5
RN 01 0,1
RS 02 0,2
SC 01 0,1
SE 02 0,2
SP 839 70,4
Total 1.191 100,0
Esses dados se aproximam daqueles expostos em tabela do texto citado de
Berlinck e Hogan140 que mostram que entre 1900 e 1944, a corrente migratória interna
que aflui para o município de São Paulo é formada, em sua ampla maioria (em torno
140 Idem, Ibdem, p. 28.
123
de 70%) de pessoas nascidas no Estado de São Paulo. Se aproximam também dos
dados extraídos do levantamento feito por Andrews141 em duas importantes fábricas da
capital, entre 1931 e 1950, que mostram que entre 60 e 80% dos trabalhadores da
Companhia Jafet e São Paulo Light tem origem no Estado de São Paulo.
Podemos ver que se somarmos o número de trabalhadores paulistas com aqueles
oriundos do Estado de Minas Gerais, formaremos a esmagadora maioria no da força de
trabalho da fábrica: 89,1%. Se somarmos a esse dado os números do Rio de Janeiro,
teremos o índice de 92,6%. Ao que tudo indica, portanto, não obstante o contexto, a
Cimento Perus não foi receptora direta da imigração nordestina. O trabalho de
Berlinck & Hogan, mostra que o fluxo de mineiros e nordestinos se intensifica a partir
da década de 1950.
Dos estados que hoje formam a região nordeste do Brasil, apenas 64
trabalhadores aparecem registrados, correspondendo ao percentual de apenas 7% do
total de nacionais, ou 4% do total de trabalhadores da fábrica. Das demais regiões os
números são inexpressíveis.
Ou seja, se do ponto de vista da composição da força de trabalho, entre os
estrangeiros, podemos dizer tratar-se a Cimento Perus de uma fábrica lusitana, com
muito mais razão diríamos tratar-se de uma empresa paulista.
Tabela de origem dos trabalhadores paulistas
O quadro nos mostra que apenas 10 cidades do estado de São Paulo são
responsáveis pelo fornecimento de cerca de 62% da força de trabalho da CBCPP.
141 Geroge R. Andrews, op. cit., p. 161.
CIDADE/REGIÃO QUANTIDADE %
Jundiaí 135 16,0
São Paulo 114 13,6
Parnaíba (73), Pirapora (13) 86 10,2
Campinas (20), Atibaia (58), Bragança (49), Itatiba 185 22
Outros 321 38,2
TOTAL 841 100,0
124
Jundiaí aparece como a cidade de origem do maior número de trabalhadores.
Certamente que a relativa proximidade do município e a ligação da ferrovia Santos-
Jundiaí, que passa por Perus, explicam boa parte dessa grande incidência de
jundiaienses na cimento Perus. O curioso é que essa cidade apareça à frente de São
Paulo, que, além de ligada a Perus pela mesma ferrovia, este, ainda que distante, é um
bairro pertencente à capital paulista. Por isso devem ser considerados outros fatores
que expliquem a circunstancial disponibilidade de força de trabalho.
Oitenta e seis trabalhadores declararam origem em [Santana de]Parnaíba (73) e
Pirapora (13). Lembremos que as pedreiras se localizavam em Água Fria, que
pertencia, à época, ao município de Santana do Parnaíba. Já Pirapora é vizinha desse
município.
Porém, o que mais chamou a minha atenção foi a concentração de trabalhadores
de algumas cidades da região noroeste do Estado, localizadas entre Campinas e
Bragança, que, juntas somam 185 trabalhadores paulistas (22%).
Por certo que não podemos afirmar que todos esses trabalhadores tenham vindo
diretamente de suas regiões para trabalhar na fábrica de cimento. Igualmente aos
estrangeiros, esses trabalhadores podem ter transitado por outras regiões em busca de
emprego, antes de ir para a Perus.
Escapa ao alcance e objetivos deste trabalho a tentativa de explicar o porquê do
predomínio de trabalhadores dessa região paulista. Os dados estão aí expostos para
incentivar mais pesquisas sobre o assunto. No entanto, poderíamos supor que esse
fenômeno fosse reflexo da crise no setor cafeeiro, em finais da década de 1920, que
liberara força de trabalho devido a redução da produção. De fato, sabemos que essa
“região central”142 do Estado de São Paulo foi das regiões mais importantes a abrigar o
cultivo do café, sendo o final do século XIX, a sua época áurea. Nas décadas de 20 e
30 do século XX, a “rota do café” já se expandira para o oeste paulista, sendo que, essa
142 Conforme divisão de regiões apresentada por Sérgio MILLIET em Roteiro do café e outros ensaios, São
Paulo, Hucitec, 1982, essa “região central” compreenderia cidades como Campinas, Jundiaí, Atibaia, Bragança,
Itatiba, entre outras.
125
região permanece importante na produção absoluta de café, mas perdendo peso
relativo.
Entretanto, Sérgio Milliet sugere que a crise na cafeicultura não foi desastrosa
nessa região central, mas que houve apenas um “simples arrefecimento do progresso”.
Segundo o autor, isso se deveu à “qualidade superior das terras e as facilidades
extraordinárias de comunicação” dessa região. Milliet lembra que a economia nessa
região era muito dinâmica e que cidades como Campinas e Jundiaí figuravam entre as
cinco com maior número de empresas e de trabalhadores.
Poderíamos supor, portanto, ter havido uma migração de trabalhadores da
lavoura para as fábricas dessa mesma região, principalmente para aquelas que, como a
fábrica de cimento, experimentara franco desenvolvimento.
Um mapa de São Paulo que aparece na obra citada de Milliet143, mostra que
havia uma malha ferroviária que interligava as várias cidades dessa “região central” à
cidade de São Paulo. Havia, portanto, uma possibilidade de fluxo de pessoas entre São
Paulo e a região de Campinas e Bragança Paulista, o que, sem sombra de dúvidas,
facilita muito a mobilidade e integração dessa região.
Em resumo, se traçarmos uma linha um pouco sinuosa entre São Paulo e
Bragança Paulista, teremos um total de 61,8% da força de trabalho paulista proveniente
dessa região. Os outros 38,2% distribuem-se entre as quase duzentas localidades
registradas nas fichas.
Negros e Brancos em Perus
Entre todos os itens a serem destacados nesta dissertação, nenhum contém o
grau de complexidade como este, mesmo que os propósitos sejam o de quantificar e
agrupar. É relativamente fácil mapear os estrangeiros, as faixas etárias, nível escolar,
etc. Difícil é distinguir o que é ser negro no Brasil. Um país miscigenado desde um
longo período histórico e que cultivou um preconceito racial que não chegou a eclodir
143 MILLIET, Sérgio op. cit., p. 45.
126
e tornar-se publica e amplamente explícito, não inscreveu-se nas leis, mas que
permaneceu velado, e mesmo fundido, com outro grave problema de igual tamanho
que é a desigualdade social. Como historicamente a grande maioria do povo brasileiro
viveu (e vive) excluída da enorme riqueza produzida na nação, e nessa massa se
misturam brancos, negros e “mulatos” (mas, principalmente as duas últimas
categorias), fica difícil divisar claramente as conseqüências provenientes do aspecto
econômico ou racial.
De qualquer forma, entre as dificuldades de se trabalhar com o tema e os
prejuízos decorrentes do seu ocultamento, preferi correr o risco de optar pelo primeiro.
Por um lado, as fichas facilitam e me proporcionam a oportunidade de discussão, pois
trazem uma foto 3 x 4 do trabalhador; por outro, nela não consta um campo que defina
a “raça”, e assim, essa responsabilidade é remetida ao pesquisador, que terá que julgar
a questão pela simples observação de uma pequena e amarelada imagem de rosto. Se já
é difícil fazer essa distinção mediante presença física das pessoas, imaginemos através
de uma pequena e congelada imagem distanciada de 60 a 70 anos.
Todos os pesquisadores que se deparam com essa questão acabam encontrando
as mesmas dificuldades. Eles se colocam diante de decisões prévias para iniciar as suas
análises. A impressão que tenho é de que qualquer escolha que se faça, enfrentar-se-á
problemas cujas respostas jamais serão objetivas.
No meu caso, eu optei por uma solução mais cômoda e sumária: classifiquei
como “negro” aqueles que aparecem na imagem nitidamente com a cor da pele preta.
Classifiquei como “branco” aqueles que apresentavam a cor da pele branca. Enquadrei
numa imprecisa categoria intermediária, “mulatos”144, aqueles que eu tinha
dificuldades de definição.
144 O termo “mulato” não apenas é impreciso para definição de “cor”, mas também traz uma nítida carga
pejorativa e depreciativa. Para aliviar um pouco o meu incômodo, o termo aparecerá sempre entre aspas. Utilizoo
simplesmente para usar o mesmo padrão de outros autores citados.
127
Sem dúvidas que os riscos de erro recaem mais sobre esse último grupo. Assim,
o maior problema que se coloca para as minhas análises é o da possibilidade de ligeira
subestimação do universo daqueles que poderiam ser considerados como negros. Ou
seja, trabalharei com dados que me deixam mais seguro, pois, dificilmente teríamos
argumentos para não considerar como negros aqueles que têm a com da pele
nitidamente preta. Tenho plena consciência, no entanto, de que essa questão étnica ou
de “raça” não se resume à definição da cor da pele. No entanto, sinto-me à vontade
dentro dessa opção, pois a questão do negro será abordada dentro dos limites deste
trabalho, ou seja, como um item, entre outros, visto de forma panorâmica. De qualquer
forma, fico com a certeza de que os dados e as análises aqui apresentadas servirão para
compor um debate que não apenas está aberto, mas, ainda muito carente de
informações empíricas.
O que podemos extrair e analisar das fotos dos operários? Certamente que a foto
é algo muito fixo para que possamos alimentar debates candentes sobre o negro no
Brasil. Entretanto, ao relacionarmos as características físicas, perceptíveis através da
imagem, com outras informações extraídas das fichas, como função, tempo de
permanência na fábrica, dentre outras, aí sim, poderemos municiar os pesquisadores de
mais dados para refletirem sobre a importante questão da inserção do negro no
mercado de trabalho.
O período histórico em estudo abarca uma geração de trabalhadores que ainda
respirava o pesado ar de uma sociedade então recém saída da escravidão. Os cálculos
simples nos mostram essa proximidade temporal flagrante de uma geração de
trabalhadores explorados pelo regime do assalariamento, com uma outra geração de
trabalhadores juridicamente escravizados: os 17,6% dos negros que aparecem no
levantamento, nasceram entre os anos de 1873 e 1929. Metade desse percentual nasceu
até o ano de 1910. Isso quer dizer que as mães desses trabalhadores, muito
provavelmente viveram numa época em que vigia a escravidão legal. Havia, portanto,
uma possibilidade razoável de que parte daqueles trabalhadores negros e mulatos tenha
habitado o útero de uma escrava, apesar dele como feto já ser legalmente uma pessoa
128
livre145. O Sr. João Henrique, nascido em Maceió-AL, tem seu nascimento registrado
no ano de 1873. Ainda que ele ou sua mãe não tenham sido escravos – afinal, ser negro
não significava, necessariamente, ser escravo naqueles tempos146 - eles viveram
durante 15 anos num país onde vigorava o regime escravista. Pois bem, esse Sr.
Henrique ingressou na fábrica de cimento aos 56 anos de idade, no ano de 1929,
registrado como servente de pedreiro.
Como o registro de nascimento mais recente, entre os operários é de 1929,
podemos afirmar que todos trabalhadores negros são netos, senão filhos, de mulheres
que viveram no período da escravidão. Este é o caso do Sr. Augusto, nascido em
Atibaia, em 1915, cuja avó foi escrava:
Eu trabalhei no sítio onde minha avó foi escrava... Meu pai não foi escravo e a
servidão que diz que terminou em 1888, mas... terminou uma e começou outra,
né?147
Brancos, negros e mulatos: avaliação geral.
Das 1498 fichas pesquisadas, 333 são de um modelo anterior que não possuía
foto. Portanto, o universo a ser trabalhado nesse item resume-se a 1.166 fichas. Desse
total, segundo o critério de classificação acima exposto, chegamos a esse primeiro
dado geral:
Quadro geral sobre “Cor” na CBCPP
APARÊNCIA FREQÜÊNCIA PERCENTUAL
Branco 813 69,7
Negro 205 17,6
“Mulatos” 148 9,9
TOTAL 1.166 100,0
145 Em 1871 entra em vigor a chamada “Lei do Ventre Livre”, proposta pelo Visconde de Rio Branco.
146 O Censo de 1872 informa que havia em São Paulo 207.845 negros e mulatos livres e 156.612 negros e mulatos
escravos, conforme ANDREWS, op.cit. p. 120.
147 Entrevista concedida ao DPH em 16/08/1931.
129
Esses dados mostram um índice de trabalhadores negros bem acima do
percentual de 5,3% constatado pelo Censo de 1940, do município de São Paulo. Além
de desconfiarmos dos métodos de pesquisas do Censo que chegam a esse número,
esses dados da fábrica podem revelar parcialmente o processo de absorção dos negros
no mercado de trabalho industrial em São Paulo, em consonância com a crescente
incorporação da força de trabalho nacional, como visto acima.
Já segundo a pesquisa apresentada na década de 1930 por Samuel Lowrie148,
27% dos moradores dos bairros proletários de São Paulo são negros e mulatos, número
muito próximo àquele que cheguei em minha pesquisa: 27,5%.
De fato, durante décadas o negro esteve alijado do mercado de trabalho em São
Paulo, como resultado da importação maciça e subsidiada de trabalhadores
estrangeiros e brancos, desde antes da abolição. Destituídos de qualquer possibilidade
de negociação de novas condições de trabalho, devido ao incremento espantoso da
força de trabalho importada e, além do mais, vítimas de um racismo implacável - ainda
que não totalmente explícito - que buscava um idealizado branqueamento da raça, os
negros não tiveram chances de concorrer eqüitativamente com os trabalhadores
estrangeiros que aqui chegaram desde fins do século passado.
Isso explica o porquê, nas estatísticas do trabalho, nas primeiras décadas do
século XX, os negros não aparecem, senão em índices reduzidos. E mesmo quando
aparecem, estão representando setores menos qualificados do trabalho.
A exclusão dos trabalhadores negros do emprego industrial não era absoluta, pois se
encontra menção ocasional a trabalhadores fabris nas colunas sociais da imprensa negra,
assim como nos registros de emprego. Mas estas oportunidades eram claramente
limitadas, e a grande maioria dos negros era obrigada a realizar serviços domésticos ou
ter empregos irregulares e mal pagos...149
148 LOWRIE, Samuel H., O elemento negro na população de São Paulo, in: Revista do Arquivo Municipal. São
Paulo, Departamento de Cultura, 1938, n° 48, pp. 5-56.
149 ANDREWS, George, op. cit. p. 114.
130
Segundo Andrews, só a partir da década de 1920, quando a imigração
estrangeira entra em declínio e passa a crescer a migração interna, é que os negros
começam a ser absorvidos em contingentes consideráveis nas fábricas paulistas.
Portanto, os dados da fábrica de cimento não chegam a ser surpreendentes, mas
o percentual de negros aí aparece como bem superior àqueles encontrados por
Andrews150 nas empresas paulistas por ele pesquisadas.
Esse autor detectou a incidência de cerca de 21% de negros na São Paulo Light
e de 7,6% a 13% na Companhia têxtil Jafet, entre os anos de 1921 e 1950.
Por outro lado, em uma subsidiária da Light, a (COBAST), que atuava no setor
da construção civil e que, portanto, operava com pessoal menos qualificado, os índices
de negros são bem maiores, chegando a variar entre 42,3% e 28% dos trabalhadores,
no mesmo período.
Ocorre que, nesses índices estão também incluídos aqueles considerados
“pardos” e “morenos”. Ou seja, se eu utilizar desses mesmos critérios, agregando os
“mulatos”, o índice de negros da fábrica de cimento chegaria a 27,5%. Aliás, nessa
pesquisa do historiador brasilianista, o “morenos” e “pardos” aparecem em maior
número do que os negros.
Os resultados a que cheguei na fábrica de cimento me parecem razoáveis
quando aponta a categoria de “mulatos” bem inferior à dos negros, contrariamente ao
resultado apontado por Andrews. Com o amplo predomínio dos brancos e o recente
ingresso dos negros nesse ambiente de trabalho, até a década de 1940, seriam bem
menores as possibilidades de miscigenação. Creio que a possibilidade de miscigenação
abrangente só ocorrerá em décadas posteriores, a partir de 1950, com o incremento
inusitado da força de trabalho nacional no mercado de trabalho paulista.
150 Idem, Ibdem, p.159.
131
De onde vieram esses negros
Basicamente três estados juntos têm representação maciça dos negros da fábrica
de cimento: São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, que formam o total percentual
de 94%. Nada de surpreendente até aí, pois esse número reflete praticamente o mesmo
percentual dos três estados juntos quando avaliamos os dados dos estados de origem
do total da força de trabalho, que, como vimos acima, respondem por cerca de 93%
dos trabalhadores da fábrica.
Os números variam, no entanto, quando observamos esse percentual por estado.
Já mostramos acima que o percentual de negros no conjunto de trabalhadores da
cimento Perus, representa 17,6% da força de trabalho. O número de negros entre os
paulistas (112) representa no total de paulistas na fábrica (841), o percentual de 13,3%.
Isso que dizer que São Paulo tem representação menor que a média de negros do total
geral. Já os negros mineiros (66) representam 29,5% do total de mineiros que
aparecem no geral das fichas. Isso mostra que o percentual de negros entre os mineiros
é bastante superior à média geral de negros. No estado do Rio de Janeiro, o total de
negros (15) em relação ao conjunto dos cariocas (42) representa 35,7%, ou seja, mais
de um terço da população pesquisada. A representação negra do Rio de Janeiro é o
dobro do percentual de negros da fábrica.
Grau de instrução
Os dados que temos a partir das fichas, a respeito do grau de instrução dos
trabalhadores nesse período são muito limitados, não nos permitindo fazer qualquer
análise mais rica e abrangente.
As fichas pesquisadas apenas destacam aqueles operários que são considerados
(ou se consideram) como analfabetos. Entendemos que isso queira dizer que, no
momento do ingresso na fábrica, eles não sabiam nem ler e sequer assinar os seus
132
nomes. Nesse sentido temos que, entre as 1498 fichas pesquisadas, 204 delas indicam
os operários como analfabetos. Isso perfaz o percentual de 13,6% do total.
Esse índice é menor do que o índice apresentado pelo Censo geral de 1940, que
aponta o percentual de 19,6% de pessoas que “não sabem ler e escrever” no município
de São Paulo. São universos diferenciados, é certo. Os trabalhadores da fábrica são um
grupo mais seleto do que o abrangente público avaliado pelo Censo.
Esses índices encontrados também estão bem abaixo daqueles citados por
Decca Guzzo, referindo-se ao Estado de São Paulo:
Neste ano teria sido identificados 102.654 operários no Estado de São Paulo (...) 68,8%
saberiam ler e escrever, 31,2% eram analfabetos151.
Maria Auxiliadora Guzzo considerava que o índice de alfabetização, portanto,
não era baixo. Fornecendo um panorama educacional da época, ela afirma:
No final da década de 20 e início de 30, já se encontra um aparelhamento em relação à
instrução por parte do Estado. Em relação ao estado, instrução e classe operária, importa
avaliar primeiramente o ensino primário (o ensino secundário era reservado basicamente
à classe média, sendo no período ainda restrito e apresentando um caráter notadamente
elitista).
A maioria das crianças que freqüentavam os grupos escolares estaduais (primários) na
capital eram filhas de trabalhadores industriais e assalariados urbanos em geral152.
O analfabetismo, apesar de representar um limite significativo, não anula a
carga cultural que o indivíduo adquire ao longo de sua vida. Além do mais, há que se
fazer ponderações ao olhar de um “espectador” que mira o passado a partir de uma
sociedade atual tão distinta daquela pesquisada. O analfabetismo na língua, no meio
urbano, nos dias atuais, é algo que tem reflexos intensos e abrangentes na vida de
151 DECCA, Maria Auxiliadora Guzzo, A vida fora das fábricas: cotidiano operário em São Paulo (1920/1934).
Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1987, p. 43.
152 Idem, p. 43.
133
qualquer cidadão. Vivemos hoje numa sociedade onde a escrita, os símbolos e as
imagens ocupam papel determinante na vida de quem vive no meio urbano. Aliás, o
próprio conceito de analfabetismo se modifica e se amplia nos nossos tempos.
O fato do cidadão não saber ler e escrever naquele ambiente que aparece
ligeiramente delineado em nossa pesquisa, certamente que causava uma limitação bem
menor ao indivíduo na sua labuta pela reprodução social. Ainda mais em um espaço
social culturalmente limitado como era a simplória Perus-Água Fria àquela época.
É evidente que a pouca cultura formal e o analfabetismo, quando contrastados
com a formação letrada da elite, denunciam o verdadeiro apartheid cultural naquela
sociedade de classes, que já vinha há décadas “respirando” a ideologia liberal
republicana. Os dados oficiais153 não escondem o fato de ser mesmo o ensino básico,
privilégio de muito poucos:
Pelo levantamento estatístico de 1937, o ensino primário era dado a um número de crianças
igual a 6,63% da população do país154.
Só para se ter uma idéia, à mesma época, essa fonte informava que esse índice
era de 12,5% na Argentina e 9,7% no Chile. Informava ainda que, em 1932, com
relação ao ensino secundário possuíamos um aluno para cada grupo de 783 habitantes;
em 1940, segundo essa fonte oficial, esse número baixara: um aluno para cada 350
habitantes. Os dados otimistas da fonte oficial falavam em cerca de 300 mil
adolescentes freqüentando escolas em todo país, “computando as inscrições de ensino
secundário, normal, doméstico e técnico-profissional”. No Brasil inteiro, no ano de
1937, havia 25.441 estudantes no ensino superior. Lembremos que a estimativa
populacional do Brasil para o ano de 1938 era de 41.115.825 pessoas. Ou seja, essas
153 Todos os dados oficiais sobre a educação apresentados neste tópico, foram retirados de uma publicação do
Ministério das Relações Exteriores, do ano de 1941, intitulada Brasil, 1940 – 41, relação das condições
geográficas, econômicas e sociais. Pela fonte oficial e pelo período, não obstante os dados trágicos da situação
social relatada, podemos imaginar serem, ainda assim, dados otimistas de um governo que tenta mostrar os
avanços promovidos pela “Revolução” em poucos anos.
154 MINISTÉRIO DAS RELAÇÕES EXTERIORES (M.R.E.), op. cit. Doravante essa publicação será citada
apenas pela sua sigla “MRE”.
134
cifras informam índices populacionais muitos próximos a zero por cento em vida
escolar secundária e superior.
A questão da educação pública preocupava os trabalhadores da região de Perus,
como podemos perceber através de algumas correspondências enviadas pelo sindicato
dos trabalhadores solicitando o apoio dos órgãos oficiais. Em 04 de setembro de 1933,
a direção do sindicato faz um requerimento ao Diretor da Instrução Pública no Estado
de São Paulo, Dr. Francisco Azzi, solicitando ajuda para implantar cursos “além do 2º
ano até o 4º ano primário”. O sindicato ofereceria o prédio e o imobiliário, enquanto a
instituição pública entraria com o professor e o material didático. Pelo que pudemos
perceber na documentação, em Água Fria existiam duas escolas e, ao que parece, só
oferecia curso até o 2º ano.
Sob esse panorama educacional na década de 1930 é possível entender como, de
fato, chega a ser surpreendente o número de alfabetizados entre os operários
brasileiros. Certamente, muitos esforços individuais e coletivos, na esfera privada,
eram feitos para superar as dificuldades e debilidades no que diz respeito à educação
formal. Numa situação de escassez enorme de equipamentos públicos educacionais,
muitos trabalhadores aprenderam a ler no ambiente familiar e na comunidade.
Em Perus, a primeira escola foi inaugurada em 1932 (21)
135
Grau de instrução entre estrangeiros e nacionais
A distribuição do analfabetismo entre nacionais e estrangeiros aparece assim:
Índice de analfabetismo entre nacionais e estrangeiros
FREQÜÊNCIA %
Nacionais 167 81,9
Estrangeiros 37 18,1
TOTAL 204 100,0
Estes índices se aproximam da proporção de incidência entre estrangeiros e
nacionais do total de operários. Segundo os dados já expostos acima, os estrangeiros
perfazem 20,5% dos trabalhadores da fábrica, no entanto, o índice de analfabetismo é
de 18,1%. Os nacionais representam 79,5% do total de operários, mas seu índice de
analfabetismo é de 81,9%. Assim, os índices indicam uma taxa de analfabetismo
ligeiramente menor entre os estrangeiros em relação aos nacionais.
A esse respeito, o Boletim do DET do primeiro trimestre de 1932, traz um texto
assinado por Fernando College, onde o autor faz um “confronto oportuno entre a
instrução dos imigrantes estrangeiros e a do colono brasileiro”, a partir de
levantamento feito com trabalhadores imigrantes de São Paulo. Apresentando tabelas
comparativas, College se mostra muito surpreso com os resultados que apontam que os
imigrantes brasileiros não apresentam os piores índices de analfabetismo:
Geralmente cometemos um grande erro quando afirmamos que pertencemos a uma terra
de completo analfabetismo.
(...) Se vamos cotejar essa nossa inferioridade, o nosso “analfabetismo” em confronto
com os outros povos de menos extensão territorial, mais vias de comunicação e com
ensino obrigatório que data de muitíssimos anos, não é ele tão grande como possa
parecer155.
155 Boletim do Departamento Estadual do Trabalho, 1° trimestre de 1932.
136
Percentual de imigrantes alfabetizados
1930 (%) 1931 (%) 1908 – 1931 (%)
Alemães 92,7 82,0 86,9
Brasileiros 76,0 78,6 78,2
Espanhóis 74,7 - 27,1
Húngaros 93,0 - 79,7
Italianos 86,4 77,9 58,2
Portugueses 55,5 68,0 41,2
Fonte: Boletim do DET de 1932
Essa relativa proximidade dos dados entre nacionais e estrangeiros servem de
argumento para a critica ao mito de que o trabalhador estrangeiro seria dotado de
qualidades culturais superiores aos nacionais. Sobre isso Andrews levanta a questão:
Assim, parece que os imigrantes ofereciam a seus patrões um índice mais elevado de
instrução do que poderiam oferecer os brasileiros(...). Mas será que uma maior instrução
necessariamente traduz um melhor desempenho no trabalho e uma produtividade mais
elevada? Para os membros de uma sociedade e economia do fim do século XX, a resposta
é óbvia: é claro que os trabalhadores mais instruídos são mais produtivos que os
trabalhadores não instruídos. Mas nas fábricas e nas fazendas de São Paulo na virada do
século, as habilidades no trabalho não giravam necessariamente em torno da instrução. E
não é de modo algum óbvio que os imigrantes possuíssem claras vantagens nessas
habilidades relacionadas ao trabalho.156
Michel Hall, apoiado-se nos dados do censo de 1920, põe sob suspeita o nível
de preparação dos estrangeiros para a sociedade industrial:
Os argumentos que atribuem o crescimento industrial de São Paulo, pelo menos em parte,
à “elevação do nível de estoque de capital humano” trazida pela imigração não
apresentam dados muitos dados convincentes. Ninguém no começo do século estava
especialmente impressionado com o nível de experiência industrial dos imigrantes, o que
não surpreende no caso de uma imigração estimulada com o objetivo de fornecer braços
156 ANDREWS, G., op. cit. p. 122.
137
para a agricultura. Os poucos dados disponíveis levantam dúvidas em relação ao suposto
nível de preparação para a sociedade industrial.157
A maioria daqueles que vieram para a capital [São Paulo] parecia não ter nenhuma
experiência industrial ou urbana anterior. Embora alguns artesãos e outros trabalhadores
sem dúvidas tivessem ido para São Paulo, essa imigração não foi estimulada, e parece
bem evidente que a esmagadora maioria da força de trabalho era composta de homens e
mulheres das áreas rurais e do sul da Europa.158
Em relação aos países de origem dos trabalhadores, o único fato notável é que,
dos 37 analfabetos, 30 são portugueses, de um universo de 122 lusitanos; outros 4 são
espanhóis (entre 38). Os demais são: 01 iugoslavo, 01 romeno e 01 argentino.
Observando a distribuição dos analfabetos pelos estados brasileiros de origem,
temos o seguinte:
Analfabetismo entre os operários por Estado de origem
ESTADOS FREQÜÊNCIA %
São Paulo 132 79,0
Minas Gerais 23 13,8
Rio de Janeiro 4 2,4
Outros 8 4,8
TOTAL 167 100,0
Podemos ver que, não obstante os trabalhadores originários do estado de São
Paulo representarem 70,4% do total de trabalhadores entre os estados brasileiros, 79%
dos analfabetos vêm desse estado. Em contrapartida, os mineiros, que perfazem 18,7%
do total de contingente de trabalhadores nacionais, apresentam índice de 13,8% de
analfabetos. Os cariocas apresentam um índice ligeiramente inferior.
Não há uma explicação plausível para justificar essa taxa um pouco maior de
analfabetismo entre os paulistas e relativamente menor entre os mineiros, pois ela não
157 HALL, Michael, op. cit. p. 43.
158 HALL, Michael , in Andrews, op. cit. p. 123.
138
corresponde à realidade de instrução nos dois Estados. Segundo o Censo do IBGE159
de 1940, 40% da população do Estado de São Paulo era considerada analfabeta, contra
55,8% dos mineiros. Enquanto o Estado de São Paulo possuía 7.038 escolas de ensino
primário em 1941, o Estado de Minas Gerais contava com apenas 4.942 escolas
primárias160, sendo que a população daquele era apenas pouco superior à deste.
Os analfabetos trabalham, em sua maioria, nas pedreiras. Os números indicaram
que, entre os 208 analfabetos, 50,0% eram trabalhadores que moravam em Água Fria,
enquanto que 44,6% morariam em Perus e, portanto, trabalhariam na fábrica. Vemos,
no entanto, que, em termos absolutos, a diferença não é tão grande. Porém, se
ponderarmos que os trabalhadores nas pedreiras representam 35,5% do total,
perceberemos que o índice de analfabetismo ali é relativamente bem superior ao do
ambiente da fábrica.
A grande maioria dos operários (76,5%) que aparecem como analfabetos, têm
idade entre 18 e 35 anos, acompanhando os mesmos índices de admissão dessa faixa
etária, que é de 79,7%.
Vejamos agora o fenômeno do analfabetismo e sua distribuição entre brancos,
negros e “mulatos”.
Analfabetismo versus “Cor”
ANALFABETOS %
Brancos 118 57,9
“Mulatos” 30 14,7
Negros 47 23,0
Sem indicação de “cor” 09 4,4
TOTAL 204 100,0
159 IBGE – Recenseamento Geral do Brasil, 1° de setembro de 1940, Série Nacional, vol. II, p. 71, Rio de
Janeiro, 1950.
160 Conforme a publicação do Ministério das Relações Exteriores, Brasil, 1942: Recursos e possibilidades, Rio de
Janeiro, 1943.
139
O total de “brancos” identificados pelas fotos forma 69,7% dos trabalhadores e
tem o percentual de analfabetismo de 57,9%. Os “mulatos” formam 12,7% dos
trabalhadores e têm o percentual de 14,7% de analfabetismo. Já os negros, que
representam 17,6% dos trabalhadores, apresentam índice de analfabetismo de 23,0%.
Esses números indicam, portanto, um índice de analfabetismo menor entre os
brancos e maior entre os negros. Para visualizarmos melhor essas diferenças podemos
determinar uma “taxa de analfabetismo”, obtida pela razão entre o número de
analfabetos (204) e o número total de fichas com fotos (1166), obteremos, assim, o
índice de 17,5%. Se dividirmos o número de analfabetos dentro desses três grupos (B
= 118/813), (M = 30/148) e (N = 47/205), teremos:
Taxa média de analfabetos
Total 17,5%
Entre os brancos 14,5%
Entre os “mulatos” 20,3%
Entre os negros 22,9%
Para Andrews esse problema não pode ser debitado apenas à herança da
escravidão:
Como sugere a tese de [Florestan] Fernandes, o analfabetismo dos negros era na verdade
um problema que tinha suas raízes na experiência recente da escravidão. Poucos senhores
viam qualquer vantagem em investir na educação de seus escravos(...). Entretanto, o
problema exacerbou-se mais ainda após a abolição, devido às políticas educacionais da
República. A Constituição de 1891 partiu da Constituição de 1824, isentando o governo
federal da obrigação de patrocinar a educação pública, e ao mesmo tempo, privando de
direitos os analfabetos.
O analfabetismo incide principalmente sobre os trabalhadores não qualificados,
sobre os quais falaremos adiante. Os números indicam que, apesar dos trabalhadores
140
qualificados e semi-qualificados representarem 33,8% dos trabalhadores da fábrica,
apenas 10,8% entre eles aparecem como analfabetos. Há um caso de operário que
ocupa cargo de chefia e que é analfabeto.
Já os não qualificados representam 63,1% do total de trabalhadores, porém,
entre eles, os analfabetos perfazem o percentual de 88,7%.
Esse é o limite de informação que pude extrair dos dados das fichas.
Infelizmente não podemos ter acesso a outras informações sobre o grau de instrução
dos demais que são considerados como alfabetizados. Além dos seus nomes, qual a
capacidade de leitura e escrita dos trabalhadores? Quantos anos de formação escolar
eles possuíam?
De tudo isso podemos inferir que a situação dos trabalhadores em questão
poderia se situar num grau de formação pouco inferior àquele dos trabalhadores que
habitavam as regiões mais centrais da capital paulista, que dispunham de maiores
equipamentos educacionais e uma vida cultural muito mais profusa do que aquele
ambiente oferecido no afastado bairro de Perus.
Acerca do grau de qualificação dos trabalhadores da CBCPP
No segundo capítulo, o leitor já ficou conhecendo algumas das características
do processo produtivo nesse complexo produtor de cimento. Vimos como duas
realidades bem distintas, no que diz respeito ao processo de trabalho, se articulam em
um só mecanismo na fabricação do cimento. De um lado, no início do processo, uma
atividade extrativa, baseada no acionamento da “máquina humana”, com pequena
interposição de maquinários e equipamentos. Do outro, uma fábrica funcionando como
um autômato, onde a mão humana nem sequer chega a manipular diretamente o
produto durante o processo produtivo. Mas, falamos também dos setores essenciais
que desempenham o que chamamos de atividades colaterais, que envolvem os serviços
de manutenção e manufatura dentro da empresa.
141
Pois bem, agora com os dados das fichas, poderemos detalhar e conhecer
melhor como isso se expressa em números. Ao listar as funções registradas nas fichas,
percebi que a enorme variedade de denominações poderia não só complicar a minha
exposição, como poderia confundir os leitores com a enorme quantidade de variáveis a
serem cruzadas.
Por isso, resolvi agrupar as informações em poucas variáveis, pois, assim,
poderíamos visualizar melhor aquelas questões que eu suponho serem do maior
interesse deste trabalho. Agrupei todas as funções em quatro categorias, a saber:
Trabalhos Qualificados (Q), Trabalhos semi-qualificados (SQ), Trabalhos Não-
Qualificados (NQ) e Cargos de Chefias (CH).
O quadro a seguir mostra como foi feito o agrupamento nas siglas de
qualificação.
Agrupamentos das funções registradas nas fichas
Também nesse item, o levantamento feito leva em consideração apenas a
função do trabalhador no momento da sua admissão na fábrica. O conjunto universo
nesse item abrange 1485 fichas, pois em 14 delas não aparece especificada a função.
TRABALHOS QUALIFICADOS (Q)
ferreiro, carpinteiro, mecânico, eletricista,
soldador, sondador, forneiro, ajustador, torneiro,
químico, técnico químico, engenheiro, pedreiro,
enfermeiro, marteleiro, foguista, encanador,
dinamitador, desenhista, auxiliar de escritório...
TRABALHOS SEMI- QUALIFICADOS (SQ)
Meio-oficial, Ajudantes e Auxiliares de
profissionais (de mecânico, de eletricista, de
carpinteiro, de laboratório, etc.) Aprendiz, etc.
TRABALHOS NÃO QUALIFICADOS (NQ)
Ajudantes, serventes, “trabalhador”, ensacador,
carregador, carregador de pedras, cavoqueiro,
limpeza, etc.
SERVIÇOS DE CHEFIA (CH)
Feitor, engenheiro-chefe, chefe de guarda,
superintendente, desenhista-chefe, etc.
142
Depois de ter procedido os agrupamentos, o mapa mais geral apareceu assim:
Distribuição por grau de qualificação
FREQUENCIA %
Cargo de Chefia (CH) 28 1,9
Não Qualificado (NQ) 1030 69,4
Semi-qualificado (SQ) 220 14,7
Qualificado (Q) 299 20,1
TOTAL 1.484 100,0
Na sigla “Não Qualificado”, destacam-se as rubricas “trabalhador”, que,
sozinha é responsável por 25,4 % do total de operários da fábrica, ou 36,6% entre os
Não-Qualificados; e “servente”, que isoladamente responde por 49,4% do grupo de
Não-Qualificado”. As duas rubricas somadas totalizam 86% dos Não Qualificados, ou
59,7% do total de trabalhadores da fábrica. Nesse grupo há ainda 32 “cavoqueiro” e 26
registrados como “carregador de pedras”.
Sob a sigla dos Qualificados, destacam-se, em termos quantitativos: 54
carpinteiros, 45 mecânicos, 25 eletricistas, 24 pedreiros, 12 maquinistas, 11 foguistas,
10 encanadores, 10 ferreiros e 10 guarda-trem. Somados, esses formam 70,3% dos
trabalhadores qualificados.
Entre os considerados Semi-qualificados, em termos numéricos, destacam-se os
ajudante de mecânico (30), ajudantes de eletricistas (13), ajudantes de carpinteiros
(07), aprendizes (25), auxiliares de escritórios (13), auxiliares e ajudantes químicos
(09) e ajudante de sondador (04).
Dentre aqueles que ocupam cargo de chefia, encontram-se feitores, fiscais,
superintendentes, inspetores e chefes em geral.
143
Quadro de qualificação entre nacionais e estrangeiros
estrangeiro nacional Total
Cargo de chefia
11
17
28
39,3% 60,7% 100,0%
Não Qualificado
154
876
1030
15,0% 85,0% 100,0%
Qualificado
117
182
299
39,1% 60,9% 100,0%
Semi Qualificado
23
104
127
18,1% 81,9% 100,0%
Total
305
1179
1484
20,6% 79,4% 100,0%
Os estrangeiros representam 20,6% do total de trabalhadores, mas ocupam
39,3% dos cargos de chefia e 39,1% das funções qualificadas. Em contrapartida, os
trabalhadores nacionais representam 79,4% do total de trabalhadores, mas os seus
percentuais em cargos de chefia e funções qualificadas são menores, ocupando 60,7%
e 60,9%, respectivamente. Esse dado reforça os argumentos que mostram a
predominância dos estrangeiros sobre os nacionais, nas funções qualificadas.
Entre os estrangeiros, o que há a destacar é que os portugueses, que representam
cerca de metade do contingente estrangeiro, aparecem com apenas 36,4% entre os
qualificados e 2,0% que ocupam cargo de chefia; 57,0% entre eles ocuparam funções
não qualificadas. Entre os 42 espanhóis, o quadro é bem parecido: eles aparecem com
38,1% entre os qualificados e 45,2% entre os não qualificados e 7,1% entre a chefia.
Dos 14 italianos que trabalharam na fábrica de cimento, 10 eram nãoqualificados,
02 qualificados e outros 02 semi-qualificados.
Vejamos na tabela abaixo, como aparece a questão da qualificação em relação
às categorias “branco”, “negro” e “mulato”:
144
Qualificação versus “Cor”
Cargo de chefia Não Qualificado Qualificado Semi Qualificado Total
branco
18
536
170
83
807
90,0% 64,9% 82,1% 78,3% 69,6%
mulato
-
124
14
9
147
- 15,0% 6,8% 8,5% 12,7%
negro
2
166
23
14
205
10,0% 20,1% 11,1% 13,2% 17,7%
Total
20
826
207
106
1.159
100,0% 100,0% 100,0% 100,0% 100,0%
Os brancos, que representam 69,6% do total de trabalhadores, ocupam 90% dos
cargos de chefia, 82,1% das funções qualificadas e 78,3% das semi-qualificadas.
Os negros, que representam 17,7% da força de trabalho total, têm índices
inferiores nos cargos de chefia, com 10%, e entre os qualificados com 11,1%. Porém,
já observarmos que os “nacionais” como um todo têm participação inferior aos
estrangeiros. Porém, ainda que excluamos os estrangeiros, os negros aparecem subrepresentados
no item “Qualificado”.
O grupo que aqui foi chamado de “mulato” foi o que apareceu mais
acintosamente sub-representado nos itens “Cargo de chefia” e “Qualificado”, e superrepresentado
no grupo de não qualificados, ou seja, em situação mais desfavorecida
que o grupo dos negros.
Esse quadro apresentado não revela qualquer surpresa, mas reforça as
conclusões que demonstram o desfavorecimento dos negros em relação aos brancos no
que diz respeito à ocupação dos postos mais “privilegiados” nas empresas.
145
Entretanto, o agrupamento das várias profissões acabou por esconder uma
realidade ainda mais desfavorável ao negro. Entre algumas das mais freqüentes
funções qualificadas, a participação do negro e do mulato é muitíssimo pequena, como
podemos constatar na tabela abaixo:
Participação de negros e mulatos em algumas profissões
Total Qtde. negros % Qtde. Mulatos %
Carpinteiro 54 1 2% 1 2%
Mecânico 48 2 4% 2 4%
Eletricista 28 2 7% 2 7%
Pedreiro 26 1 4% - 0%
Foguista 15 4 27% 1 7%
Maquinista 13 1 8% - 0%
Marteleiro 11 5 45% - 0%
Quando confrontamos o item qualificação com o local de trabalho, os resultados
não deixam dúvidas: o percentual de trabalhadores qualificados em Perus é
amplamente superior ao de Água Fria, como podemos constatar na tabela abaixo:
Nível de qualificação na fábrica e nas pedreiras
CH NQ SQ Q TOTAL
Pedreiras 16 442 15 59 532
57,1% 42,9% 11,8% 19,7% 35,8%
Fábrica 08 448 87 127 670
28,6% 43,5% 68,5% 42,5% 45,2%
N/especificado 04 140 25 113 282
14,3% 12,5% 19,7% 37,8% 19,0%
TOTAL 28 1030 127 299 1484
1,9% 69,4% 8,6% 20,1% 100,0%
Cheguei a essa classificação entre trabalhadores das pedreiras e trabalhadores
da fábrica, a partir do local de moradia especificado nas fichas. Considero como
146
trabalhadores das pedreiras aqueles que aparecem como moradores de “Água Fria”, e
operário da fábrica aquele que aparece como morador de Perus. Como a Fábrica dista
20 km das Pedreiras e há alojamentos e núcleo de moradia em ambos os locais, creio
que a opção é fiel à realidade. Aqueles que aparecem como “Não especificado”,
referem-se às fichas que não trazem a informação, ou aos trabalhadores que têm a
moradia registrada em outros locais como São Paulo, Caieiras, Jundiaí, Juqueri, Franco
da Rocha e outros mais. Como os dados mostram que a grande maioria daqueles que
moram em outra cidade são operários especializados ou semi-especializados, e, pela
tendência apresentada acima, poderemos supor que a maior parte desses “não
especificados” seja também trabalhadores da fábrica. Não aparecem especificados aqui
os serviços de quem trabalha no setor de ferrovias, que mantinha serviços de
manutenção ao longo da linha e em oficinas próximas a Perus e também próximas a
Água Fria. Porém, não creio que o número de pessoal envolvido aí altere
significativamente as nossas análises.
Como mostram os dados, apenas 19,7% dos qualificados e 11,8% dos
considerados semi-qualificados trabalham nas pedreiras. Não obstante, 57,1% daqueles
que ocupam cargos de chefia estão nas pedreiras. Isso não me parece um contra-senso.
O trabalho nas pedreiras baseia-se mais na exploração direta do “maquinismo
humano”, baseado em trabalho, talvez, mais penoso, na maioria dos casos, a céu
aberto. Esse tipo de serviço requer mais fiscalização e maior atividade de controle.
Teríamos, assim, uma relação de um trabalhador com algum tipo de função de chefia
para cada 32 operários nas pedreiras e um chefe para cada 83 operários na fábrica.
Em alguns depoimentos os trabalhadores destacam traços de distinção entre os
operários, apontando um diferencial, em termos de conforto e regalias, nas condições
estabelecidas entre os operários qualificados, cuja maioria era estrangeira, e os não
qualificados, cuja grande maioria era nacional. Para João Breno161, os operários da
fábrica “pareciam uma elite privilegiada” em relação aos operários das pedreiras, “que
161 João Breno é ex-operário da fábrica e foi expoente dos “Queixadas” nas greves dos anos sessenta. Esta
afirmação foi extraída da dissertação do Élcio SIQUEIRA, p. 174.
147
cuidavam das tarefas mais penosas como se pendurar em paredões para colocar carga
de dinamite”. O teor desse depoimento precisaria ser checado, já que os números não
são capazes, por si sós, de revelar situações como esta, que tem uma boa dose de
subjetividade.
Qual o tempo médio de permanência dos operários na fábrica?
Se somarmos o tempo de permanência de todos os trabalhadores da fábrica e
dividirmos esse somatório pela quantidade de trabalhadores, chegaremos a uma média
de 4,3 anos de permanência na fábrica. Ainda que esse número reflita distorções
numéricas, não há dúvidas de que ele diz algo que se aproxima da realidade.
Para termos uma idéia mais precisa, iremos agora observar o item estabilidade
relacionado com os seguintes agrupamentos: nacional versus estrangeiro, banco versus
negro, fábrica versus pedreiras, grau de qualificação. Os intervalos de tempo de
permanência propostos são: menor que 1 ano de serviço; maior ou igual a 1 e menor
que 2 anos; maior ou igual a 2 e menor que 5 anos e maior ou igual a 5 anos.
Estabilidade entre Nacionais (N) e Estrangeiros (E)
N E TOTAL
Menos que 1 ano 344 82 426
80,8% 19,2%
Entre 1 e 2 anos 122 32 154
79,2% 20,8%
Entre 2 e 5 anos 151 42 193
78,2% 21,8%
Mais que 5 anos 571 149 720
79,3% 20,7%
TOTAL 1.190 306 1.496
79,5% 20,5%
(Percentual de estrangeiros entre o total de trabalhadores: 20,5%)
148
A tabela nos diz que não houve discriminação no processo de demissão entre
estrangeiros e nacionais. Isso porque a variação é muito pequena quando relacionamos
o percentual de estrangeiros e nacionais e a representação de cada grupo no total.
Vejamos agora a relação entre as variáveis Estabilidade e Cor:
Estabilidade entre Brancos (B), Negros (N) e Mulatos (M)
B N M TOTAL
Menos que 1 ano 176 42 33 251
70,1% 16,7 13,1%
Entre 1 e 2 anos 87 18 18 123
70,7% 14,6% 14,6%
Entre 2 e 5 anos 132 19 20 171
77,2% 11,1% 11,7%
Mais que 5 anos 417 126 77 620
67,3% 20,3% 12,4%
TOTAL 811 205 148 1.164
69,7% 17,6% 12,7%
(Percentual de cada grupo em relação ao total: B= 69,7%; N= 17,6% e M= 12,7%)
Esta tabela nos mostra pequenas variações no que diz respeito ao tempo de
permanência na fábrica em relação aos grupos. Se, por um lado, os negros aparecem
sub-representados na tabela entre 2 e 5 anos, no grupo maior que cinco anos eles
aparecem super-representados, havendo, assim, uma espécie de compensação. A
variação entre os “mulatos” é também pequena. No geral, podemos afirmar que no
processo admissão/demissão, não houve discriminação em relação à cor da pele.
Vejamos essa questão da estabilidade em relação ao grau de qualificação dos
trabalhadores:
149
Estabilidade X Qualificação
(O percentual de cada grupo em relação ao total é: Q= 19,2; SQ = 14,0 e NQ = 64,6)
Os resultados dessa tabela chegam a surpreender porque ela mostra que os
trabalhadores não qualificados permaneceram mais tempo na fábrica. Esse grupo de
trabalhadores ficou ligeiramente sub-representado entre aqueles que permaneceram
mais de 5 anos, porém, foi o grupo mais representativo entre aqueles que
permaneceram na fábrica entre 1 e 5 anos. Os não qualificados ficaram superrepresentado
no item “menos de 1 ano” de permanência na fábrica.
Já os qualificados, tiveram uma maioria relativa que permaneceu menos que 1
ano na fábrica. A permanência entre 1 e 5 anos foi menor do que a representatividade
do grupo, significando que uma relativa minoria permaneceu na fábrica entre 1 e 5
anos. Já uma parcela equivalente à sua representatividade permaneceu na fábrica por 5
anos ou mais.
Os semi-qualificados aparecem como o grupo que, relativamente, menos tempo
permaneceu na fábrica. O grupo aparece ligeiramente super-representado entre aqueles
que permaneceram 5 ou mais anos na fábrica.
Q SQ NQ TOTAL
Menos que 1 ano 90 37 290 418
21,5% 8,9% 69,4%
Entre 1 e 2 anos 27 16 107 152
17,8% 10,5% 70,4%
Entre 2 e 5 anos 31 26 132 192
16,1% 13,5% 68,8%
Mais que 5 anos 137 108 445 717
19,1% 15,1% 62,1%
TOTAL 285 207 957 1.482
19,2% 14,0% 64,6%
150
Como resultado geral, parece-nos que o item qualificação na fábrica de cimento,
não é um atributo garantidor de estabilidade. Nada há de anormal nisso. Fatores como
crescimento e expansão econômica podem explicar esse fenômeno. Quando a
economia se aquece e a indústria se expande de forma significativa, há uma
possibilidade de mobilidade, principalmente dos operários qualificados, que, devido à
sua maior raridade, passa a trocar de emprego com mais rapidez e facilidade.
Além do mais, é bom não esquecermos que este levantamento baseia-se nas
ocupações registradas no momento do ingresso do trabalhador na fábrica, não levando
em consideração qualquer tipo de evolução funcional. A ocorrência de maior
estabilidade entre os setores não qualificados pode exatamente indicar uma boa
possibilidade de ascensão funcional, ou rotatividade interna entre as funções.
Onde haveria maior rotatividade de força de trabalho, na fábrica ou nas pedreiras?
Estabilidade nas Pedreiras (P) , na Fábrica (F) e Outras Localidades(OL)
P F OL TOTAL
Menos que 1 ano 74 203 47 324
22,8% 62,6% 14,5%
Entre 1 e 2 anos 30 80 27 137
21,9% 58,4% 19,7%
Entre 2 e 5 anos 69 99 24 192
35,9% 51,6% 12,5%
Mais que 5 anos 359 296 38 693
51,8% 42,7% 5,5%
TOTAL 532 678 136 1.346
39,5% 50,4% 10,1%
O percentual de trabalhadores das Pedreiras (P) em relação ao total é de 39,5%; da Fábrica (F) =
50,4% e de Outra Localidades (OL) = 10,1.
Depois da conclusão feita anteriormente, este gráfico não nos surpreende. Nessa
tabela vemos o reflexo da maior estabilidade entre os não qualificados, que também
representam a grande maioria dos trabalhadores nas pedreiras. Não deixa de nos causar
151
muita surpresa esse grupo de trabalhadores não qualificados apresentar um altíssimo
índice de estabilidade de 5 ou mais anos. O gráfico diz que mais da metade dos
trabalhadores que permaneceram 5 anos ou mais na fábrica trabalhavam (ou
começaram trabalhando) nas pedreiras.
Já os trabalhadores que ingressaram na fábrica, estes apresentam menor
estabilidade entre aqueles que permaneceram mais de 5 anos na fábrica.
No geral, podemos ver que o tempo de permanência no trabalho nesse
complexo cimenteiro, pode ser considerado alto. Isso talvez possa ser explicado pelo
fato de haver um núcleo residencial e de produção relativamente afastado do centro da
capital, que conseguia acomodar os trabalhadores em sua dinâmica interna.
Entre 1933 e 1934, foi o período de maior fluxo de trabalhadores na fábrica, em
termos de admissão e demissão, conforme mostra a tabela abaixo:
Tabela de admissão e demissão entre 1933 e 1934, por qualificação
Admitidos Demitidos Saldo
Qualificados 102 51 51
24,5% 32,3%
Não Qualificados 275 88 187
65,9% 55,7%
Semi Qualificados 33 11 22
7,9% 7,0%
Outros 7 8 -1
1,7% 5,1%
Total 417 158 259
100% 100%
(Percentual de representação dos grupos no total: Q = 19,1; NQ = 63,1 e SO = 14,7)
Os economistas identificam o ano de 1933 como momento de retomada dos
efeitos da crise de 1929 e também expansão do setor produtivo, em especial da
indústria de base:
152
A crise de 1929 e a depressão repercutiram no Brasil, causando uma baixa na produção
industrial, que durou de 1928 (último ano de prosperidade) até 1932 ou 1933. Há
divergência entre as diversas fontes a respeito do ano em que começou a recuperação,
mas não há dúvidas de que esta se deu em grande estilo, resultando até o fim da década na
duplicação do nível de produção industrial.162
De 1932 a 1939 a taxa de crescimento anual era de 10%, segundo Singer. Esse
autor cita o setor cimenteiro como um dos que apresentaram taxas maiores de
crescimento anual: de 25% (!).
Em relação ao crescimento da força de trabalho nesse período, Warren Dean cita
que:
Um relatório sobre as condições econômicas apresentado pelo governador de São Paulo
afirmava ter-se verificado um aumento, entre 1932 e 1935, quase tão grande quanto o dos
doze anos precedentes.163
Esse diagnóstico aparece também em relato de debate realizado em 1948, pelo
Conselho Nacional de Minas e Metalurgia, que reuniu a “nata” do setor cimenteiro:
...a crise econômica que, deflagrada em 1929, atuou entre nós até 1932; foi justamente a
partir de 1933 que a curva de consumo retomou sua linha ascendente.164
Ou seja, é exatamente esse diagnóstico feito pelos economistas que os números
apresentados na nossa tabela revela. Constatamos justamente, que nesse período, foi
exatamente a força de trabalho qualificada que mais apareceu entre as admissões e
demissões, reforçando, assim, aquilo que falamos acima sobre a mobilidade desse
grupo. Os qualificados, que representam 19,1% do total de trabalhadores, aparecem
com 24% dos admitidos e 32,3% entre os demitidos. Foram 102 trabalhadores
162 SINGER, Paul, op.cit., p. 217.
163 DEAN, Warren, A industrialização de São Paulo (1880-1945), São Paulo: DIFEL/USP, 1971.
164 Cf. Observador Econômico, nº 149, de junho de 1948.
153
qualificados admitidos e 51 demitidos, entre os anos de 1933 e 1934. Ou seja, houve
uma ampliação de 51 trabalhadores no quadro de operários qualificados.
No total, foram 259 trabalhadores agregados ao quadro de pessoal da empresa,
em dois anos. Isso significa um crescimento absolutamente significativo, pois
representaria uma ampliação em torno de 50% no quadro de pessoal.
Salário como ponto de discórdia entre capital e trabalho
Teoricamente, o salário corresponde à parte do capital variável, capaz de
garantir minimamente a capacidade de reprodução da força de trabalho. Como vimos
na introdução deste capítulo, a parte do capital que cabe ao pagamento de salários é
bastante diminuta, em relação ao capital total.
No entanto, a história da luta de classes nos quatro campos do mundo
capitalista, é recheada de conflitos, alguns que atingem níveis de extrema radicalidade,
tendo como fator inflamante, exatamente a luta por melhores salários, empreendida
pelo proletariado.
Neste sistema, o salário significa a própria existência para o proletariado.
Mas, por que essa parcela tão pouco expressiva do capital gera tamanha
resistência por parte dos capitalistas a qualquer tipo de concessão? Eu creio que essa
reação dos capitalistas não se justifica apenas por questões de ordem política, no jogo
onde as classes em conflito buscam demarcar seus territórios de poder. Ela tem uma
motivação econômica importante, posto que, o lucro do capitalista está na razão
inversa à taxa de exploração conseguida sobre o operário.
Dito de outro modo: por mais sofisticado que seja o maquinário utilizado, não é
exatamente desse equipamento que o capitalista faz aumentar a sua taxa de lucro.
Afinal, máquinas nunca foram ou serão exploradas. Vale dizer que o ganho que um
capitalista pode auferir ao se diferenciar dos seus concorrentes inovando
tecnologicamente, ele acontece pela transferência inter empresas, ou inter setorial, via
mecanismos de preços.
154
Mas, como a minha exposição não tem o propósito de debater aspectos teóricos
da economia política, limito-me, então, a sintetizar que, para o capitalista, o salário é
motivo de controle rigoroso porque é um aspecto estratégico para a manutenção de sua
taxa de lucro em nível compatível com as condições de concorrência no mercado.
Através da análise do salário podemos inferir muitos aspectos da vida daqueles
que não dispõem senão da sua força de trabalho para reprodução de sua existência.
A proeminência do salário
O período abrangido por esta pesquisa, pelo menos até 1935, é marcado pela
intensa luta dos trabalhadores em conquistar benefícios sociais e também pelo
cumprimento de leis já existentes. É marcado também pela iniciativa do Estado em
absorver a energia da classe trabalhadora, visando o consenso, a cooptação, mas
também a aniquilação dos setores politicamente mais ativos do proletariado.
A intervenção do Estado nas relações de trabalho não é ato de vontade dos
políticos que formam a burocracia, mas uma necessidade, na medida em que “a
reprodução da força de trabalho precisa de meios externos à empresa capitalista, uma
vez que o salário pago pelo seu uso não permite cobrir todos os gastos de manutenção
e reposição desta força de trabalho, que apenas é remunerada pelo capital enquanto
imediatamente utilizada no processo de produção”.165
Não obstante, o salário é o item mais importante a ser analisado neste quadro
geral dos dados expostos neste capítulo. Não há como negar que, no contexto onde os
trabalhadores brasileiros tinham o mínimo de benefícios sociais, o salário assumia a
proeminência entre os itens responsáveis pela reprodução da força de trabalho. Afinal
de contas, os mais importantes benefícios sociais conquistados pela classe trabalhadora
paulista e brasileira, naquele período, só são sistematizados e ordenados com a CLT,
em 1943. Ou seja, além do salário, os operários da CBCPP certamente usufruíam as
férias anuais, que foram garantidas por decreto a partir de 1932, podiam dispor de
165 Cf. SILVA, Zélia Lopes da, op. cit., p. 27.
155
algum benefício previdenciário e parte dos trabalhadores dispunha de moradia
garantida pela empresa, que construíra uma vila operária, desde a inauguração da
fábrica. O salário, era, portanto, a grande contrapartida pelas horas de trabalho
dedicadas à empresa.
Jornada e valor dos salários
Com as informações que dispomos, não podemos definir qual era a jornada de
trabalho imposta aos operários, desde 1926. Entretanto, nas fichas mais novas que
pesquisamos há um campo que ressalta o exercício da jornada de 8 horas de trabalho
diário, por turmas que se revezam em três turnos, certamente. Os equipamentos
fundamentais da fábrica de cimento são os grandes fornos rotativos que operam
ininterruptamente sob alta temperatura. Supomos que os modelos novos de fichas
tenham sido introduzidos entre os anos de 1934 e 1935, como obrigação imposta pelo
Estado, para organização do sistema previdenciário.
A grande maioria dos salários aparece registrada em valor por hora de trabalho.
Todos aqueles salários que apareciam em valor por dia ou por mês, foram
transformados em valor por hora nas tabelas. Tudo isso para efetivar uma
homogeneização facilitadora dos cálculos. Tive algumas dúvidas para essa conversão.
Com qual jornada trabalharíamos? Um salário de 600 mil réis por mês pode resultar
em valores diferentes de hora de trabalho, a depender do fator de jornada utilizado. Se
oito horas diárias e vinte e cinco dias mensais (em determinada época o trabalhador
não recebia pelo dia de folga semanal), esse valor seria de 3 mil réis a hora. Se dez
horas diárias e os mesmos vinte e cinco dias mensais, essa hora teria o valor de 2.400
réis por hora. Se dez horas diárias e 30 dias por semana, o valor dessa hora caia para 2
mil réis/hora.
Há indícios de a CBCPP até meados da década de 1930 explorava a força de
trabalho com jornadas de 12 horas diárias. Há um documento de 20 de julho de 1934
onde o Sindicato faz uma reclamação à empresa em que esses indícios aparecem:
156
Aconteceu que em 7 de Julho do corrente anno, os empregados por quem este Syndicato
reclamou, receberam umas fichas, como porcentagem, e não augmento para os mesmos.
(...) A Companhia apresentou uma proposta, que satisfaria ao pessoal, lhe augmentando
o salário hora, nas 8 horas, correspondente o que os mesmos percebiam anteriormente,
em 12 horas...
Não obstante a linguagem confusa, tenho a impressão de que o sindicato está a
reclamar a forma da adequação da jornada de 12 para 8 horas, pleiteando a não
redução do salário. Na entrevista concedida aos pesquisadores de DPH em 30/04/1991,
o Sr. Augusto, que ingressara na empresa em 1934, cita que:
Os trabalhadores fizeram aquela campanha pra forçar a jornada de 8 horas. Porque aqui
se trabalhava 12 horas. Mas os trabalhadores pensava que ia trabalhar 8 horas sem
redução de salário.
No entanto, como desde inícios da década de 1930 legalmente a jornada é de 8
horas diárias, e, formalmente isso já aparece registrado nas fichas, optei por esse
número multiplicado por vinte e cinco, para o cálculo dos salários mensais. Esse
critério parece ter sido usado também pelas autoras166 que consultei. Sabemos que as
leis e formalidades podem não passar de letra morta ou teatralização das relações
sociais. A vontade do capitalista é a máxima exploração possível, porque ela determina
aumento da sua taxa de lucro. Mas, a sua vontade não é absoluta, pois é constrangida
pelas leis e limitadas pelo poder de pressão e barganha dos assalariados. Portanto, em
um período em que a legislação trabalhista estava ainda sendo negociada e
implementada, as condições de trabalho ficavam muito na dependência do poder de
mobilização dos trabalhadores.
Maria Auxiliador Guzzo Decca167 afirma que:
166 Refiro-me A Maria Hermínia Tavares, Maria Auxiliadora Dacca Guzzo, Ângela Araújo e outros.
167 DECCA, Maria Auxiliador Guzzo. A vida fora das fábricas. Cotidiano operário em São Paulo (1920/1934).
São Paulo: Ed. Paz e Terra, 1987.
157
As lutas da classe operária no período de 1927-1934 para a obtenção do cumprimento da
legislação trabalhista mínima já estabelecida (lei das oito horas de trabalho diárias,
inclusive) ilustram bem a heterogeneidade de tempo de trabalho a que a classe operária
estava sujeita, além de atestar a lentidão com que o regime estabelecido em lei fosse
incorporado na prática.
Também para facilitação dos cálculos, apresento os dados compartimentados
em dois: de 1925 a 1942 e de 1943 a 1947. A partir de 1943 a moeda brasileira muda
de real (réis, no plural) para cruzeiro, e três “zeros” são cortados da moeda anterior.
Entre os anos de 1925 e 1942, o “salário modal” dos operários qualificados registra o
valor nominal de 1$200,00 réis (um mil e duzentos réis) por hora, que passa para Cr$
1,38 (um cruzeiro e trinta e oito centavos) entre os anos de 1943 e 1947.
Os salários com os quais realizei os cálculos são aqueles registrados no
momento do ingresso de trabalhador na fábrica. Dispensamos informações sobrepostas
nas fichas, posto que, neste trabalho não me propus a pesquisar possíveis mobilidades
funcionais.
Dados sobre a situação salarial na fábrica
Se tomarmos a massa salarial, até 1942, e a dividirmos pelo número de
trabalhadores, chegaremos a uma média de 1$138,00 (um mil cento e trinta e oito réis)
por hora, ou 227$600,00 réis por mês, na fábrica de cimento. Se excluirmos do
somatório apenas os três salários mais altos (correspondentes a cargos de gerência),
essa média mensal seria de 222$252,00 réis.
Para deixar essa situação mais clara, observemos os quadros abaixo:
Salários Geral
Média Moda Menor Maior
Por hora Por mês Por hora Por mês Por hora Por hora
Até 1942 1138,00 227.600 900,00 180.000 500,00 16.250,00
De 1943 a 1947 2,38 476,00 1,38 276,00 1,10 10,42
158
Não são muitas as fontes que informam os salários, de uma forma mais
abrangente, nesse período no Brasil. Os inquéritos sobre o padrão de vida dos
trabalhadores, realizados na década de 1930, publicados por Horace Davis e também
por Samuel Lowrie, são as fontes mais utilizadas. Há ainda informações extraídas do
Departamento Estadual do Trabalho, através do seu Boletim, do Departamento
Nacional do Trabalho, através de artigos como o de Clodoveu D’Oliveira; do Boletim
do Departamento Estadual de Estatística de São Paulo e dos censos feitos pelos IAP’s.
Para efeito de comparação, apresento abaixo alguns valores de salários do
período, retirados de algumas dessas fontes citadas:
ANO
SALÁRIO
Por hora Por mês
CATEGORIA
FONTE
1929 1.272,75 255.150,00 Indústria (1)
1930 977,50 195.500,00 Indústria (1)
1933 1.000,00 200.000,00 Const. Civil (2)
1934 1.093,75 218.750,00 Indústria (1)
1938 1345,00 269.000,00 Metalúrgicos (3)
1938 1530,00 306.000,00 Aparelhos elet. (3)
1938 805,00 161.000,00 Têxtil (3)
1938 1.115,23 223.047,00 Indústria (3)
Fontes: (1) Zélia Silva, A domesticação... p. 34.
(2) A Plebe in Guzzo Decca, A vida fora das fábricas... p. 21.
(3) Ministério das Relações Exteriores, Brasil, 1940-41..., p. 299.
É possível perceber, apesar da grande variedade, quais são os parâmetros
salariais do período. Os salários médios aqui apresentados variam de 161 mil réis a
306 mil réis mensais. Assim, a média da fábrica de cimento – de 222.600,00 réis por
mês – se colocaria numa faixa intermediária desses salários168. Essa média se
encontraria praticamente na mesma faixa do salário mínimo regional estipulado para
168 Os documentos indicam que os trabalhadores do setor de carregamento de vagões recebem por empreitada.
Em correspondência datada de 23/06/1934, há uma pauta de reivindicações específica desse setor que propõe o
pagamento de 5 mil réis por “carro” cheio de pedras ou terra, sendo que, o teto de horas de trabalho fosse de 8
horas ou 3 carros.
159
São Paulo, com base em cálculos do ano de 1938, que foi fixado em 220$000
(duzentos e vinte mil réis).
De certo que os salários com os quais trabalho, são salários de ingresso e que
não levam em conta possíveis evoluções funcionais. Porém, em contrapartida, como
veremos adiante, os salários nominais permanecem em torno dos mesmos valores
desde 1926 até 1942.
Essa média salarial contradiz frontalmente a propaganda veiculada no Boletim
da ABCP, n° 43, de 1940 que afirma que:
O salário operário para o conjunto das fábricas [de cimento] é assim quase duas vezes
superior ao salário mínimo recentemente fixado em lei. Essa mesma superioridade
verifica-se comparando os salários de cada fábrica com os mínimos estabelecidos para a
região em que a mesma funciona.
Não saberia dizer se essa realidade acima descrita valeria para as outras cinco
fábricas de cimento existentes naquele período, porém, as pesquisas nas fichas da
Cimento Perus não confirmam esse diagnóstico salarial. Entretanto, essa é a mesma
propaganda que diz que:
Aos seus operários dá essa indústria não apenas um salário nitidamente superior ao
comum, mas cuidadosa assistência contra acidentes de trabalho, já reduzidos a um
mínimo.
Trata-se de outra informação controversa, já que os números sobre acidentes de
trabalho não são nada reduzidos, como veremos mais adiante.
160
Salário entre os Qualificados
Média Moda Menor Maior
Por hora Por mês Por hora Por mês Por hora Por hora
Até 1942 1560,35 312.070 1.200,00 240.000 900,00 4.250,00
De 1943 a 1947 3,89 778,00 1,38 276,00 1,38 10,42
A tabela acima nos mostra uma média salarial dos trabalhadores qualificados no
valor de 312.070,00 réis por mês. Os salários nesse grupo variam muito. Os
carpinteiros, marceneiros e mecânicos, por exemplo, apresentam salários bem
superiores aos ferreiros, marteleiros e foguistas, que também foram agrupados na
rubrica de qualificados. Na tabela abaixo, exponho alguns salários médios que extraí
na bibliografia consultada e em fontes primárias:
Salários médios de trabalhadores da cidade de São Paulo
ANO SALÁRIO CATEGORIA FONTE
1929 2.000,00 400.000,00 Indústria (1)
1934 650,00 130.000,00 Têxtil (2)
1935 2.500,00 500.000,00 Marceneiros (2)
1935 1.200,00 240.000,00 Pedreiro Light (2)
1934 1.840,00 368.000,00 Caldereiro/Ferrovia (2)
1934 1.400,00 280.000,00 Foguista/Ferrovia (2)
1934 1.700,00 340.000,00 Feitor/Ferrovia (2)
FONTES: (1) Zélia Silva, A domesticação... p. 38
(2) A Platéia, in Ângela Araújo, op. cit.
Também nesse item o salário dos trabalhadores qualificados encontra-se numa
faixa intermediária, ou seja, bem acima daqueles praticados no setor têxtil, mas
distante da média encontrada pelo Departamento Nacional do Trabalho, citado pela
Zélia Silva.
Já os “não qualificados” têm uma variação bem menor nos salários. Os valores
entre 900,00 réis e 1.100,00 réis formam a ampla maioria no grupo.
161
Salário entre os Não-Qualificados
Média Moda Menor Maior
Por hora Por mês Por hora Por mês Por hora Por hora
Até 1942 982,98 196.596 900,00 180.000 700,00 2000,00
De 1943 a 1947 2,10 420,00 3,50 700,00 1,10 4,30
Nesse item, também os salários da fábrica aparecem abaixo daquele calculado
pelo Departamento Nacional do Trabalho, citado pela Zélia Silva, segundo o qual o
operário não qualificado em 1929 recebia uma média de 250.000,00 réis por mês.
Nesse primeiro panorama visto até aqui, podemos verificar que os salários
pagos na Cimento Perus encontrava-se numa faixa intermediária entre os salários
pagos na capital. Este salário não oscilava muito distante daqueles que serviram de
referência para o estabelecimento do salário mínimo em 1940.
A avaliação feita pelos autores que puseram em questão o alcance do salário
mínimo no sentido de atender as necessidades básicas dos trabalhadores daquele
período, demonstram um “défict” razoável. Eles citam os estudos realizados por
Horace Davis que calculou em 376.600,00 réis mensais o valor de um “orçamento
médio familiar – cesta de consumo”169.
Essa tal cesta de consumo, que reproduzimos a seguir, planejada em meados da
década de 30, pode nos mostrar o padrão de uma vida simples, onde quase metade do
salário seria gasto com alimentação.
169 Esta tabela elaborada por Horace B. Davis aparece nos trabalhos citados de Guzzo, Araújo e Zélia Silva.
162
Previsão de orçamento familiar mensal em 1934
Cesta de consumo Despesas em (mil-réis) Porcentagem s/ o total
Alimentos e bebidas 179.900 47,7
Aluguel, água e luz 84.000 22,3
Roupas 37.600 10,0
Gás, lenha e carvão 10.400 2,8
Refeições avulsas 9.300 2,5
Fumo e despesas pessoais 6.600 1,7
Compras a prestação 3.000 0,8
Diversões 2.900 0,8
Criação, inclusive de animais de estimação 1.400 0,4
Associações beneficentes 1.200 0,3
Outras associações 600 0,2
Escola 600 0,2
Outras despesas 39.100 10,3
TOTAL 376$600 100,0
Ângela Araújo apresenta um quadro mais detalhado, que traz preços de
produtos do consumo cotidiano dos trabalhadores do período, que bem ilustra não só o
padrão de consumo dos operários, mas deixa explícitas as dificuldades da classe na sua
luta diária para a reprodução da vida. Os dados foram retirados do jornal A PLATÉIA,
de 14/12/1933 e refere-se a:
“Mínimo que deveria consumir um casal com dois filhos menores”
Item Valor em réis
Aluguel de casa; uma habitação com cozinha 65$000
15 kg de feijão bom a 900 rs 18$000
15 kg de arroz regular a 1$300 rs 18$000
Carne seca, bacalhau, peixe, etc. 10$000
8 kg de batatinha a 600 rs 4$000
15 kg de carne verde, sopa, bife, etc. 13$000
Cebola, sal, colorau, miudeza, etc. 6$800
3 latas de óleo “salada” 6$600
30 litros de leite, ovos, manteiga, etc. 30$000
4 kg de toucinho a 1$800 7$200
45 kg de pão 40$500
2 sacos de carvão 9$000
Verduras e frutas 30$000
3 kg de café ou chá 7$500
½ arroba de açúcar 7$800
Cigarros e fósforos 24$000
Despesas diversas: diversão, jornais, etc. 30$000
TOTAL 363$600
163
“Vestuário para essa mesma família, para um ano”
Item Valor em réis
Um terno de casimira 200$000
Um terno de brim 80$000
Calçado de homem 60$000
Um vestido de senhora - passeio 60$000
Dois vestidos de senhora – casa 40$000
Calçado de senhora 60$000
Roupa para as crianças 200$000
Roupas brancas e miudezas 200$000
Calçados para as crianças 60$000
TOTAL 960$000
Conforme já sabemos, parte dos operários da fábrica de cimento usufruía o
benefício da moradia fornecida pela empresa. Baseando-se em depoimentos de extrabalhadores,
os pesquisadores do DPH falam em “aluguel simbólico”170. Segundo a
Revista do Trabalho, n° 4, página 15, o valor pago pelos operários pelas casas nas
vilas próximas à fábrica e próximas às pedreiras, correspondem a aluguéis
“insignificantes: 50$000 relativamente às grandes, para operários casados, e 12$000
aos quartos para solteiros”. De fato, os 50 mil réis estão abaixo dos 84 milréis que
aparecem na primeira tabela acima (já incluídas despesas com água e luz) e dos 65 mil
réis da tabela d’A Platéia. Porém longe está de “simbólico” ou “insignificante”, já que
representaria em torno de 25% do salário médio dos trabalhadores da Companhia.
Por outro lado, se dividirmos o valor das despesas com vestuário por 12,
referente ao número de meses, teríamos a acrescentar o valor de 80$000 réis no
orçamento mensal – valor superior aos 37$600 que aparece na primeira tabela.
Assim, um orçamento mensal para se adquirir produtos básicos àquela época,
mesmo que abstraíssemos o aluguel, seria de, pelo menos, 378$600 réis mensais.
Podemos perceber que o salário médio dos trabalhadores da CBCPP, de 222$600 réis
mensais, estaria bem abaixo da possibilidade de aquisição dos produtos mais básicos
170 Conforme Parecer de Tombamento..., p. 46.
164
para a reprodução da força de trabalho. Até mesmo a média salarial dos operários
qualificados, de 312$070 réis mensais, não bastaria para alcançar o custo da cesta.
Ainda segundo a Revista do Trabalho, n° 4, de 1932, os operários contribuíam
com 2$000 mensais para ter direito a tratamento médico e serviço odontológico e
usufruíam de “um grande armazém, onde os operários se abastecem de gêneros
alimentícios de primeira qualidade, bem como de artigos de vestuário, por preços
sempre menores que os correntes na praça. Trata-se de um armazém cooperativo”.
Através de um documento datado de 06 de janeiro de 1935171 tomamos
conhecimento de uma despesa cuja informação considero importante: a taxa que o
trabalhador sindicalizado pagava mensalmente ao Sindicato, passara de 3$000 réis
para 5$000 réis. Como veremos adiante, o número de sindicalizados era bem alto.
A solução possível para a sobrevivência é destacada por Zélia Silva172:
A cobertura de seu orçamento, porém, se faz sob o esforço de toda a família trabalhadora
e num regime de trabalho em que a jornada diária está acima das oito horas. Ou seja, 95%
da força de trabalho masculina pesquisada trabalhava de oito a onze horas diárias – sendo
que 73% desse efetivo estava alocado na faixa de oito a nove horas diárias.
Ou seja, a extensão da jornada de trabalho e a exploração extensiva da força de
trabalho familiar eram os recursos “pacíficos” encontrados pelos trabalhadores para
enfrentar as dificuldades de sobrevivência.
Não temos o registro de grandes movimentos grevistas naquela região, naquele
período, no entanto, os documentos apontam grande insatisfação dos trabalhadores com
o salário, muitas vezes chamado de “miserável”, mesmo na CBCPP, que eram mais
altos que os salários dos trabalhadores das empresas de cal da região.
Em 1934 essa insatisfação dos trabalhadores da fábrica aparece explícita numa
pauta de reivindicações que pode exprimir o tamanho da defasagem salarial sentida por
171 Este documento faz parte do acervo do sindicato em Perus.
172 SILVA, Zélia, op. cit., p. 38.
165
aqueles operários. Dos nove itens reivindicados, seis referem-se a salários diretos, que
aparecem estipulados por setores:
1. Trafego, aumento de 35% sobre o actual salário.
2. Producção, equiparação aos mais elevados salários, dos demais, operários na Secção, e
augmento, sobre os melhores salários de 30%.
3. Turma da Linha equiparação nos presentes salários e augmento de 20%, abrangendo
todas as turmas.
4. Trabalhadores, que percebem $900 (novecentos réis) por hora, augmento de 30%.
5. Trabalhadores no regimen de empreitada, 30% sobre os carros.
6. Trabalhadores das manobras, equiparação com o que tem maior salário.
Ou seja, os operários, tendo a frente o sindicato, percebiam uma defasagem, em
média, de 30% dos seus salários. É difícil saber quais estudos levaram a esses índices
setoriais. Porém, se aproxima bem dos cálculos de variação positiva do custo de vida,
que ficou em torno de 36%, entre os anos de 1925 e 1940, conforme poderá ser visto na
tabela abaixo, apresentada por Oliver Onady.
Um documento datado de 21 de setembro de 1934, revela um movimento
reivindicativo acontecido na caieira dos Beneducci, onde os trabalhadores pleiteiam
“Equiparação de ordenados dos operarios D’esta Companhia aos ordenados dos
operários da Companhia Brasileira de Cimento Portland S/A (em todas as suas
seções)”.
Esse texto de época mostra, portanto, que os salários nas empresas de cal
situavam-se em torno de 30 a 35% abaixo dos salários da CBCPP, que, como vimos, já
eram baixos.
Não há, portanto, nenhum motivo para pensarmos que a vida dos operários da
Cimento Perus fosse menos dramática do que aquela dos seus contemporâneos e
companheiros de classe no centro de São Paulo. Em A vida fora das fábricas, Guzzo
Decca traz um relato dramático da situação de carências e penúria em que vivia o
proletariado urbano desse nosso período de estudo. Também os jornais operários do
166
período cumpriram um papel fundamental para contrapor o discurso patronal que,
como vimos no Boletim da ABCP de 1940, apresentava uma visão bem distante da
realidade.
Defasagem salarial
Outro fenômeno que me causou bastante dúvida é a permanência de valores
nominais durante vários anos. De 1925 até, pelo menos, o ano de 1940 os salários de
admissão parecem não ter tido variação, não obstante, nesse período, o custo de vida
ter aumentado.
Ângela Araújo apresenta tabela que demonstra que, entre 1934 e 1941, o custo de
alimentação, baseado em preços de produtos básicos (arroz, açúcar, óleo, banha,
batata, farinha de trigo e feijão), subiu 61% na cidade de São Paulo173. Esse dado
difere da tabela apresentada por Oliver Onady, quando este analisa a inflação nacional,
mas que, ainda assim, mostra uma variação para mais, de 50,1%, no índice do custo de
vida brasileiro, no mesmo período. Essa mesma tabela apresentada por Oliver
Onady174 informa uma alteração de 184,1% no custo de vida brasileiro, no período que
compreende a minha pesquisa, ou seja de 1926 a 1947. Elaborei a tabela abaixo,
incorporando os índices de custo de vida no Brasil apresentado por Onady, para que
possamos visualizar aproximadamente as alterações ocorridas nesse período de estudo.
São dados que podem não refletir rigorosamente a situação específica da cidade de São
Paulo, mas que mostra as alterações significativas dos índices de preços nesse período
da minha pesquisa.
173 ARAÚJO, Ângela M. C. Condições de vida e tratablho dos trabalhadores urbanos na década de 30. Trabalho
apresentado na 34ª Reunião Anual da SBPC, Campinas-SP, 7 a 14 de julho de 1982 (mimeo).
174 OLIVEIRA, Onady. A inflação brasileira (1820 – 1958), Rio de Janeiro, 1960, página 25.
167
Tabela de variação do custo de vida: 1926 a 1947
ANO INDICE VARIAÇÃO
PERCENTUAL
1926 100 -
1927 103 + 2,7
1928 101 - 1,5
1929 100 - 0,7
1930 91 - 9,2
1931 88 - 3,3
1932 88 -
1933 88 -
1934 94 + 7,4
1935 99 + 5,2
1936 113 + 14,6
1937 122 + 7,8
1938 127 + 4,0
1939 130 + 2,7
1940 136 + 4,9
1941 151 + 10,9
1942 169 + 12,0
1943 194 + 14,9
1944 247 + 27,3
1945 288 + 16,7
1946 336 + 16,5
1947 409 + 21,8
A tabela aponta uma estabilização e decrescimento no índice do custo de vida,
ocorrido no período entre 1928 e 1932, o que poderia corresponder à recessão
influenciada pela chamada crise mundial de 1929: mostra também um crescimento
relativamente moderado desde 1925 até o ano de 1940, quando houve uma variação de
apenas 36% aumento do custo de vida no Brasil. Entretanto, o aumento do custo de
vida acelera entre os anos de 1941 e 1947, certamente como efeito da segunda guerra
mundial, quando mostra uma alteração positiva de cerca de 200% no custo de vida
brasileiro. Assim, de 1925 a 1947, o custo de vida no Brasil teria tido um aumento de
cerca de 300%.
Infelizmente as fichas não nos informam as variações salariais dos trabalhadores
durante os anos, não sendo possível, portanto, verificar se os salários dos operários
também foram alterados, acompanhando os índices do custo de vida, ou de inflação do
período. Além do mais, há uma significativa variação salarial entre operários que
168
exercem a mesma função, dificultando ainda mais os cálculos que nos levassem a
resultados seguros. Porém, de fato, os salários de admissão indicam uma certa
permanência nos valores nominais até inícios da década de 1940. Ou seja, se os
salários nominais permanecem no mesmo nível durante tanto tempo, supomos uma
perda do poder de compra desses salários, corroídos pela inflação.
No entanto, Warren Dean sugere que:
Outras fontes, incluindo Simonsen, assinalaram que os salários reais permaneceram no
mesmo nível entre 1920 e 1940... 175
Baseado-se nos estudos de Maria Hermínia Tavares, Zélia Silva176 constata que:
Os salários nominais nesse estado [de São Paulo], em 1934, estão abaixo da média em
1929. A trajetória do salário real não se distancia muito do período percorrido pelo
salário nominal. Entre 1928 e 1932, o salário real dos trabalhadores fabris apresenta uma
sensível deterioração do seu poder de compra, situação que se inverte em 1933 com a
elevação de 22,4% de seu índice em relação a 1928. No ano seguinte, esse índice volta a
cair, mantendo-se um pouco acima do índice de 1928, fato que, no máximo, nos leva a
concluir sobre a tendência à recuperação dos salários.
A negociação individual dos salários
Os historiadores que se preocuparam em quantificar em dados a situação da
classe operária brasileira, fazem alusão à dificuldade em se buscar parâmetros
salariais que permitam extrair conclusões gerais sobre as condições de vida da
heterogênea classe operária brasileira. A variedade de valores nominais de salários
entre as categorias e entre grupos (menores, mulheres) de trabalhadores é tão
175 DEAN, Warren, op. cit. p. 118.
176 SILVA, Zélia , op. cit., p. 37.
169
diversificada, que torna difícil os cálculos que validem seguramente certas
generalizações. Para Zélia Silva177,
As pesquisas sobre o período que partem de outros pressupostos (e que discutem os
salários) afirmam que os critérios usados pelos empresários para a fixação dos salários,
até 1930, eram tão variados que seria praticamente impossível um estudo mais rigoroso,
por falta desses elementos básicos.
Também Decca Guzzo178 se ressente dessa dificuldade:
Torna-se extremamente difícil precisar salários mensais para o conjunto do operariado
masculino da capital, dadas as diferenças salariais entre as diferentes categorias
profissionais e considerando que nem todos os operários trabalhavam sob o regime de
oito horas diárias, principalmente no final da década de 20.
Ângela Araújo constata a heterogeneidade do mercado de trabalho na primeira
metade da década de 30 e confirma:
São marcantes as diferenças salariais, tanto de região para região e entre capital e
interior, quanto entre os ramos ou mesmo no interior de uma mesma categoria179.
Pois bem, o meu estudo de caso prova que essa diferenciação não se apresenta
apenas entre grupos e categorias de trabalhadores. Dentro da mesma empresa, praticase
uma verdadeira “salada” de salários para operários registrados com a mesma
função, dificultando, inclusive, a possibilidade estabelecermos uma lógica. Na mesma
empresa, há trabalhadores que tem seu salário estipulado por mês, há aqueles que
recebem por empreitada, como os carregadores de vagão, mas a grande maioria tem
seu salário estipulado por hora.
177 SILVA, Zélia. Op. cit. p. 21.
178 DECCA, M. A. G. op. cit. p. 21.
179 ARAÚJO, Ângela M.C., Condições de vida e trabalho..., op. cit.
170
O senhor Armando Piazza, paulista, admitido com 31 anos de idade em 21 de
outubro de 1933, registrado como “eletricista”, foi contratado pelo salário de 1$900
réis por hora de trabalho. Um ano depois, exatamente em 31.11.1934, o espanhol
Joaquim Correa da Silva, de 43 anos, casado, com 5 filhos, foi contratado pela
empresa para exercer a mesma profissão de “eletricista”, só que com o salário de
1$500,00 réis por hora.
O russo Antonio Mezeika, de 38 anos de idade, casado, pai de 3 filhos,
mecânico de profissão, foi contratado em 16 de julho de 1932, para receber um salário
de 1$900,00 réis por hora. O mineiro Agostinho Nunes Netto, casado, com 2 filhos, foi
contratado no dia 17 de dezembro do mesmo ano, para exercer a mesma função, mas
não teve a mesma sorte, pois receberia um salário de 1$600,00 réis por hora, 16%
menor que o do Russo.
Quais critérios a fábrica estabeleceu para contratar esses quatro operários por
salários diferenciados? O quadro abaixo mostra que esse fenômeno não se restringiu
aos casos dos Senhores Mozeika, Piazza, Netto e Silva, mas que se trata de uma
política da empresa de cimento:
171
Diferenciação salarial nas diferentes funções
PROFISSÃO 1929 1933 1936 1937
“Carpinteiro”
1.600,00
1.400,00
1.500,00
1.600,00
900,00
1.000,00
1.700,00
1.700,00
1.600,00
1.600,00
1.700,00
1.700,00
1.600,00
1.700,00
1.700,00
1.700,00
1.700,00
1.600,00
1.700,00
1.700,00
1931 1933 1936 1943
“Mecânico”
1.800,00
900,00
1.800,00
1.900,00
1.500,00
1.600,00
1.100,00
1.600,00
1.400,00
1.600,00
1.700,00
900,00
1.400,00
1.700,00
1.700,00
1.600,00
2,38
1,90
1,90
1929 1933
“Trabalhador” 1.000,00
1.400,00
900,00
1.000,00
1933 1934 1936 1944
“Servente” 900,00
1.000,00
1.100,00
1.000,00
900,00
1.000,00
1,65
1,38
1927 1933 1937 1943
“Pedreiro”
1.700,00
1.500,00
1.500,00
1.400,00
1.800,00
1.200,00
1.500,00
1.200,00
1.500,00
1.500,00
1.500,00
1.500,00
1.400,00
1,65
1932 1933 1934 1947
“Eletricista”
1.600,00
1.300,00
1.200,00
1.900,00
1.900,00
1.700,00
1.100,00
1.200,00
1.500,00
4,50
7,50
3,50
172
Ou seja, a variação de salários é bastante grande dentro de uma mesma função
registrada na ficha dos trabalhadores. A variedade é bem maior entre os trabalhadores
qualificados.
Não encontrei comentários sobre esse tipo de fenômeno na bibliografia
pesquisada no campo da história e da sociologia, então, recorri aos especialistas em
Direito do Trabalho.
O que isso pode significar? Aparentemente trata-se de uma política que leva à
risca os princípios liberais que individualiza ao máximo os contratos de trabalho. Cada
contratação é uma “negociação” diferente. Esse fenômeno expõe uma daquelas
contradições no regime político pós 1930, que coloca em dificuldade aqueles que
tratam do Direito.
Um dos princípios básicos a guiar o intervencionismo estatal em uma República,
teoricamente, seria exatamente o de garantir a todos os indivíduos daquela sociedade,
o princípio da igualdade jurídica. É justamente nesse princípio mais geral que se
baseiam os juristas ao sentenciar o enunciado do “salário igual para trabalho igual”.
A noção de Direito Coletivo certamente orientava a equipe do Governo Vargas
que era responsável pela proposição e estabelecimento das regras a regulamentar as
relações de trabalho. Já na primeira equipe a compor o “Ministério da Revolução”,
encontram-se antigos socialistas como Evaristo de Morais, Joaquim Pimenta e
Agripino Nazareth. Então, a primeira lei, nesse sentido, veio carregada daquele matiz
nacionalizante típico dos primeiros momentos do Governo Vargas. Assim, o Decreto
n° 20.291, de 12/08/1931, regulamenta que,
Quando num mesmo estabelecimento ou empresa exercerem funções idênticas brasileiros
e estrangeiros, os vencimentos ou salários daqueles não poderão, em hipótese alguma, ser
inferiores aos destes180.
180 DAMASCENO, Fernando Américo Veiga, Equiparação salarial, São Paulo, LTr,, 1980.
173
Porém, no nosso caso em estudo, percebemos que a diferenciação não distingue
exatamente trabalhadores nacionais e estrangeiros. Observando alguns casos, como
dos carpinteiros e dos pedreiros, cheguei a achar que havia uma espécie de critério que
favorecia a mão-de-obra estrangeira, devido a várias coincidências em que os salários
mais altos cabiam a eles, em detrimento dos brasileiros. Porém, as discrepâncias são
muitas e elas aparecem em diversas funções, não parecendo haver critérios para
favorecimento de grupos em particular. Não obstante os estrangeiros encontrarem-se
melhor colocado no quadro geral da fábrica (já nos referimos a esse assunto), isso não
é fenômeno específico da empresa em estudo, ou seja, não parece ser fruto exatamente
dessas “negociações” individuais. Ademais, já vimos também que, com o passar dos
anos na década de 1930, o percentual de trabalhadores “nacionais” tende a crescer
cada vez mais.
Entretanto, sem sombra de dúvidas que esse fenômeno incomodava aos operários
da CBCPP. Prova disso aparece consubstanciada em correspondência enviada pelo
sindicato ao DET, do ano de 1935, onde a entidade de trabalhadores denuncia a
empresa por desrespeito ao Decreto 20.291 de 1931,
O qual instituio a lei de Nacionalização do Trabalho. São duas as cláusulas em disacordo.
A primeira refere-se ao artigo 5° que diz: Brasileiros e Extrangeiros exercendo funcções
idênticas, os vencimentos, ou salários, não poderão em hypotese alguma, ser inferior aos
destes; Entretanto, diverços Extrangeiros, com as mesmas funções, estão percebendo
salários superiores, aos dos Brasieleiros...
Não creio que o teor desse texto demonstre alimente uma postura antiestrangeira,
ou nacionalista, dos sindicalistas. Conforme poderemos perceber no
próximo capítulo, onde analisaremos a atuação sindical dos trabalhadores em questão,
trata-se de uma das estratégias utilizadas para enfrentar as disparidades na empresa,
aproveitando-se das leis existentes. Além do mais, como afirmamos acima,
percebemos vários casos de estrangeiros recebendo menores salários que os
trabalhadores nacionais.
174
Essa questão era tão candente na CBCPP, que em dois únicos documentos em
que aparece uma pauta de reivindicações organizada, a questão da equiparação se
destaca. Quando os operários da empresa Beneducci entram em greve, no ano de 1934,
a principal reivindicação é justamente a equiparação salarial em relação aos
trabalhadores da CBCPP. No mesmo ano, os trabalhadores da CBCPP também enviam
uma pauta de reivindicações aos patrões, onde a equiparação aparece com destaque em
três dos nove itens (os grifos são meus):
1. Producção, equiparação aos mais elevados salários, dos demais, operários na Secção, e
augmento, sobre os melhores salários de 30%.
2. Turma da Linha, equiparação nos presentes salários e augmento de 20%, abrangendo
todas as turmas.
3. Trabalhadores das manobras, equiparação com o que tem maior salário.
Em 1939, um novo Decreto confirma, basicamente, o mesmo teor do Decreto de
1931, porém, faz ponderações que leva em conta o princípio de proporcionalidade,
como tempo de serviço, por exemplo. Também o artigo 461 da CLT referenda o
princípio da igualdade de salário para quem executa a mesma função, sendo que, o
parágrafo primeiro ambiciona definir o que seria considerado como “trabalho igual”.
Essas leis são provas de que o problema existia e gerava tensões entre as classes,
levando o Estado a exercer a sua “função mediadora”. Porém, sabemos que a
legislação, por si só, não é capaz de garantir o cumprimento de um veredicto, quando
este contraria os interesses de uma classe com poderes efetivos, como é o caso da
burguesia, que, como dona dos meios de produção, insiste em exercer os seu direito de
contratação e negociação com o trabalhador.
Se, por exemplo, um industrial contrata um trabalhador, isto é um assunto privado entre
as partes contratantes, e o contrato é a expressão do consenso entre ambas: aquele
concordou em pagar um salário por um trabalho estipulado; este concordou em trabalhar
sob determinadas condições.
175
Por isso, no mundo do liberalismo ortodoxo, é inconcebível a existência de uma
legislação especial do trabalho, mesmo que seja apenas para regulamentar o contrato181.
Nas circunstâncias colocadas após 1930, havia uma tendência à instauração de
contratos coletivos que garantissem uma maior homogeneização no trato das relações
trabalhistas. Esse é um dos aspectos da formulação de conceitos como o de salário
mínimo, Consolidação da Leis do Trabalho e Justiça do Trabalho, por exemplo. É
também seguindo esses princípios que se estabelece em leis o limite da jornada, as
férias coletivas, o sistema previdenciário, etc. Entretanto, mesmo a CLT, que entra em
vigor a partir de 1943, ela não consegue obrigar o patrão a pagar salário igual a
trabalho igual. À noção de salário profissional, que era reivindicado por setores dos
trabalhadores, contrapõe-se a instituição do salário mínimo. Ou seja, por mais que se
tenha regulamentado, a ação do Estado não tem alcance para constranger a liberdade
de contratação pelo patrão, a ponto de impor um valor de salário por função. No nosso
caso pesquisado, pelo visto, prevaleceu o direito à liberdade de contratação pelo
patrão, em detrimento da noção de igualdade perante a lei.
Ainda em 1952, esse debate ainda se desenrolava nos tribunais do país, a ponto
de ser sancionada mais uma Lei, que agora levava o número 1723, que “introduz
modificações substanciais no dispositivo consolidado”, proibindo diferenças salariais
para trabalhos iguais, “traçando as condições de validade do quadro de carreiras”,
conforme informa Damasceno, na obra citada, página 27.
Ainda assim, essa questão do “salário igual para trabalho igual” demonstrou
tocar numa contradição aparentemente insolúvel, pois as ambigüidades legadas nos
textos das leis serviam de brechas para que os patrões abusassem do seu sagrado
direito de negociar o contrato de trabalho no plano individual com os seus operários,
quando da admissão.
Ora, se o “salário” já era um conceito muito abrangente para os juristas, que se
debatiam em definir se outros benefícios seriam ou não componentes dessa definição,
181 MUNAKATA, Kazumi, op. cit. p. 13.
176
muito mais difícil seria garantir a definição do que seria o “trabalho igual”. Assim,
nesses trabalhos da área do Direito, vimos que para se definir um trabalho como igual
seria necessário que estivessem preenchidos vários requisitos: identidade funcional,
identidade produtiva, identidade qualitativa, identidade de empregador e identidade de
tempo de serviço. Ou seja, como os próprios juristas reconhecem,
Estes requisitos, definidos pela lei de forma imprecisa, dificultam a aplicação do
preceito182.
O resultado dessa “divisão” interna certamente visa o fracionamento de interesse
entre os trabalhadores, buscando dificultar os traços identitários entre os operários. É
bom lembrar que nesse caso não há gênero diferenciado para “justificar” a variedade,
pois o fenômeno incide num ambiente totalmente masculino, como o da fábrica. É
certo que há menores trabalhando, cujo papel não é apenas o de rebaixamento de
salário, mas até mesmo de garantia de reprodução das relações sociais dominantes.
Há, assim, um incentivo à maior produtividade individual, que têm como contrapartida
também a distribuição individualizada dos méritos na produção. Trata-se da mesma
lógica da diversificação por categorias, conforme cita Zélia Silva183:
Na opinião da autora [Maria Alice Rosa Ribeiro] a política salarial aplicada pela
burguesia, definida a partir de tal critério [larga direferenciação], tinha por objetivo o
estabelecimento do controle político sobre o proletariado no interior da unidade fabril.
182 Cf. DAMASCENO, Fernando A. V., op. cit., p. 30. Além deste, consultei outros autores da área do Direito,
que expõem vários casos de jurisprudências que mostram a persistência e complexidade do fenômeno: Mozart
Victor Russomano, Comentários à Consolidadção das leis do trabalho, volume II, Rio de Janeiro, Ed. José
Konfino, 1952; José Serson, Curso de rotinas trabalhistas, São Paulo, LTr, 1978, p. 406.
183 SILVA, Zélia L. op. cit. p. 21
177
Faixas salariais e grupos de trabalhadores
Vejamos agora, em que medida a análise do quadro salarial confirmará as
distinções entre os grupos, conforme vimos anteriormente.
Tabela de salários de ingresso por faixas
FAIXAS ENTRE (réis) TOTAL Negros Brancos Mulatos Nacionais Estrangeiros
500,00 e 800,00
26
(2,3%)
07
(4%)
14
(2%)
1
(1%)
24
(2,7%)
02
(1%)
900,00 e 1.125,00
812
(73,6%)
136
(80%)
431
(67%)
93
(84,5%)
683
(78%)
129
(56,6%)
1.200,00 e 1.500,00
155
(14,0%)
21
(12,4%)
111
(17%)
09
(8%)
105
(12%)
50
(21,9%)
1.600,00 e 2.000,00
79
(7,2%)
04
(2,3%)
64
(10%)
07
(6%)
49
(6%)
30
(13,3%)
2.200,00 e 3.250,00
21
(2,0%)
01
(0%)
16
(2,5%)
-
10
(1,0%)
11
(5%)
3.500,00 a 4.500.00
07
(0,06%)
-
06
(1%)
-
04
(0,3%)
03
(1,1%)
De 5.000, 00 acima
03
(0,03%)
-
02
(0%)
- -
03
(1,1%)
TOTAL 1103 169 644 110 875 228
A primeira informação mais visível neste quadro é a concentração de
trabalhadores representados nas faixas salariais situada entre 900,00 e 1.500,00 réis.
São, simplesmente, 88% dos trabalhadores nessa faixa.
O desfavorecimento dos negros e “mulatos” em relação aos brancos também
aparece confirmado nessa tabela, onde 80% aparecem na segunda faixa com os
menores salários e 92,4% não passam da terceira faixa. Não há representação de
178
negros nas faixas acima de 2.000,00 réis! No caso dos “mulatos” a situação é ainda um
pouco pior, como pode ser visto.
No caso dos estrangeiros e nacionais, a desigualdade aparece explicitamente
nas faixas salariais mais altas, onde o predomínio estrangeiro é visível.
Ainda assim, procurei exercitar mais cruzamentos de dados a fim de deixar bem
claro o tamanho e o tipo da diferenciação entre os grupos. Desta forma, eu somei todos
os salários dos trabalhadores até 1942 e cheguei ao resultado de 1.252.750 réis (Um
conto, duzentos e cinqüenta e dois mil, setecentos e cinqüenta réis).
Desse total de salários, coube aos estrangeiros o percentual de 24,8% e aos
nacionais 75,2%.
Ou seja, os 20,5% de estrangeiros abocanham quase 25% da massa salarial da
fábrica, confirmando a diferença em favor destes, em detrimento dos nacionais.
Já o somatório dos salários totais das fichas com especificação de cor equivale a
1.065.200,00 (Um conto, sessenta e cinco mil e duzentos réis). Desse total de salários,
coube aos brancos o percentual de 72,9%, aos negros o percentual de 16,3% e aos
mulatos, o percentual de 10,8% do total dos salários.
Ou seja, os brancos que representam 69,7% do total de trabalhadores,
aparecem aqui super representados em termos de massa salarial, com 72,9%.
Se observarmos bem, essa diferença não é tão grande. Uma das explicações
plausíveis para essa menor diferenciação da participação dos negros na massa salarial
é a seguinte: os negros se concentram bem mais no grupo de trabalhadores não
qualificados. Nesse grupo percebemos que a variação, ou disparidade entre os salários
é bem menor do que a variação no grupo dos Qualificados. Sendo assim, o percentual
da massa salarial que cabe aos negros fica nos níveis próximos ao percentual de
representação no total de trabalhadores.
Já que nesse item sobre salários estamos a buscar estabelecer a miríade de
diferenciação entre os trabalhadores, não poderemos deixar de comentar, ainda que
brevemente, sobre os extratos mais graduados que apareceram nas fichas, para
obtermos mais parâmetros comparativos naquele período.
179
Por exemplo, um desenhista, ou um químico recebia na empresa, 800 mil réis
mensais, quase duas vezes e meia a média salarial de um operário especializado. O Dr.
Pacheco, que era o médico contratado pela empresa para atender aos trabalhadores,
recebia 800 mil réis mensais, sendo que, ele visitava a região de Perus e Água Fria
apenas duas vezes por semana.
Um engenheiro-chefe recebia 1.700.000 réis por mês e o Superintendente das
Pedreiras limitava o teto salarial na empresa, recebendo a quantia mensal de 3.250.000
réis, isso mesmo, três milhões, duzentos e cinqüenta mil réis, cerca de 10 vezes o
salário de um operário especializado.
No estatuto de fundação da Companhia Brasileira de Cimento Portland,
registrado em 18/08/1924, aparecem descritos os proventos a serem recebidos pela
diretoria:
Diretores receberão 500 mil réis por “meeting” quinzenal. (...) E receberão mais:
Presidente, 22.500$000 (vinte e dois contos e quinhentos mil réis) por ano. Vicepresidente,
11.000$000 (onze contos de réis) e gerente, 96:000$000 (noventa e seis
contos de réis) por ano, que pode ser feito em prestações mensais184.
Finalizo esta longa descrição sobre os salários dos trabalhadores da Companhia
de cimento, apresentando um documento inusitado, que não traz assinatura, não é
datado, e não tem texto dissertativo, que parece incompleto, mas que, para mim, é
cheio de sentido185:
184 Lembrando que 1 conto de réis equivale a um milhão de réis.
185 Este documento integra uma pasta de “Correspondências expedidas 1934”. A letra e o tipo do papel sugerem
um documento integrado ao corpo de documentos pesquisados.
180
O teor das anotações sugere que o(s) autor(es) estaria(m) a realizar cálculos que
verificariam o tamanho da exploração salarial imposto pela empresa. De onde o autor
extraiu esse número que chamou de “Orçamento anual da Companhia B.C.P.? Numa
perspectiva intuitivamente socialista, podemos supor em um rateio igualitarista, onde
caberia uma quantia mensal a cada trabalhador. Certamente que faltam “zeros” no
número do “orçamento”, posto que, com 4$200 mensais, mal daria para cada
trabalhador pagar a sua mensalidade do sindicato. De qualquer forma, fica o registro
curioso que poderia ganhar mais consistência caso houvesse outras fontes para cruzar
com esta.
Por fim, só no crepúsculo deste capítulo nos chega uma informação,
diretamente do ano de 1934, de que o total de trabalhadores da Companhia Brasileira
de Cimento Portland, é de 820.
181
Acidentes de trabalho
Introdução
Quando iniciei a pesquisa com as fichas dos trabalhadores, não tinha em mente
fazer anotações sobre o campo no verso da ficha que registrava acidentes de trabalho.
Entretanto, em uma determinada altura dos trabalhos, comecei a me impressionar com
a freqüência de registros naquele campo superior das fichas, então, passei a ler as
anotações: “esmagamento no dedo médio”, “forte traumatismo”, “corpo estranho no
olho esquerdo”, “queimadura no olho esquerdo com ácido”, e outras tantas descrições.
O meu instinto de curiosidade deu lugar ao senso quantificador do pesquisador e,
então, resolvi realizar o levantamento deste campo da ficha, pois fazia parte dos
propósitos desta dissertação verificar dados que expusessem sobre a saúde do
trabalhador. Cheguei a números surpreendentes e até chocantes!
Os dados que ora revelo são muito limitados e podem nos levar a informações
ainda muito parciais sobre o drama que envolve os acidentes de trabalho. Certamente
eles não traduzem com profundidade todo o ciclo do trauma causado por um acidente
no processo de produção. Nossas informações são muito exíguas para que pudéssemos
reconstituir as circunstâncias que favoreciam aos acidentes no local de trabalho; não
sabemos quais as condições de mobilização e atitudes das pessoas do entorno do
acidentado no momento do evento; não dispomos de informações sobre as seqüelas
causadas; não conhecemos o processo de atendimento e nem sobre afastamentos;
também não dispomos de informações sobre indenizações. Não sabemos, ainda, da
política da empresa no que diz respeito à prevenção de acidentes.
Ainda assim, mesmo tomando consciência desses limites, creio que as
informações colhidas e aqui expostas, se constituem em ponto de partida para
pesquisas mais aprofundadas e mais precisas. Afinal de contas, raros são os trabalhos
historiográficos que fazem análises a partir de dados dessa natureza. Além do mais, as
informações colhidas são muito importantes para compor o quadro sobre as condições
182
de vida naquele espaço e tempo, e fala desse aspecto de violência que muitas vezes é
desconsiderado nos trabalhos que têm como foco a relação capital versus trabalho.
Breves comentários sobre a legislação em vigor
Antes da exposição dos números referentes a esse assunto, convém proceder
uma breve contextualização acerca de alguns aspectos da legislação sobre o tema.
Podemos começar pelo questionamento dessa terminologia de “acidente de trabalho”,
que guarda em si aspectos ideológico geradores de discursos diferenciados em áreas
diversas: literatura jurídica, médica, publicações oficiais e jornalísticas, expondo
diversas contradições que envolvem interesses que se opõem, como o de empresários e
de trabalhadores.
A primeira lei brasileira que conceitua e regulamenta o acidente de trabalho, foi
gestada no interior do Departamento Estadual do Trabalho de São Paulo, desde
meados da década de 1910, e é editada sob a forma de Decreto em 1919:
A Lei Federal n° 3.724 estabelece a obrigatoriedade de indenizar o operário acidentado
no trabalho, instituindo no Brasil (...) a doutrina do risco profissional. (...) O risco
profissional vem reverter, portanto, uma situação na qual “o operário no Brasil só tinha
direito à indenização quando lograva provar a culpa do patrão”, substituindo a noção
tradicional de responsabilidade186.
Segundo essa legislação editada em 1919, é considerado acidente de trabalho:
“O produzido por causa súbita, violenta, externa e involuntária no exercício do trabalho,
determinando lesões corporais ou perturbações funcionais, que constituem a causa única
da morte ou perda total, ou parcial, permanente ou temporária, da capacidade para o
trabalho”, definição que se complementa no artigo 2°: “O acidente, nas condições do
186 BOLSONARO, Esmeralda Blanco, Higiene e Segurança do Trabalho em São Paulo nas primeiras décadas
republicanas: em torno da definição de acidente de trabalho. Revista de História, n° 127-128, Universidade de
São Paulo – USP, 1992-93, p. 166.
183
artigo anterior, quando ocorrido pelo fato do trabalho ou durante este, obriga o patrão a
pagar uma indenização ao operário ou a sua família, excetuando-se apenas os casos de
força maior ou dolo da própria vítima ou de estranhos” (Bolsonaro, 1992, p.166).
Não cabe nos propósitos desta dissertação entrar no debate acerca dos aspectos
conceituais e jurídicos que envolvem o acidente de trabalho. Apenas chamo a atenção
para os termos por mim grifados, que não têm outra função senão restringir o alcance
da lei. Sobre isso, valho-me de comentários extraídos do citado texto de Bolsonaro:
Como conciliar o acidente, que etmologicamente, lexicamente, é imprevisto, é fortuito,
ocorre a caso, com o acidente de trabalho, que é constante, fatal, necessário, dados os
perigos inerentes ao trabalho e a psicologia da falibilidade humana, em uma palavra, dado
o risco profissional?”. O caráter de “imprevisão” do acidente do trabalho é portanto
dispensável (...) uma vez que tanto o mesmo é “previsto” (...) que um direito novo se
impôs, reparador ao dano que ele causa” (Bolsonaro, 1992, p.175)
Bolsonaro traz à luz outro importante aspecto a que diz respeito à relação entre
acidente de trabalho e doença profissional:
No caso da doença profissional, a legislação se fragiliza no momento em que a define
como “moléstia contraída exclusivamente pelo exercício do trabalho”, um critério através
do qual (...) já não haverá doenças profissionais”, porque restrito em demasia. (...) nem a
fadiga, a estafa aguda e crônica pelo exercício do trabalho, pode ser considerada, só por
si, obra dele: o mesmo trabalho cansa a um e deixa indene a outro operário; contam para
isto o estado anterior e circunstâncias próprias concorrentes com a causalidade principal.
É imaginária a noção de única causa única, exclusiva de um fenômeno. (Bolsonaro, 1992,
p.175).
O debate jurídico nessa época girava em torno da conceituação e definição do
acidente de trabalho. Seguramente, por detrás desse debate estavam os setores
patronais organizados para salvaguardar os seus interesses. Como não poderia deixar
184
de ser, essa lei carrega todas as ambigüidades de uma conjuntura onde os conflitos
sociais e trabalhistas estão em processo de acirramento. À crescente reivindicação dos
trabalhadores, corresponde uma resistência patronal a qualquer tipo de medida que
encareça o custo da força de trabalho, que venha a interferir negativamente nos seus
lucros.
Assim, o CIB (Centro Industrial do Brasil), realiza estudos sobre acidentes de
trabalho, deliberando, em assembléia, qual o dispositivo legal mais adequado aos
interesses patronais. Tais estudos abordam basicamente duas ordens de questões. Em
primeiro lugar, busca-se retirar da questão de acidentes de trabalho qualquer conotação
que desabone os patrões: se os acidentes ocorrem, isto não se deve à negligência dos
patrões, mas ao risco profissional, inerente a qualquer trabalho. Em segundo lugar, tratase
de impedir a participação operária na fiscalização e controle dos acidentes. (...) A
solução é a delegação dos problemas decorrentes de acidentes no trabalho às companhias
seguradoras187.
É o mesmo Kazumi Munakata quem tece uma crítica mordaz a uma tabela que
compõe um cálculo para o caso de indenização prevista na lei:
Não é preciso dizer que a lei aprovada atende perfeitamente às observações levantadas
pelo CIB. O regulamento desta mesma lei inclui definições de “acidente de trabalho”,
“patrão”, “operário”, etc., as condições para funcionamento das companhias seguradoras,
os procedimentos legais em caso de acidentes e até mesmo uma insólita tabela de cálculo
das indenizações, em que se relaciona cada parte do corpo humano (olho esquerdo, todo o
membro superior, etc.) à porcentagem correspondente de indenização em caso de sua
incapacidade.
Tal tabela não representa apenas a morbidez delirante da burocracia que trata o corpo do
operário como num açougue. Mais do que isso, ela é uma tentativa de retirar do
trabalhador a capacidade de controlar e de avaliar o seu próprio corpo. (Munakata, 1982,
p. 35).
187 MUNAKATA, Kazumi, op. cit. p. 34.
185
Em 1934, já em um contexto político distinto, um novo texto altera o conteúdo
da lei, com a edição do Decreto n° 24.637:
Considera-se acidente de trabalho para os fins da presente lei, toda lesão corporal, perturbação
funcional, ou doenças produzidas pelo exercício do trabalho ou em conseqüência dele, que
determine a morte ou suspensão ou limitação permanente ou temporária, total ou parcial, da
capacidade do trabalho188.
Percebe-se que na conceituação de acidente de trabalho, pelo menos duas
mudanças significativas: primeiro a supressão do termo “causa única” e da
subtaneidade do acontecimento. Essa lei distingue ainda o acidente de trabalho da
doença profissional.
Feitas essas observações, passemos à exposição dos dados revelados pelas
fichas.
O que as fichas nos revelam
Nesse item, o universo analisado corresponde ao total 1.166 fichas, que são
aquelas mais recentes, pois o modelo de ficha anterior não contém campo para essa
informação sobre acidente de trabalho, o que demonstra a falta de registro, controle e
fiscalização, característica dos anos precedentes ao período do governo Vargas.
A ficha sucessora, implantada em meados da década de 1930, já contém campo
específico para essas anotações, o que já revela as cobranças e fiscalização por parte
do Estado. O curioso, é que um terceiro modelo de ficha que sucede a esta traz um
campo bem maior, ocupando quase um terço do verso da ficha, para as anotações de
acidentes de trabalho, o que, por si só já se configura num dado que reflete a
importância dessa ocorrência, conforme podemos conferir nas imagens.
188 Seminário de legislação social: trabalhos de 1941 e 1942. Universidade de São Paulo – Faculdade de Direito,
Imprensa Oficial do Estado, São Paulo, 1944.
186
O anexo 3 traz as imagens desses três modelos de fichas utilizados pela
Companhia de cimento e que serviram de base para o levantamento dos dados aqui
expostos.
É notável que os registros de acidentes são feitos, praticamente, a partir do ano
de 1936, sendo poucos os registros do ano anterior. Sendo assim, para efeito de
comparação, o universo de fichas que formam a base que serve de referência para
chegarmos a um percentual relativo de ocorrências será de 737 fichas, que registram as
admissões ocorridas a partir do ano de 1936.
Em 343 fichas aparece o registro de acidentes de trabalho, entre as 1166 que
trazem o campo para esse fim. Isso quer dizer que, pelo menos, cerca de 30% dos
trabalhadores sofreram algum tipo de acidente no ambiente de produção.
No entanto, esse quadro se torna mais dramático se levarmos em consideração
que apenas só a partir de 1936 é que se iniciam os registros de acidentes. Ou seja, se
analisarmos apenas as fichas dos trabalhadores admitidos de 1936 até 1947, teríamos a
surpreendente taxa de 46,5% de operários acidentados!
Porém, os dados não param por aí. Em muitas das fichas aparece mais de uma
ocorrência de acidente: no total, foram 539 ocorrências em pouco mais de dez anos
pesquisados. Se tomarmos apenas as fichas de 1936 a 1947 e dividirmos a quantidade
de acidentes pelo número de operários contratados, isso daria uma incrível média 73%
de operários acidentados.
Não há dúvidas que, para os dias de hoje, essa taxa é realmente magnífica,
mesmo sabendo-se ser o Brasil atual o país onde mais ocorrem acidentes de trabalho
no mundo. O fato era reconhecido por patrões e pelo próprio governo, que chegou a
editar várias normas legislando sobre o acidente de trabalho desde a década de 1910.
Mesmo naqueles discursos que visam propagandear o setor cimenteiro,
vendendo uma imagem positiva das empresas, a questão dos acidentes aparece. No
documento intitulado “A indústria de cimento no Brasil: histórico e característicos da
indústria de cimento portland”, editado no Boletim ABCP, n° 43, do ano de 1940,
texto que faz uma espécie de balanço do setor, exatamente numa seção em que o autor
187
tece comentários elogiosos sobre a “importância da indústria brasileira de cimento sob
o ponto de vista social”, há a seguinte afirmação:
Aos seus operários dá essa indústria não apenas um salário nitidamente superior ao
comum [o que já foi refutado acima], mas cuidadosa assistência contra acidentes no
trabalho, já reduzidos a um mínimo.
Algumas fábricas que disso tiveram necessidade realizaram vultosos trabalhos de
saneamento, que vieram beneficiar vastas zonas contíguas e numerosa população. (p.254)
Essa propaganda, mesmo negando, confirma a existência relevante do
problema.
Reproduzo abaixo um bilhete de 1934, que encontrei “desgarrado” em uma das
pastas de documentos do sindicato de trabalhadores, que serve como uma assinatura da
empresa admitindo o alto índice de acidente de trabalho:
A assinatura que aparece no texto é do superintendente das Pedreiras, o Sr. John
Ulic Burke, que, ao produzir o texto, acaba por responsabilizar a falta de instrução dos
operários, como causa dos acidentes.
Dos 343 operários que sofreram algum tipo de acidente, 75 são estrangeiros e
268 são brasileiros. O percentual de 21,9% de estrangeiros acidentados aproxima-se
bem do percentual de representação destes, que é de 20,6%, durante todo o período
pesquisado. Ocorre que os acidentes são registrados a partir de uma época em que esse
AVISO AOS SNRS. FEITORES E ENCARREGADOS DO SERVIÇO
PARA EVITAR A CONTINUAÇÃO DOS CONSTANTES ACCIDENTES QUE SE TEM
VERIFICADO ULTIMAMENTE COM OS NOSSOS OPERARIOS, PEDIMOS AOS
SNRS. FEITORES E ENCARREGADOS DO SERVIÇO O FAVOR DE TOMAREM A
DEVIDA PRECAUÇÃO, ENSINANDO-LHES A MELHOR MANEIRA COMO
TRABALHAR.
É CONVENIENTE QUE O OPERARIO RECEBA AS NECESSARIAS INSTRUCÇÕES
ANTES DE ENTRAR EM SERVIÇO, EVITANDO, DEST’ARTE, A REPETIÇÃO DE
ACCIDENTES.
Água Fria, 03 de janeiro de 1934.
O Superintendente
188
percentual não passa de 7,3% de estrangeiros. Ou seja, de 1936 a 1947, foram
admitidos apenas 54 trabalhadores estrangeiros. Então, a participação dos
trabalhadores não brasileiros era significativamente menor do que aqueles 20,6%.
Levando em conta essa ponderação, poderíamos, então, inferir que os acidentes
incidiram relativamente com muito maior freqüência no grupo de estrangeiros. Como
as informações que temos são muito limitadas e isso não nos permite fazer qualquer
afirmação segura, contentemos, pois, com indagações do tipo: parte desses acidentes
estaria relacionada com dificuldades de comunicação no ambiente de trabalho? Essa
hipótese, ainda que plausível, precisa ser ponderada com a informação já vista de que
os estrangeiros quando ingressaram na fábrica já tinham alguns anos residindo no
Brasil.
Anteriormente já pusemos em questão o mito de que os trabalhadores
estrangeiros seriam mais habilitados ao trabalho industrial do que os nacionais. Da
mesma forma, por coerência, não poderíamos supor que esse maior índice de acidentes
entre os estrangeiros refletisse uma relativa maior habilidade no trabalho dos operários
nacionais.
Um outro dado que podemos utilizar contra essa hipótese da relação dos
acidentes com a destreza e a comunicação, é o seguinte: os acidentes ocorreram em
trabalhadores que tinham, em média, 4,1 anos de serviço.
Vejamos, agora, qual a relação entre a ocorrência de acidentes e qualificação:
Acidentados X qualificação
Freqüência Percentual
Cargo de Chefia 5 1,5
Não Qualificado 237 69,1
Qualificado 73 21,3
Semi-qualificado 27 7,9
TOTAL 342 100,0
189
O percentual de representação dos trabalhadores não qualificados é de 69,4% do
total, número quase idêntico ao que aparece na tabela. Ou seja, isso nos permite
afirmar que não há qualquer relação entre operários acidentados e trabalho não
qualificado.
Os acidentes incidem, relativamente, com um pouco mais de freqüência entre os
operários qualificados, que, no total representa 20,5% dos trabalhadores. Nada de
significativo ou surpreendente, pois, os serviços de manutenção e reparos de máquinas
e equipamentos põem os trabalhadores em permanente risco. Esse índice, talvez possa
explicar parcialmente o porquê do maior número relativo de estrangeiros acidentados,
posto que, como já vimos, são estes aqueles que ocupam a maior parte das funções
qualificadas na fábrica.
Já aqueles que exercem os considerados trabalhos semi-qualificados, aparecem
sub-representados na tabela, já que a participação percentual desse grupo é de 8,6% do
total de trabalhadores, enquanto que na tabela de acidentados eles aparecem como
responsáveis de 7,9% dos acidentes.
Vimos no segundo capítulo desta dissertação, que o documento de 1966,
assinado por Romeu Pretz sobre acidentes de trabalho em pedreiras, ainda que
refletindo um ponto de vista patronal, não deixa de revelar o alto grau de
periculosidade dos serviços executados naquele setor. Esse dado pode servir de
parâmetro para avaliarmos também os riscos de acidentes na fábrica de cimento.
Dados comparativos de acidentes entre fábrica e pedreiras
LOCAL
Número de operários
acidentados
Percentual de acidentados Representação do grupo no
total
Pedreiras 158 46,2 35,8%
Fábrica 143 41,8 45,2%
Outros 41 12,0 19,0%
342 100,0 100,0
A tabela não deixa dúvidas: a incidência de acidentes de trabalho é bem
superior nas pedreiras do que na fábrica. Pelos dados, quase metade dos 35,8%
190
daqueles que trabalham nas pedreiras sofreu algum tipo de acidente. Vimos acima, que
é grande a probabilidade de que esses que aparecem sob a rubrica “outros” sejam
trabalhadores da fábrica. Se assim considerarmos, teríamos que, 64,2% dos
trabalhadores atuam na fábrica mas o percentual de acidentes seria de 53,8% em
relação ao total.
Acidentes e tempo de serviço
Na tabela abaixo estão apresentados os resultados correspondentes à subtração
entre a data da primeira ocorrência do acidente e a data de admissão do trabalhador.
Chegamos ao resultado que nos informa que 72 acidentados tinham menos de um ano
na empresa e 123 tinham mais que cinco anos.
Acidentes versus tempo de serviço
Tempo de serviço Freqüência % Representatividade do grupo
Menos que 1 ano 72 21,7 28,5%
Entre 1 e 2 anos 42 12,7 10,3%
Entre 2 e 5 anos 94 28,4 12,9%
Mais que 5 anos 123 37,2 48,1%
TOTAL 331 100,0 100,0
Os dados nos revelam ainda que, em termos absolutos, a maior parte dos
acidentes aconteceu com os trabalhadores com mais de 5 anos de permanência na
empresa e que, em 65,6% dos casos os trabalhadores tinham mais que dois anos no
emprego. Isso mostra que os acidentes não estavam diretamente relacionados com grau
de habilidade do trabalhador no serviço. Segundo os cálculos, a média de tempo de
permanência na empresa quando acontece o primeiro acidente era de 4,7 anos.
O pernambucano Joaquim de Oliveira tinha 34 anos de idade, mas estava no seu
sétimo dia de emprego na fábrica de cimento, quando sofreu o acidente “na vista
esquerda”. Ele havia sido registrado como “trabalhador”. Já o senhor José Correia
191
Leite, paulista de Parnaíba, tinha 58 anos de idade quando foi registrado o seu primeiro
acidente, ele que já estava há quase 19 anos na empresa. Ele sofreu uma “contusão na
região do joelho esquerdo e escoriações no 1/3 inferior da perna esquerda e pé do
mesmo lado”, conforme diz sua ficha. Provavelmente não tenha sido este o seu
primeiro acidente, no entanto, foi o primeiro a ser registrado. Esses são os casos
extremos de tempo de serviço que aparece nas estatísticas.
O ano de 1936 é aquele que aparece com maior freqüência nos registros: 146.
No ano de 1944 foram registrados 105 acidentes. Nos demais anos temos uma média
de 29 acidentes anuais. Com as parcas informações que temos, não nos é possível
buscar explicações seguras para esse fato. Os estudiosos de acidentes de trabalho são
categóricos em vincular as ocorrências à extensão e intensidade de trabalho, à falhas
no sistema de segurança do trabalho e falta de treinamento adequado ao trabalhador.
Tipos de acidentes e regiões atingidas
A fim de facilitar uma melhor visualização dos acidentes, eu transformei as
descrições das ocorrências em códigos, e, assim, procedi alguns agrupamentos de
casos.
Em “Ferimentos”, por exemplo, estão agrupadas ocorrências com de gravidades
bem variadas:“corpo estranho nos olhos”, “esmagamentos”, ferimentos contusos,
perfusos, corto-contusos, “calo arruinado”, “arrancamento” de unha ou de olho,
“irritação nos olhos causado por cimento”, etc.
No item “Traumatismo” estão incluídos casos de contusões, lesões e torsões.
O item “outros” refere-se a casos em que tive dificuldade de definição. Há,
inclusive, uma ocorrência descrita como “faleceu”.
Com relação à região, agrupei em “crânio” os acidentes que atingiram qualquer
parte da cabeça, exceto os olhos, ou seja, nariz, boca e cabeça.
Considerei “tronco” qualquer região do corpo que não a cabeça e os membros:
“ferimentos na espinha”, contusão nas nádegas, na clavícula, etc.
192
Feitas essas observações iniciais, apresento em uma tabela os dados agrupados:
Características dos acidentes
Quant. %
FERIMENTOS 319 61,5
COMPRESSÃO 28 5,6
FRATURA 10 2,0
QUEIMADURA 41 8,0
TRAUMATISMO 87 16,8
DISTENSÃO 26 5,0
OUTROS 08 1,1
TOTAL 519 100,0
CRÂNIO 17 3,3
OLHOS 78 15,0
MÃOS 171 33,0
BRAÇOS 32 6,2
PÉS 78 15,0
PERNAS 54 10,4
TRONCO 75 14,4
T
I
P
O
R
E
G
I
Ã
O
OUTROS 14 2,7
TOTAL 519 100,0
Infelizmente eu não disponho de dados de outras empresas para fazer qualquer
tipo de comparação. O que podemos destacar é o alto índice de acidentes que atingem
as mãos dos operários. Se agregarmos a esses os acidentes que incidiram nos braços,
veremos que 40% das ocorrências atingiram os membros superiores. Não nos
surpreende, pois são as mãos as mais importantes “ferramentas” do corpo, em situação
de produção. A habilidade e flexibilidade desse “equipamento corpóreo”, sem dúvidas,
fazem diferença numa circunstância de baixo desenvolvimento das forças produtivas,
em que as operações manuais são tão essenciais.
193
Mas também os pés e os olhos foram regiões bastante afetadas. Certamente que
esse tipo de acidente era mais freqüente nos trabalhos nas pedreiras.
Esses dados confirmam o diagnóstico apresentado no nosso capítulo II, que se
fundamenta em estudos feitos em 1966 em pedreiras da Cimento Itaú, mostrando,
portanto, a persistência da situação:
Somemos a isto, os imprensamentos e esfoladuras das mãos e pernas nas arestas
ponteagudas das rochas; as partículas esvoaçantes, com sérios riscos para os olhos”
(Pretz).
Como riscos de acidentes, podemos mencionar as queimaduras e os corpos estranhos nos
olhos, como os principais” (Pretz).
Este mesmo poder abrasivo do cimento afeta as mãos dos operários que trabalham no
carregamento dos vagões ou caminhões. Suas mãos apresentam-se ressecadas, com
rachaduras nas palmas e dobras dos dedos e as marcas digitais quase não aparecem nas
suas extremidades.
A situação da saúde desses trabalhadores também deveria ser bastante precária.
Não precisaremos fazer muito esforço imaginativo para prever as condições de
trabalho brutalizantes nas extrações de pedra, numa época em que os recursos
tecnológicos não ultrapassavam muito os limites da máquina humana. Um documento
datado de 14/04/1933189, que trata que registra episódio onde 48 operários faltam ao
trabalho, deixa entrever um pouco a situação. No relatório interno apresentado pelo
feitor aos superiores, ao fazer as contas que chegam ao número de faltosos, ele deixa
escapar que dentre os 212 operários das pedreiras, 35 encontravam-se “em licença, no
seguro ou doentes”, ou seja, o enorme percentual de 17% da força de trabalho afastada
por motivos de saúde. Mesmo na fábrica, a situação não diferia muito. Encontramos
dois bilhetes feitos pela chefia da empresa que solicita providências para evitar o
“grande número de acidentes de trabalho”. O depoimento de Sr. Nestor Rocha, exmaquinista
na ferrovia, transcrito no relatório do DPH, confirma essa visão:
189 Documento que pertence ao acervo do Sindicato de trabalhadores em Perus.
194
“É serviço muito perigoso ali, né. Na fábrica e na locomotiva acontecia muito acidente.
Tinha gente dormindo na estrada, quantas vezes o nêgo cortava a perna, matava...”.
Sr. Augusto, após 38 anos de trabalho nas pedreiras e na fábrica, “lamenta as
vistas e a audição comprometidas e lembra dos companheiros mortos precocemente ou
daqueles que após dois ou três meses já adoeciam dos pulmões”.
Os depoimentos falam também do rigoroso controle do trabalho:
(...) ali a gente não tinha, não havia liberdade, ali era trabalhar, trabalhar e só...depois que
a gente entrava na fábrica tinha que esperar o apito já dentro da seção...
Eles (os canadenses) eram severos. Com eles...o empregado tinha que andar
direito...pisou na bola eles castigavam mesmo, com suspensão...Porque nessa época
agente ainda não tinha uma legislação...até então, a gente podia bater ou apanhar do
encarregado (Sr. Augusto).
A entrevista feita pelos técnicos do DPH a Vitor Domingos Bago e João Breno,
em 24/10/1991, revela de forma dramática os riscos constantes aos quase estavam
submetidos os operários da fábrica de cimento. O Sr. Bago entrou na fábrica de
cimento em 1949. Depois de citar alguns acidentes que ele presenciou, os dois fizeram
um relato em forma de diálogo mórbido, que revela mais uma das faces trágicas na
vida coletiva dos operários da Cimento Perus:
Vitor Bago: - Thomas foi queimadura, o finado Aparecido que trabalhava na turma de
pedreiros, ele caiu na cinza quente do forno 2, não é Carlos? Teve um acidente muito
feio, aquele foi mortal mesmo; o Sr. Miguel Monteiro ele estava com capote de tempo de
frio e o capote enroscou na engrenagem. Ele teve tanta coragem que puxou o braço e só
ficou o ombro. E o acidente mais feio foi do irmão do Augusto Silva: ele foi passar por
baixo do vagão, uma parte da roda passou no pescoço e outra parte passou no pé. E um
outro Sr. Miguel, que é irmão do Sr. Faustino, estourou o cabo de aço que estava puxando
o vagão e a máquina que encostou (...) não agüentou e o cabo de aço estourou e jogou ele
dentro do britador que mói pedra. Achamos só um pedaço dele.
195
João Breno: - Outro que morreu dentro do silo de cimento, o marido da Chica...que pena!
Vitor Bago: - O Zé da Bronca, irmão do Matheus, asfixia. Ele estava limpando o silo (...)
desabou aquela parede e ele morreu asfixiado.
Vitor Bago: - Os moinhos, não sei com quantas toneladas (...) e um senhor fazendo
limpeza embaixo do moinho e o moinho virou e um parafuso de duas polegadas (...)
pegou na cabeça do homem e matou na hora (Bago).
Vitor Bago: - É, houve outro acidente feio também, com o finado Euri, da parte elétrica
(...) Um ajudante mandou ele subir em uma torre de não sei quantos mil volts
3 mil volts
João Breno: -O cara ajudante e eletricista, e os técnicos ficam aqui em baixo e mandam
os ajudantes mexer em 3 mil volts, torrou o cara.
Vitor Bago: - Ao cair, bateu a cabeça em uma pedra, rapaz novo, podia ter uns 21, 22
anos. O Milton foi o anel do secador tombou em cima dele, morreu na assistência médica.
João Breno lembra ainda de uma explosão no forno 4, que também fora citada
por vários outros entrevistados e que, segundo os depoimentos, feriu mais de 40
operários, sem causar morte, no entanto. A conclusão do João Breno é enfática:
O que dá para entender é que dentro da fábrica era perigoso.
Esse é um panorama de um período que extrapola o intervalo de tempo por mim
pesquisado, mas que serve como referência. Afinal, a instituição da Comissão Interna
para Prevenção de Acidente de Trabalho (CIPA), só fora instalada na fábrica na
década de 50, e “na marra”, como diz o João Breno nessa entrevista. Ou seja, podemos
supor que antes disso, a situação seria ainda mais agravada, devido aos mais escassos
recursos políticos e jurídicos acessíveis aos trabalhadores no interior da fábrica.
Os redatores da Revista do Trabalho, de 1932, página 15, querendo destacar a
benevolência da Companhia que dispensa aos “seus operários todo conforto possível”,
expõe o relato do médico da empresa, que, não obstante mostrar o serviço de
atendimento de saúde da fábrica, acaba por revelar números que corroboram para
mostrar o alto índice de periculosidade do trabalho na empresa:
196
Da eficácia de tais serviços, dizem bem alto os dados abaixo que transcrevemos de um
relatório apresentado pelo médico da fábrica, dr. J. B. Rodrigues Pacheco:
Consultas, 1.836; visitas, 322; exames, 164; visitas em S. Paulo, 189; visitas extra, 8;
pequenas operações, 62; curativos, 3033; injeções hipodérmicas, 1894; injeções
endovenosas, 91; partos, 11; recusados, 8; óbitos, 6; vacinas anti-variolicas, 468; vacinas
anti-tificas, 468.
A fonte não nos informa em qual período de tempo esse atendimento foi
prestado. Porém, se esses números resultam de 322 visitas feitas e, conforme
informação extraída da documentação, o médico visitava a região 2 vezes por semana,
poderíamos pensar que esses 3.033 curativos feitos bem como os demais atendimentos
tenham ocorrido em um período próximo a três anos. Se assim for, teríamos a
ocorrência mais de três curativos por dia.
Na mesma página da citada Revista há um parágrafo que afirma o seguinte:
Os mais rigorosos preceitos de higiene são observados em todas as dependências da
grande fábrica...
Porém, logo abaixo dessa “propaganda” aparece imagem sugestiva do setor de
sacaria da fábrica:
Aspecto do setor de ensacamento da fábrica, no início da década de 1930 (21)
197
Na foto original da revista os trabalhadores aparecem nitidamente cobertos de pó
de cimento e, operando a máquina, temos a impressão de um garoto que está sentado e
com os pés descalços.
A poluição no ambiente do entorno da fábrica
A questão da poluição causada pela fábrica é um problema de grandes
proporções que persiste desde sua abertura. São vários os depoimentos que revelam
principalmente os prejuízos para a saúde dos moradores e até ao cultivo de plantas e
hortaliças na região, devido à emissão do pó de cimento. O problema persiste até a
década de 1980, quando a surgiu rumores de que a fábrica estaria ameaçada de
fechamento devido à poluição. A fábrica chegou a ser chamada de “fábrica de
tuberculosos” (Diário Popular de 22.03.1973). Nesse período a população promoveu
aquela que é relatada como a “1ª caminhada histórico-ecológica da cidade de São
Paulo”, conforme indica o citado Parecer Técnico do DPH.
A situação, portanto, não deveria ser muito diferente na década de 1930, e talvez
até fosse agravada devido à maior precariedade do sistema de saúde que atendia a
população à época. É certo que os sindicatos, no decorrer da década de 1930, vão
assumindo uma característica menos político-organizativa, incorporando cada vez mais
um papel assistencialista. Porém, podemos supor também que a precariedade da
assistência de saúde, aliada a uma realidade de insalubridade e riscos constantes na
empresa, explique parcialmente o porquê o sindicato empenhou-se tanto, desde o final
de 1934, para implantar um serviço de saúde para o trabalhador. A pasta de
documentos que restou de 1935 é quase que toda composta pelo testemunho da busca
por esse projeto que fora elaborado aproveitando a sugestão do decreto 19.770, que
permite a criação de serviço médico e hospitalar pelo sindicato e de uma imensidão de
guias de atendimento aos sindicalizados. A direção do sindicato faz enorme esforço
para viabilizar a criação de uma assistência médica para os operários, chegando a
198
reclamar junto ao DET, o descaso da CBCPP em relação à questão. A direção sindical
achava o projeto tão importante, que via nele a forma de reverter a crescente perda de
sócios que ocorria na base.
Diante do exposto, ainda que sejam necessárias mais pesquisas e cruzamentos de
fontes para que obtenhamos resultados mais conclusivos, não resta dúvida de que os
dados apresentados revelam altos índices de acidentes nos ambientes da Companhia de
Cimento, sob quaisquer perspectivas.
199
Imagem do início da década de 1930. No primeiro plano, vemos as casas de trabalhadores em uma das
vilas da fábrica. Ao fundo, a fábrica. Produção e reprodução se confundem em Perus (22)
A vida fora do espaço da produção e o perfil da
primeira organização sindical em Perus
Capítulo IV
200
Introdução
Os cruzamentos dos dados extraídos das fichas apresentados no capítulo anterior
já apontaram, em linhas gerais, alguns condicionantes da existência e reprodução da
vida naquele espaço produzido pelo capital na região de Perus-Água Fria.
Neste último capítulo procuro “pincelar” alguns traços do ambiente fora da
produção (mas vinculado à ela), e que garante a reprodução da força de trabalho.
Apresento também, um esboço da forma organizativa encontrada pelos trabalhadores
no enfrentamento do esquema de exploração do trabalho empreendido pela Companhia
Brasileira de Cimento Portland Perus.
A tarefa não é simples, pois esta história está articulada a partir de relatos de
memória e de uma seleção/ordenação de documentos disponíveis no Sindicato dos
Trabalhadores nas Indústrias de Cimento Cal e Gesso do Estado de São Paulo. O
desafio maior acontece porque esses documentos não são panfletos, jornais ou textos
ordenados, produzidos pelos trabalhadores. Ao contrário, na sua grande maioria, são
correspondências em forma de bilhetes que circulam entre companheiros de diretoria e
correspondências enviadas a personalidades, às empresas e aos órgãos do Estado
voltados para o controle sindical. Além disso, tem mais dois aspectos
problematizadores ou restritivos. As fontes pesquisadas compõem uma pasta de
“correspondências” emitidas no período. Portanto, elas, muitas vezes, são cópias
autênticas de correspondências, outras vezes não sabemos se se tratam de rascunhos, ou
mesmo se as correspondências foram efetivadas como tal.
Os céticos poderão logo dizer que as minhas fontes não são válidas, já que não
revelarão verdades e fatos acontecidos efetivamente. Eu respondo que isso dependerá
do olhar a ser lançado sobre o documento e, principalmente, que tipo de “verdade” ou
“acontecimento de fato” se busca. Não estou exatamente atrás de constituir a “história
verdadeira” das primeiras direções sindicais em estudo. Mas, a partir de vestígios
201
verdadeiros, posso construir uma história verossímil a partir da ótica do trabalho. Os
documentos, por mais explícitos e detalhados, nunca falam a “verdade verdadeira”
sobre uma história que jamais será reconstituída na sua integridade.
Como o meu propósito é começar a traçar o perfil político-ideológico da
organização em estudo, talvez os bilhetes, os rascunhos e as correspondências não
concretizadas se aproximem muito mais das reais intenções e da prática dos dirigentes,
do que alguns panfletos feitos com toda consciência possível.
Retomando e resumindo, apresento uma documentação ainda inédita para o
grande público, que é articulada por mim, e que tem o objetivo de tentar reconstituir a
história do sindicato nos primeiros anos - 1933 a 1936, tendo a análise da conjuntura
da época como pano de fundo. Ou seja, neste item, não abordarei integralmente o
mesmo período histórico analisado até aqui (1925-1947), porque isso demandaria um
acréscimo considerável na pesquisa e na escrita.
A vida fora da fábrica
Ao que parece, não havia muita diferença entre morar em Perus ou em Água
Fria nos idos de 20 e 30 do século passado. As memórias de trabalhadores, que na
infância viveram próximos às pedreiras, como Zeca Costa Pinto, o Sr. Jovino, e o
Zelão indicam que naquele tempo ali era “tudo mato”. Da mesma forma se expressa o
Sr. Augusto190 quando se refere a Perus dos anos 30. Segundo Zelão, Perus naquela
época não tinha muito mais casas do que Água Fria.
Não precisamos de muito esforço imaginativo para compor na mente as
dificuldades em se levar a vida em um ambiente desprovido de recursos materiais frente
às intempéries da natureza e às desigualdades causadas pela sociedade de classes.
Não obstante esses aspectos previsíveis, mas pouco lembrados, todos os
entrevistados, quando se referem àqueles tempos, o fazem de forma saudosista. Esse
190 As referência aqui feitas à foram extraídas das entrevistas feitas pelo DPH, já citadas.
202
traço é flagrado pelos pesquisadores do DPH, que destacam que “a vida ali emerge
como um oásis de tranqüilidade e bem estar”:
(...) lugar muito bom de morar. Tinha de tudo (D. Noêmia)191
Se na infância eles não contavam com os equipamentos públicos urbanos como
forma de lazer, por outro lado, nas suas memórias aparecem, com freqüência, as
investidas pelas matas, que eram fartas à época, a caça a passarinhos e outros animais,
banhos nos rios, pescaria, etc. Bandas de músicas e o futebol eram também opções de
diversão, mesmo com as bolas de meia produzidas por eles, conforme lembrou o Zeca.
Quando adolescentes, eles freqüentavam os bailes que eram freqüentes em
Perus, mas também em Caieiras, para onde eles também se deslocavam em busca de
opções. O Sr. Augusto fala que antes da chegada do cinema em Perus, era àquela
localidade vizinha que eles recorriam. Já o Sr. José (Zelão) conta com emoção a alegria
garantida quando chegava no Gato Preto e Água Fria, o rolo de filme que era projetado
à noite, numa parede, ao ar livre para todos. Filmes de “Carlitos”, “O Gordo e o
magro” garantiam o riso de todos.
Os depoimentos revelam a existência de espaço com intensa sociabilidade:
(...) naquele tempo era bom, era como se fosse uma família só, muito unidos, a gente
vivia muito bem lá (D. Sílvia Cruz)
(...) era uma família só...era uma família unida...a coisa mais linda. (Sr. Estéffan)
a vida era muito melhor porque a gente tinha liberdade, porta aberta, roupa no varal à
noite, horta sem ninguém pegar. (D. Zenaide)
havia um campo de futebol maravilhoso que era um lazer pro pessoal, tanto para as
mulheres que vinham assistir, quanto para os homens que vinham se distrair. Tínhamos o
cinema...Depois tudo foi decaindo, decaindo... (D. Zenaide)
191 Conforme Parecer de Tombamento..., p. 24.
203
O Clube Esportivo Portland era espaço de convívio para reuniões, jogos de
baralho, bocha, ping-pong ou os famosos bailes que cumpriam todo um calendário de
festas.192
O forte traço de relações afetivas com esses espaços, talvez se justifique pelas
características de um bairro que era afastado, onde as pessoas ainda mantinham
relações “face a face”, de tipo comunitárias. Talvez possamos perceber os traços de
um cotidiano que pertence ao presente, quando se destaca contrastes com um passado
lembrado. Ou seja, ressaltam-se detalhes aparentemente simples como “liberdade”,
“roupa no varal” à noite, “porta aberta”, justamente para contrastar com a violência dos
dias de hoje. Talvez se ressalte a “união” como contraposição da quebra dos laços
comunitários, que à época ainda existiam ali, com um bairro que hoje conta com cerca
de cento e quarenta mil habitantes!
O parecer técnico do DPH tenta explicar essa visão positiva do passado pelas
características peculiares engendradas pelas relações de trabalho da fábrica na época:
Na lembrança dos trabalhadores que vivenciaram as décadas iniciais de seu funcionamento
é recorrente a referência a inúmeros 'benefícios sociais' tais como moradias para operários,
assistência médica, cooperativa, açougue, entre outros193.
Ou seja, a empresa garantia alguns benefícios que não eram muito comuns numa
época em que os direitos sociais não eram garantidos por legislação, e aqueles que
eram, não tinham garantia de aplicação.
Essa idealização de um passado melhor é também flagrada por Siqueira. Na
memória dos trabalhadores da Fábrica de cimento, que, com a passagem da empresa do
grupo canadense para a administração J.J. Abdalla em 1951, teria havido uma ruptura:
As mudanças foram radicais. Quando tratam das opiniões dos operários, todos os textos
consultados são unânimes em apontar que, no seio da mão-de-obra empregada, ficou a
192 Cf. Processo de Tombamento da área da CBCPP. Parecer Técnico da STLP-STCT, de agosto de 1992.
193 Idem, Ibdem.
204
lembrança do período canadense que, se não como um paraíso, pelo menos marcado por
um estilo de gestão mais próximo de se aceitar como correto e coerente194.
A dissertação de Élcio Siqueira faz ponderações interessantes, que, ao contrário,
demonstram haver mais continuidades do que ruptura entre as administrações, e que
ambas se pautaram pela lógica capitalista de acumulação, ainda que tenham feito
escolhas diferentes de políticas no uso dos fatores econômicos da fábrica.
De fato, malgrado as boas lembranças, não era fácil viver em um lugar com
Perus-Água Fria. O sistema de transporte era absolutamente precário, pois a rigidez do
traçado ferroviário não podia dar conta das muitas necessidades de locomoção
ziguezagueada bairro adentro. Sem outros meios de transporte, o recurso era o andar a
pé...e muito.
Ainda sem equipamentos de higiene e saúde no bairro, dependia-se de visitas
periódicas e fixas de médicos à região, que atendia aos trabalhadores das pedreiras e
das fábricas. Segundo o Sr. Augusto, Dr. Pacheco, o médico da fábrica não atendia
apenas aos operários da empresa, mas também a população local:
A Assistência Médica dos trabalhadores da Perus era o Pronto Socorro da região. Era
aberta à população, o médico vinha quarta e sábado195.
Aqueles que portavam doenças mais graves requeriam o esforço de transporte
até à estação ferroviária mais próxima, aguardar os parcos horários de viagens até São
Paulo e depender da fraca infra-estrutura pública de saúde no centro paulistano da
época. O valor pago por uma pensão de 2ª classe em São Paulo custava 600 mil réis por
mês196, ou seja, valor próximo a dois salários mensais de um operário especializado da
fábrica.
194SIQUEIRA, Élcio, op. cit.
195 Depoimento prestado ao DPH em 30/04/1991.
196 Conforme aparece em documento datado de 05/08/1936.
205
Em caso de morte em Água Fria, o defunto era levado em caixão sobre as costas
até Santana do Parnaíba, segundo o senhor Jovino. Depois foi construído um cemitério
na Lavrinha, onde hoje é o centro de Cajamar.
E o que fazer naquele povoado quando alguém é afligido por alguma doença
mental?
Pois temos também um sócio daqui de Água Fria nas mesmas condições entregue a
Polícia. (...) Peço-te que não te aflijas pois os Dementes entregues a Polícia não serão
maltratados, nem tão pouco illiminadas suas existencias, pois está na alçada das mesmas
mante-las, não só os referidos, como Dezenas que lá se encontram197.
Essa foi a solução dada pelo presidente do sindicato, Manoel Marçal, em 12 de
outubro de 1936, quando um sócio pediu auxílio de internação à entidade.
O trabalho também se faz presente nas memórias sobre a infância dessas
pessoas, seja vendendo bananas em Perus, como fazia o Zelão, seja carregando água e
cortando lenha para o consumo da casa, como contam o Zeca e o Sr. Jovino, moradores
de Água Fria e Gato Preto. Alguns deles também iniciaram cedo no trabalho que era
explorado pelas fábricas de cal da região, como é o caso do Sr. Jovino e Zelão, que
trabalhavam no setor de ensacamento da caieira. O Sr. Zacarias largou a escola com
oito anos de idade para “puxar lenha”:
Nós puxava lenha aqui pra Companhia de cimento, que não tinha gás, então nós
encostava a lenha na beira da linha...198
O Sr. Augusto relata que com 16 anos de idade trabalhava 10 horas por dia
limpando calçamento e depois ia vender sorvete. Dos 14 aos 16 anos, Vitor Bago199,
nascido em 1926, já trabalhava em serviços de mecânica em Perus e também estudava
no SENAI, em São Paulo.
197 Documento compõe o acervo do Sindicato em Perus.
198 Entrevista ao DPH em 14/05/1991.
199 Entrevista ao DPH em 24/10/1991.
206
Na verdade, o trabalho na infância e na adolescência, nessa época, nas condições
do lugar, era a regra.
De fato, era difícil distinguir os momentos de produção e reprodução na vida
desses trabalhadores e trabalhadoras de Perus e Água Fria. Afinal, a CBCP seguiu o
exemplo de tantas outras, de fora e de dentro do Brasil, que envolveram em um mesmo
espaço as dimensões de produção e reprodução da vida dos seus trabalhadores.
Desde os seus primeiros momentos da fábrica, os proprietários trataram de
construir alojamentos para abrigarem os operários e também aqueles que trabalhavam
nas suas pedreiras, em Água Fria e Gato Preto. A rigor, os primórdios do processo de
expansão urbana de Perus e região estão intimamente vinculados com a fábrica de
cimento.
Assim, os primeiros núcleos urbanos ganham força a partir da implantação da
fábrica. Esse fenômeno deixa marcas peculiares na relação capital-trabalho:
...deparamo-nos em situações em que a própria fábrica é proprietária das casas em
que mora seus operários. (...) Com efeito, o fato de certas indústrias fornecerem
casas a seus operários, em contrapartida seja de um aluguel geralmente descontado
do salário, seja de obrigações econômicas e não-econômicas geralmente não
explicitadas em contrato, mas incorporadas ao comportamento dos operários como
parte das regras do jogo, significa uma interferência direta e visível – mesmo do
ponto de vista do processo de produção capitalista distinto do ponto de vista da
reprodução – da administração da fábrica sobre o consumo individual dos
trabalhadores200.
No mesmo sentido, Marisa Varanda T. Carpintéro cita a opinião Margateh Rago
sobre a construção de vilas operárias:
200 LOPES, José Sérgio Leite, Fábrica e Vila Operária: considerações sobre uma forma de servidão burguesa.
In: Mudança Social no Nordeste, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979, p. 42.
O complexo no qual se insere a Fábrica de Cimento Perus traz as notáveis características da organização social
de “vila-operária”, cujas especificidades são descritas e analisadas no estudo de caso feito por José Sérgio Leite
Lopes, numa obra considerada imprescindível para quem estuda o tema e que, certamente ajudará a entender o
fenômeno por mim estudado. Ver: LOPES, José Sérgio Leite, A tecelagem dos conflitos de classe na cidade das
chaminés. São Paulo/Brasília, Marco Zero/UnB, CNPq, 1988.
207
Através da imposição das Vilas Operárias, vilas primitivas e disciplinares, estabelece-se
todo um código de condutas que persegue o trabalhador em todos os espaços de
sociabilidade, do trabalho ao lazer201.
Carpintéro destaca ainda as vantagens econômicas para os empresários, citando
texto do arquiteto Nabil Bondouki:
[...] as indústrias atuavam na construção de vilas da mesma forma que os investidores,
pois, não podendo expandir sua atividade produtiva pela não elasticidade do setor, viam
na aplicação de capital em casas um bom negócio, complementado pela possibilidade de
manter sob controle seus operários.
A CBCP, a exemplo de outras grandes indústrias da época, devido à necessidade
de atrair e manter oficiais qualificados e garantir um fluxo regular de mão de obra,
monta moradias com alguma infra-estrutura - água, esgotos, energia elétrica. Note-se
que a eletrificação era artigo de privilégio à época. Segundo o relatório do DPH, a luz
elétrica só foi instalada no bairro de Perus, em 1953, ou seja, mais de duas décadas
depois. Ainda segundo esse relatório,
As vilas operárias construídas pela Cia - Vila Triângulo, Portland e/ou Vila Nova -
procuravam garantir também a 'docilidade' do trabalhador com o regime de trabalho em
turnos ou com a prestação de serviços fora do seu horário de trabalho202.
O relatório do DPH chega a insinuar que, como os critérios de distribuição das
moradias não eram muito claros e que não havia habitação para todos, esse benefício
tinha um fim de conciliação com os trabalhadores.
Além de que "o fato de ter moradia era um peso na balança" (Sr. Estéffan).
201 Marisa Varandas Carpintéro, A Construção de um sonho..., p. 64.
202 Conforme Parecer de Tombamento, p. 18.
208
Essas moradias eram motivos de propaganda por parte dos empresários, pois,
como já se afirmou no primeiro capítulo desta, o usufruto da casa própria era
privilégio de poucos e os aluguéis que pesavam bastante no orçamento familiar, era
motivo de constantes reivindicações dos trabalhadores brasileiros do período.
A Revista do Trabalho203, de 1932, adotando o discurso dos empresários da
Companhia de cimento, nos traz a seguinte avaliação sobre as moradias subsidiadas aos
operários:
Essas casas, de cimento armado, muitas das quais cobertas com telhas também de
cimento, apresentam todo conforto moderno, e os seus alugueis são insignificantes...
Os fragmentos de história encontrados pelos documentos e depoimentos que
analisamos, parecem indicar situações precárias da existência dos trabalhadores
naquele lugar. Não obstante o benefício da moradia para uma parte dos operários,
garantido pela empresa, o documento do DPH204 nos mostra a precariedade das
construções, principalmente a destinada aos operários não qualificados como falta de
ventilação, de espaço, etc:
Observa-se que a partir das vistorias, entrevistas e textos publicados, aquelas moradias
apresentavam problemas em relação ao seu conforto ambiental, sendo abafadas no verão
e extremamente frias no inverno. A lage sem revestimento provocava este efeito,
agravado pelo ineficiente sistema de ventilação utilizado205.
Além do mais, em uma pauta de reivindicações elaborada pelo sindicato em
1934, representando os interesses dos operários da Fábrica, dois dos nove itens
referem-se a moradia:
203 Revista do Trabalho, op. cit. p. 15.
204 Este documento relata com detalhes os aspectos arquitetônicos dessa moradia de trabalhadores.
205 Parecer de Tombamento..., p. 93.
209
1. Fiscalização sanitária pela Junta de Hygiene desta companhia, nas habitações dos
operários.
2. Extinção dos alugueis de ranchos, onde não existe luz, e água potável.
Isso mostra que o benefício da moradia vem acompanhado de problemas muito
básicos e que, pelo teor da reivindicação, colocava em risco a saúde do trabalhador.
Para pensarmos, portanto, na vida fora da fábrica, não podemos abstrair esse
fator que é essencial e determinante na vida daqueles trabalhadores. As vilas operárias
significavam muito mais do que um ato de benevolência do capitalista que
supostamente almejaria o conforto dos seus operários. Em primeiro lugar, por tratar-se
de uma fábrica localizada próxima da sua fonte de matéria-prima e distante dos
equipamentos que compõem um centro urbano, serviria como uma forma de fixar os
trabalhadores próximos ao local de trabalho. Por outro lado, isso tinha como
decorrência, o exercício de um controle muito mais próximo, que extrapolava as
relações de trabalho e atingia as esferas da moradia e do consumo dos operários.
Morar em local de propriedade do patrão significaria estabelecer algum
sentimento de dívida e viver sob o constante olhar dos empregadores. Além de se
garantir as facilidades de locomoção ao ambiente de trabalho, evitando-se atrasos e
possibilitando a disponibilização mais freqüente do trabalhador, que poderia ser
convocado a trabalhar a qualquer hora.
Não resta dúvidas de que esse aspecto que combina a fábrica com a vila
operária, traz reflexos significativos no padrão de organização dos trabalhadores. Há
que se considerar as dificuldades em se organizar sindicatos, numa circunstância de
isolamento relativo, onde apenas uma grande empresa organiza o espaço de produção e
de moradia. Ali, a presença patronal é física e acompanha os vários ambientes dos
empregados, como foi dito.
Porém, há uma conjuntura política bem peculiar no Brasil de então, que compõe
outros elementos capazes de explicar o surgimento e manutenção do sindicato na
região de Perus.
210
Para que possamos inserir o sindicato de Perus em nossa história, tomo como
ponto de partida a chamada revolução de 30, pois, retomar a formação das grandes
concepções sindicais gestadas desde a década de dez, tornaria a nossa história um
novelo sem fim, ou melhor, sem começo.
Surge o sindicato
Vinte e seis de março de 1933 é um Domingo. Aproximadamente cem operários
se colocam na condição de representantes de “grande parte da classe dos operários
dos extratores de pedra”. Eles estão reunidos na Vila Operária, da Companhia
Brasileira de Cimento Portland Perus, provavelmente no bairro de Água Fria, no
município de Santana do Parnaíba.
Os operários estão ali reunidos para um ritual que a um só tempo é singular e
plural, do ponto de vista da história. Podemos destacar a singularidade desse ritual,
pelos nomes próprios que codificam indivíduos que existiram de fato, mas que, não
obstante os nomes, “vivem” no anonimato da história.
À centena de vidas humanas que ali compõem o cenário, daremos a simples
identidade de “operários”, posto que, não nos é possível relembrar os tantos nomes sob
os quais se esconderam as tantas histórias de suas vidas.
José Boaventura é o responsável pela abertura da assembléia. Antonio Ceciliano
Gonzaga, João Cândido, Realino da Costa Pinto, José Krauss, Osvaldo Barbosa e
Acyrio Banhara, são os membros da assembléia aos quais foram delegados os poderes
de constituir a mesa diretora.
Antonio Ceciliano Gonzaga, provavelmente por seus atributos de sociabilidade
(palavra, conhecimento, interação, função, cargo, etc.), é o escolhido para presidir a
mesa. Doravante ele será o responsável pela condução da assembléia, que tem como
211
finalidade primordial o “convencimento dos presentes” da importância de se proceder
ao ritual em conformidade com um decreto que é citado, o de número 19.770206.
Feitas as devidas exortações, é apresentado à centena de vidas presentes, um
estatuto já previamente elaborado, talvez em ambiente bem longe dali, em condições
muito adversas em relação àquela em que se realiza o evento. Item a item do estatuto é
lido, apreciado e, finalmente aprovado.
Fim do ritual e mais um sindicato é criado no Brasil.
Este fato encontra-se registrado em apenas uma folha amarelada e escrita à mão,
arquivada na sede do sindicato.
Fato ímpar que, como tudo na história, nunca mais se repetirá. Fato que ninguém
nunca mais conseguirá registrar com todos os seus matizes, seus cheiros, suas emoções
e nuanças. Fenômeno comum na história que, só naquele ano, se repetiu mais de uma
centena de vezes. A história do sindicato único-por-força-de-lei vivia o seu raiar,
paradoxalmente dando início à maior pulverização dos sindicatos na história do Brasil.
Ângela Araújo nos informa que, em decorrência do decreto 19.770, no início do
governo “revolucionário” liderado por Getúlio Vargas, entre 1932 e 1933, o número de
sindicatos oficiais no Brasil cresceu mais de 200%. Só em 1933, 144 sindicatos oficiais
foram reconhecidos no Brasil, 51 só em São Paulo. Isso representa um crescimento
vertiginoso se pensarmos que em 1931, em todo o Brasil, esse número era de 41, sendo
apenas 2 em São Paulo.
Portanto, o Sindicato dos Extratores de Pedras e Conexos de Água Fria surge em
meio a essa onda de constituição de entidades sindicais, favorecida pelo decreto
ministerial. Aliás, o ano de 1933 foi decisivo para a implementação do projeto
governamental, pois desde 1931 que o governo vinha tentando de todas as formas
quebrar a resistência de amplos setores do proletariado que se opunham à oficialização
dos sindicatos, principalmente no meio operário que já contava com alguma tradição de
206 Decreto editado em março de 1931, que define o papel e o tipo de relação que o Estado estabelecerá com os
sindicatos. Ele estabelece a intermediação do Ministério do Trabalho nas relações de trabalho, equipara
juridicamente as entidades de classe patronais e de trabalhadores, impõe a necessidade de reconhecimento pelo
Estado do estatuto do sindicato e estabelece outras diversas medidas de controle dos sindicatos pelo MTb.
212
organização e luta. A implementação do projeto governamental, no que se refere ao
sindicalismo, foi um processo longo e extremamente complexo, que obrigou o governo
a utilizar, simultânea e paulatinamente, medidas de concessão, negociação, cooptação e
intensa repressão sobre os trabalhadores207.
Os sindicatos ajudam a criar a “Constituinte Classista”, e vice-versa
A Ata da Assembléia Geral Extraordinária do Syndicato dos Operários em
Pedreiras, datada de 11 de junho de 1933 já nos traz informações importantes. Já
sabemos que o Sindicato tem sede e que seu endereço é na avenida João Pessoa nº 1,
em Água Fria, no município de Parnayba, e que o seu primeiro presidente não é outro
senão o nosso já conhecido Antonio Ceciliano Gonzaga, que agora, percebemos, não à
toa presidiu a primeira assembléia do Sindicato. Presidindo esta outra assembléia, o Sr.
Manuel Pinto da Silva, sendo os secretários João Moura e Joaquim de Campos. Esta
assembléia tem como assunto principal, a escolha do “Delegado eleitor que na Capital
Federal tenha que votar naquelles que representaram as classes operárias na futura
Constituinte...”. Essa eleição se daria por escrutínio secreto e, para o bom andamento,
os líderes recomendaram “aos cancoeiros que decem o seu voto mas que se lembrace
sempre do que recomenda o Decreto nº 22.696 de 11 de maio de 1933”, que era
justamente a lei que regulamentava o processo de escolha e instalação da Constituinte
de 1934.
Domingos Correia e Severino Jose da Silva foram escolhidos como auxiliares
escrutinadores, para a garantia da lisura do processo de votação. A ata informa que
foram 200 o número de votantes e que dois foram os concorrentes. Não tenho
informação de quantos operários pertenciam à base do sindicato àquela época, mas me
parece um número expressivo de participantes.
207 Optei por colocar em evidência o processo de constituição do sindicato de Perus, evitando o diálogo com a
bibliografia especializada, a fim de evitar a extensão desta dissertação. Há, porém, inúmeros trabalhos que tratam
dos sindicatos nesse período crucial para o sindicalismo brasileiro. Sobre esse aspecto do processo de
incorporação dos sindicatos ao Estado, destaco o livro de Ângela Araújo, Construindo o consentimento.
Corporativismo e trabalhadores nos anos 30. São Paulo, Scitta, 1998, e a tese de Maria Hermínia Tavares de
Almeida, Estado e classe trabalhadora no Brasil (1930-1945).Tese de Doutoramento/Unicamp, Campinas, 1978.
213
Antonio Gonzaga, que, como já sabemos, fora o primeiro presidente do
sindicato, era um dos concorrentes a delegado, porém, o vencedor foi o seu opositor e
também participante daquela primeira mesa da assembléia de fundação do sindicato,
Realino da Costa Pinto, que venceu o pleito com ótima margem, contabilizando 157
votos, contra 43 de Gonzaga. Documento posterior indica Realino como ocupante do
cargo de 1º secretário do Sindicato.
Não é possível, a partir da frieza de um documento “morto”, reconstituir o que
teria se desenrolado naquela assembléia, se foi algo mais ou menos acertado, ou se a
votação refletia um sindicato com disputa interna de representatividade, quiçá
representando concepções sindicais ou políticas de matizes bem diferentes. Esta última
possibilidade me parece plausível. Até aqui sabemos que o sindicato foi criado bem por
dentro dos limites impostos pela legislação, como nos indicam as exortações feitas
pelas lideranças nas assembléias. Porém, não podemos ainda inferir, precipitadamente,
que a primeira diretoria do sindicato represente uma visão una, afinada com o discurso
governamental. Mesmo porque, nesse período, o governo não tem uma voz uníssona no
que tange a questão trabalhista e sindical, posto que são várias as correntes que o
compõem.
Por outro lado, é a partir de 1933 que as correntes mais influentes da esquerda
começam a sentir os efeitos mais contundentes da política do governo que visava
desarmar o sindicalismo autônomo e combativo, fazendo com que elas comecem a
vacilar e buscar alternativas ao discurso que simplesmente negava a participação nos
sindicatos oficiais. Mas ainda é cedo para apontarmos para qualquer conclusão.
Voltemos ao resultado do escrutínio. Realino da Costa Pinto foi eleito e preenchia os
requisitos que estavam prescritos em documento, também elaborado à mão, anexo a
essa ata que dizia que “Para ser eleito é preciso:
- ser brasileiro nato;
- ter mais de vinte e cinco anos
- provar mais de dois anos de profissão”.
214
Os critérios já indicam os reflexos do controle sindical imposto pelas regras do
Ministério do Trabalho. Não esqueçamos que, antes das medidas do Governo Vargas,
os sindicatos eram livres e, portanto, a sua conduta não dizia respeito à qualquer tipo de
legislação específica. Entre essas regras, vemos, desde já, os limites à participação dos
estrangeiros, seguramente como forma de aplacar a atuação dos muitos militantes que
se destacaram na ação sindical em períodos anteriores.
Todos esses dados deveriam ser rapidamente comunicados ao Ministro do
Trabalho para oficializar a inscrição do delegado-eleitor, o que é feito pelo sindicato,
através de ofício datado de 19 de junho do mesmo ano.
Realino se credenciou para participar como delegado em um fórum que iria
escolher os deputados constituintes, representantes dos trabalhadores em indústria.
Segundo Ângela Castro Gomes208, essa constituinte, ao contrário do senso
corrente, não é fruto da revolução de 30 e sim exigência da contra-revolução. “Somente
num segundo momento é que o Governo Provisório encampa esta proposta [de
Constituinte] esvaziando-as de seu conteúdo oposicionista e colocando-a como
intenção legítima de toda nação”.
Após a guerra civil de 1932, inicia-se um período de mobilização garantido pela
abertura do regime. De novembro de 1932 a abril de 1933, são criados vários partidos.
O governo golpista de Vargas se diz transitório e anuncia o restabelecimento da
legalidade na Constituinte. O decreto 22.621 de 10/05/1933 estabeleceu que “a
Constituinte seria integrada por 214 deputados eleitos na forma da lei e mais 40
representantes classistas, eleitos por sindicatos legalmente reconhecidos pelo
Ministério do Trabalho”209. Desta forma, os sindicatos reconhecidos pelo Ministério
do Trabalho até 20 de maio de 1933, poderiam eleger delegados-eleitores que, reunidos
em Convenção Nacional no Distrito Federal, escolheria deputados classistas. Foi,
portanto, para esse fórum que o nosso Realino foi eleito naquela assembléia.
208 GOMES, Ângela Castro, Sociedade e política. Confronto e compromisso no processo de constitucionalização,
in: H.G.C.B., Tomo III, vol. 3, São Paulo, Difel, 1981.
209 Idem, Ibdem.
215
O Ministério atuou, diretamente, através de seus peritos, na criação de sindicatos -
formando, em muitos casos, verdadeiros 'sindicatos de carimbo', no afã de conseguir o
maior número possível de delegados-eleitores afinados com a orientação governamental -,
além de ter providenciado o reconhecimento, em tempo recorde, de um grande número
deles.210
Sabemos que esse processo de reconhecimento oficial era um importante recurso
de controle governamental, que procurava obstaculizar de todas as formas, o uso dos
sindicatos oficiais pelas correntes rebeldes. Só para dar um exemplo, o Sindicato dos
Operários em Fiação e Tecelagem de São Paulo, que tem um intenso histórico de lutas,
se instalou oficialmente em janeiro de 1933, mas só foi reconhecido em maio de 1934.
O que a passagem de Araújo sugere também é o interesse do governo em
aproveitar o processo da chamada “Constituinte Classista” de 1934, como mais uma
forma de chamariz para robustecer a oficialização do sindicalismo brasileiro. Segundo
Sílvia Hadler211 as eleições classistas causam impacto moderado no caso dos
metalúrgicos de São Paulo, com pouca mobilização dos operários da categoria. O caso
de Água Fria parece ter sido diferente, ampliando os casos que mostram o uso da
Constituinte para reforçar o crescimento dos sindicatos oficiais. O decreto
governamental estipula que as eleições classistas deveriam se realizar em julho de 1933
e apenas os sindicatos reconhecidos até 15 de julho daquele ano poderiam participar do
pleito. Assim, além de ampliar o número de sindicatos oficiais, o processo garantiria
uma base de sustentação política na Constituinte, para o Governo212. Daí a pertinência
do nosso subtítulo.
210 Cf. ARAÚJO, Ângela, Construindo o consentimento..., p. 234.
211 HADLER, Maria Silvia Duarte. Sindicato de Estado e legislação social: o caso dos gráficos paulistas nos
anos 30. Dissertação de mestrado/Unicamp, Campinas, 1982.
212 A atuação da bancada classista dos trabalhadores girou em torno da questão social. Além dos trabalhos de
Ângela Castro Gomes (1979), e Ângela Araújo (1998), as obras de Maria Hermínia de Almeida (1978) e de Luiz
Werneck Vianna (1989) fazem um ótimo balanço da participação dos representantes dos trabalhadores nessa
Constituinte.
216
Concluo este item apresentando a posição de Ângela Araújo em relação a esse
episódio do governo Vargas. Para ela, as representações dos trabalhadores foram
fragorosamente derrotadas na maioria das emendas propostas (...) Em suma, é possível
afirmar que a experiência da representação classista representou, para todos os
trabalhadores, muito mais um reforço ao projeto político do governo e ao fortalecimento
dos laços de dependência do movimento sindical em relação ao Estado, do que um
instrumento objetivo para ampliação do espaço conquistado e para criação de novos
direitos213.
Por detrás da marca do carimbo há sinais de organização
A forma como este sindicato foi fundado nos dá indícios de que os seus
promotores gozaram de recursos facilitadores para o seu reconhecimento, como
ocorreria a muitos outros na época. Afinal, as correspondências oficiais da diretoria
ressaltam a data de 19 de maio de 1933 como sendo a data de reconhecimento do
sindicato pelo Ministério do Trabalho, ou seja, menos de dois meses após a sua
fundação. Esse dado reforça a indicação de que o processo de sindicalização dos
trabalhadores nesse período tenha se realizado sob a vigilância e interferência direta
dos órgãos do Governo.
A criação do sindicato em Água Fria reforça também os dados que apontam a
participação das categorias “inorganizadas” e fora da capital de São Paulo, como
principal ponto de apoio da estruturação oficial inicial do sindicato. Araújo reconhece
essa tendência, mas demonstra, de certo modo, “o êxito da estratégia do Governo e da
atuação de seus agentes”, apontando que "não foi menos expressivo o movimento de
enquadramento sindical nos estados mais urbanizados e industrializados...” (p. 236).
Também os documentos testemunham uma boa representatividade e
legitimidade do sindicato, pois poderemos considerar expressivas as duas primeiras
assembléias realizadas (daquelas que pudemos registrar, é lógico) após a sua criação.
213 ARAÚJO, Ângela, Construindo o consentimento..., op. cit, p.256.
217
...estamos até esse momento com 490 socios, penso que quando chegares aqui encontre
500.
São palavras de Realino Costa Pinto, que escreve em 02 de dezembro de 1933
para o presidente do sindicato que se encontra no Rio de Janeiro, e que confirma a
sólida base de uma entidade que atua em um espaço que comporta duas ou três
empresas de cal e uma de cimento.
Em carta datada de 09 de abril de 1935, dois anos após a fundação do sindicato,
o então presidente justifica a dispensa do seu advogado devido a “perda de mais de 200
sócios”, o que sugere um número expressivo de associados ao sindicato. Assim, a
entidade não se enquadra nas características dos sindicatos chamados de “carimbo”, ou
seja, com existência apenas legal, mas sem representatividade alguma, fato considerado
comum nas obras consultadas.
Não obstante o interesse político do governo, a ação ministerial de incentivar a
criação de sindicatos serviu mais como elemento inspirador, ou alavancador de
estruturação sindical onde já havia condições prévias favoráveis à organização. Os
documentos que serão avaliados posteriormente apontam para uma razoável atividade
sindical em Perus-Água Fria, ainda que bem restrita aos estreitos limites permitidos
pela lei e pela ideologia de sua direção.
Ambigüidades do Sindicalismo oficial
A criação dos sindicatos oficiais através da nova legislação foi algo planejado e
que tinha objetivos estratégicos (o enquadramento/controle do movimento operário) e
conjunturais. Como o governo imaginava a dificuldade de se utilizar apenas os já
conhecidos métodos de combate e extermínio pela via da repressão simples, ele planeja
um método “naturalista” para combater a praga dos sindicatos combativos,
disseminando os sindicatos oficiais, alimentando-os e robustecendo-os com a
218
legislação social, gerando, assim, agentes “socialmente predadores” para ajudar no
combate à praga social que eram os sindicatos livres.
Os anos 1931/32 já dão indicações ao governo de que os operários liderados
pelas esquerdas anarquistas, trotskistas, comunistas e alguns independentes, não serão
presas fáceis. Há ainda casos de sindicatos oficiais que, não obstante o controle legal,
escapam do esquema governamental que se espera deles.
Ao instituir a legislação sindical, em alguns casos, as leis serviram como
catalizadores de processos organizativos em espaços propensos à criação de novos
movimentos. Ou seja, nem tudo que surge a partir da outorga legal dos sindicatos é
artificial ou fictício. Creio que o sindicato de Água Fria se enquadra nesse caso, onde
havia elementos propensos à organização à época, como pode ser provado pela rápida e
significativa adesão de trabalhadores. Foi o sindicato oficial o elemento catalisador que
atraiu Antonio Ceciliano Gonzaga, Realino da Costa Pinto e seus companheiros.
A análise de Décio Saes214 explica esse movimento quando diz que
o reconhecimento do sindicato pelo Estado, no pós-30 vai representar objetivamente, para
os setores menos avançados das classes trabalhadoras, uma proteção à atividade sindical,
contra as ameaças do patronato”, e que para as “camadas menos avançadas ele representa
um duplo incentivo: incentivo à participação dos trabalhadores no sindicato, e o incentivo
à ação sindical reivindicativa.
De fato, os anos de 1933/34, registram uma brusca ascensão do movimento
reivindicativo popular.
O governo procura fechar o cerco a qualquer custo, visando aniquilar os sinais
de independência e autonomia dos sindicatos. Em 12/07/1934 o Decreto 24.694
referenda o conteúdo do Código de Trabalho, apresentado no ano de 1931, no qual é
dada preferência de concessão de emprego ao trabalhador que pertencer a sindicato
reconhecido pelo Ministério do Trabalho. O artigo 18º garante que nenhum operário
214 SAES, Décio. A classe média e a política no Brasil (1930-1964). H.G.C.B., Tomo III, vol. 3, São Paulo, Difel,
1981.
219
pode ser demitido pelo fato de pertencer a organizações sindicais reconhecidas.
Contratos coletivos só serão legitimados se as entidades estiverem em conformidade
com o decreto 19.770. Ou seja, com o decreto 19.770 os sindicatos eram ainda criação
espontânea dos trabalhadores, mas eram minuciosamente controlados.
A lei de janeiro de 1934 regulando a concessão de férias aos operários da
indústria é clara quando restringe o direito de usufruto apenas aos empregados que
forem associados de sindicatos de classes reconhecidos pelo Ministério do Trabalho.
Com este expediente o Governo amarrava, decididamente, as duas pontas da sua
política trabalhista: concedia um direito, pelo qual os trabalhadores vinham lutando há
duas décadas, exigindo, em troca, a sua adesão ao sindicalismo controlado pelo
Ministério do Trabalho. Houve tentativas de reação à manobra imposta, por parte dos
setores autônomos do proletariado da época, mas estas se mostraram impotentes para
barrar a artimanha do Governo.
Ao tempo em que regulamentava as chamadas questões sociais, o governo
buscava atrair para o seu pólo, as massas trabalhadoras que atuavam ou não no
movimento operário e sindical. Malgrado a intenção de controle por parte do governo,
os trabalhadores se utilizavam fartamente dessa legislação para pressionar os patrões,
como mostram as inúmeras correspondências sindicais dirigidas às empresas e aos
órgãos do governo.
Mesmo a parca documentação que sobrou do sindicato de Perus, nos mostra
como essa prática norteava as ações sindicais, como exemplifico abaixo, através da
correspondência dirigida ao DET, onde o sindicato comunica a negociação com a
empresa:
Este Syndicato achando que a lei está bem clara no Decreto 23.768 de 18 de janeiro de
1934, que regula a concessão de férias aos empregados na Industria Syndicalizados
capitulo 3° da concessão de férias, artigo 14 que não se refere em base de 8 horas e sim a
diária percebida pelo empregado; peço V. S. que tome as necessárias providencias neste
caso. (...) este Syndicato não está emplorando e sim exigindo o que é de direito é
220
admissível que uma instituição como o Departamento que se diz, ter sido instalado para
fiscalizar as leis do trabalho, cumpra fielmente os direitos outorgados215.
São várias as cartas dirigidas às empresas e também aos órgãos do Estado,
denunciando o desrespeito e cobrando a apreciação da legislação que instituiu as férias.
Entre os temas mais recorrentes nas correspondências do sindicato, figura a
tentativa de coibir as demissões. São várias as correspondências dirigidas às empresas,
e também ao Departamento Estadual do Trabalho, reivindicando a reversão de
demissões individuais ou de grupos de trabalhadores, onde os sindicalistas se
respaldam na lei que salvaguarda os sindicatos oficiais. O sindicato abre processos que
rolam durante meses nos Departamentos do Trabalho, visando reverter demissões.
Em março de 1934, uma onda de demissões deixa o sindicato apreensivo.
Miguel Soria envia a Realino Costa Pinto uma lista de 65 nomes de trabalhadores
sindicalizados da fábrica que haviam sido demitidos naqueles dias. Ao final, assim o
Miguel Soria se expressa:
...eu também e o Moreira estamos espererando cualquer couza porque vai ter 2 cortes e
você bem sabe a Idea destes homens aqui. E temos que fazer ver a elles com tempo.
Pello que eu vejo com o tempo não fica um syndicalista aqui na Fabrica.
Em uma correspondência não datada, mas do ano de 1934, o sindicato reclama
junto ao DET a demissão de 30 operários sindicalizados feita pela Empresa Beneducci:
Demonstrando assim reprezalias contra a lei de syndicalização no Brasil aprovada e
sancionada recentemente pela Nova Constituição da Republica com o Decreto 24.694 de
12 de Julho de 1934 e no artigo 30 consta que se tratando de dmissão de operários
syndicalizados por diminuição de serviço, logo que normalize ou aumente a producção de
qualquer Empreza necessitanto de admitir operários terão preferência, os Syndicalizados
que foram dmitidos; entretanto aquella empreza não tem comprido estas prerrogativas.
215 Carta enviada pelo sindicato ao DET em setembro de 1934.
221
Leôncio Martins Rodrigues considera que o sindicalismo não é “mero reflexo
das determinações econômicas, sociais, técnicas e políticas e culturais de um dado
país. Pelo contrário: afetado pelos aspectos particulares de um meio, o sindicalismo
pode ser igualmente um fator de mudança social e política de amplitude variada”216. O
fato do sindicato ter se estruturado nos estreitos marcos da legislação, não implica
inexistência de sujeitos e possibilidades diversas. Há especificidades da própria
conjuntura de 1932/33 que singularizam as mais diversas experiências, como parece ser
o caso da organização do sindicato em Perus/Água Fria.
A formação de um sindicato é um ato de vontade de um grupo de trabalhadores, mas a
influência da associação sindical, a ideologia predominante, as formas de organização são
amplamente marcadas pelas particularidades da sociedade nacional217.
A direção do sindicato de Perus/Água Fria até 1936
O sindicato que representa os operários da fábrica de cimento em Perus surge,
na verdade, em Água Fria, no seio dos trabalhadores das pedreiras e, por esse motivo,
aparece com o nome de Sindicato Operário dos Extratores de Pedras e Conexos de
Água Fria. É o que somos levados a supor a partir dos vestígios deixados pela parca
documentação. Há uma correspondência datada de 17.05.33 que solicita ao
Departamento Nacional do Trabalho, no Rio de Janeiro, a mudança do nome para
Sindicato dos Operários em Pedreiras, não fazendo referência a “trabalhadores da
indústria de cimento e cal”. A mudança definitiva de nome só ocorrerá em 1939, com
denominação próxima à da atual218. No entanto, os trabalhadores da fábrica se
comportavam como base legítima desse sindicato.
216 RODRIGUES, Leôncio Martins. Sindicalismo e Classe Operária (1930-1964) , in História Geral da
Civilização Brasileira, Tomo III, vol. 3, São Paulo, Difel, 1981, p. 509.
217 Idem, Ibdem, p. 509.
218 Atualmente a entidade leva o nome de Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias de Cimento, Cal e Gesso do
Estado de São Paulo.
222
Os documentos mostram os nomes dos operários que compuseram a primeira
diretoria do sindicato:
Presidente Antonio Ceciliano Gonzaga
Vice-Presidente João Cândido
1º secretário Realino da Costa Pinto
2º secretário Jose Krauss
1º tesoureiro Oswaldo Barbosa
2º tesoureiro Acyrio Banhara (Braz Alves)*
Conselho Fiscal Gilberto Baptista
João Correia da Silva
Edgard de Freitas Lage
Sebastião Lemes
José Nunes do Amaral
*Acyrio Banhara é substituído por Braz Alves em 17.05.1933, por ser este brasileiro e aquele
italiano.
O nome do presidente, Antonio Ceciliano Gonzaga, aparece nas fichas
analisadas no capítulo III. Ele é paraibano e ingressou como “trabalhador” nas
pedreiras da Companhia, em 1931, aos 29 anos de idade.
Realino da Costa Pinto é mecânico, proveniente de Minas Gerais, ingressou com
38 anos na Companhia, em 1931, também trabalhando nas pedreiras.
José Krauss (Perren) aparece como auxiliar de escritório nas pedreiras e aos 33
anos de idade ingressa na Companhia, em 1931.
Oswaldo Barbosa (maquinista), Acyrio Banhara (trabalhador), João Correa da
Silva (carpinteiro), Edgard de Freitas Lage (balanceiro) e José Nunes do Amaral
(carpinteiro), todos eles aparecem também nas fichas pesquisadas, como trabalhadores
nas pedreiras. Os demais que constam na chapa não aparecem nas fichas.
Até aqui, tudo está a indicar que esse primeiro sindicato representa apenas os
operários das pedreiras. O que não se constituiria em nenhuma surpresa, pois, à época,
esta é uma categoria com certa tradição de organização sindical. Em Ribeirão Pires,
223
São Paulo, havia um sindicato de trabalhadores em pedreiras que teve participação
expressiva no movimento operário das décadas iniciais do século XX, conforme mostra
pesquisa recente feita por Antonio José Marques219. Este sindicato, ao contrário do
sindicato de Perus, tinha forte influência anarquista.
Igualmente, cheguei a consultar um periódico de matiz anarquista intitulado A
Vida220, que era editado pelo Centro dos Operários das Pedreiras, que demonstra
pertencer a um relativamente bem organizado sindicato de trabalhadores em pedreiras
no Rio de Janeiro.
Não obstante, os documentos provam que o sindicato fundado em 1933 pelos
operários das pedreiras de Água Fria, também encaminhava as reivindicações e
organização dos trabalhadores da fábrica de cimento.
Em uma carta enviada ao Superintendente da Fábrica de cimento, no dia 09 de
junho de 1933, o presidente do sindicato faz referência aos sindicalizados da fábrica:
Este syndicato, contando com um grande número de companheiros que trabalham ahi na
Fabrica, vem mui respeitosamente...
Várias são as correspondências que fazem referência aos sócios do sindicato na
fábrica, seja nos setores da produção, seja na ferrovia de responsabilidade da
Companhia. Há uma lista manuscrita que relaciona 29 nomes de operários da fábrica
que estão delegando seu voto para uma reunião que ocorrerá em Água Fria no dia 13 de
maio de 1933.
Miguel Soria, cujo nome aparece em várias correspondências, é eletricista e
trabalha na fábrica. Os vestígios indicam ser ele um dos mais ativos militantes do
sindicato, que parecia articular clandestinamente os trabalhadores na fábrica e
219 MARQUES, Antonio José. Os trabalhadores em pedreiras de Ribeirão Pires. A organização sindical dos
canteiros e as lutas operárias no começo do século XX. Dissertação de mestrado, São Paulo, FFLCH/USP, 1996.
220 A vida, é um periódico de trabalhadores em pedreiras do Rio de Janeiro. Há alguns exemplares do Arquivo
Edgar Leuenroth (AEL), na Unicamp, em Campinas-SP.
224
municiava a diretoria com informações. Ele próprio tornar-se-ia diretor do sindicato na
gestão seguinte.
A denominação do sindicato, que se refere apenas aos operários das pedreiras,
chegou mesmo a gerar um processo originado no Ministério do Trabalho, em que este
órgão do Estado teria indicado a exclusão daqueles que não são extratores de pedra, o
que gerou uma reação do sindicato, que enviou uma carta Ministro do Trabalho
Agamenon de Magalhães, justificando que:
Visto ser este Syndicato o único existente neste município, e que tanto tem se esforçado
para arigimentar neste sertão desprovido de mentalidades sociais, os companheiros que
até então viviam na obscuridade; Como acima ficou dito, e não havendo meios
sufficientes para que os mesmos se desligando deste Syndicato, possam associar-se na
cathegoria a que pertencem os referidos tendo em visa que consta no Decreto 24.694 de
12 de Julho de 1934, capitulo II artigo III letra b que diz os que como empregados
trabalhem em profissões, idênticas, similares, ou conexas(...) podem fazer parte desta
entidade.
(...) Ao contrario será um desfalque no numero de associados, e desvantagens para os
mesmos221.
Em 1935, pelo menos dois membros da executiva da diretoria trabalhavam na
fábrica de cimento, conforme mostra trecho da carta abaixo transcrito, datado de 17 de
junho, em que a diretoria do sindicato solicita ao superintendente da fábrica o
fornecimento
de uma carta atestando que os operários Manoel Thomé Gonçalves e Pedro de Souza,
estão no exercício das suas profissões a mais de dois anos na Companhia Brasileira de
Cimento Portland S/A.
Não nos resta nenhuma dúvida, portanto, que, não obstante o núcleo sindical ter
origem nas pedreiras, o Sindicato dos Operários das Pedreiras de Água Fria é a única
221 Carta datada de 06/09/1934.
225
representante oficial dos trabalhadores das pedreiras e das fábricas de cal e cimento de
Perus e Água Fria.
Continuidade e a ruptura de Realino Costa Pinto
A gestão da diretoria sindical naquele período se realizava em um ano. Assim,
em 06 de maio de 1934, é escolhida uma nova direção e os nomes que parecem mais
representativos, segundo a documentação, praticamente permaneceram os mesmos.
Realino da Costa Pinto é eleito o novo presidente mas, em uma correspondência
datada de 14 de maio de 1934, o mesmo diz ter recebido um ofício da “Seção de
Syndicalização” em São Paulo, o qual “notifica que estou incompatibilizado para
assumir o cargo de presidente do Syndicato dos Operários em Pedreiras de Água
Fria”. O motivo não aparece revelado na correspondência, mas Miguel Soria, então o
vice-presidente, assume interinamente o cargo de presidente, até que, em julho de
1935, Victor Gonçalves é eleito para concluir a gestão.
“Em assembléia de 24 de junho foi deliberado que se procedesse a eleição para
presidente deste Syndicato visto se achar vago aquelle cargo, por ter sido destituído o
companheiro Realino da Costa Pinto. Ficou marcado o pleito para 08 de julho”.
Apesar do tom, não há indícios de que a substituição de Realino tenha ocorrido
por motivação política, ou divergência interna, pois o mesmo permanece como diretor
e articulador do sindicato até dezembro de 1935.
Ainda em dezembro de 1934, Benedicto Loureiro é eleito o novo presidente,
permanecendo no cargo até o final de 1935222. Para esse ano, assim fica constituída a
direção sindical:
Presidente: Benedicto Loureiro
Vice-Presidente: Realino da Costa Pinto
1° Secretário: João Cândido
222 Algumas correspondências falam da “destituição da Comissão Executiva do Sindicato que havia sido eleita em
31 de Dezembro de 1934” e a constituição “de uma Diretoria”. Seguramente foi uma medida apenas
administrativa, a fim de adequação aos estatutos sindicais.
226
2° Secretário: José Nunes do Amaral
1° Tesoureiro: Oswaldo dos Santos Barboza
2° Tesoureiro: Pedro de Souza
Conselho Fiscal: Manoel Thomé Gonçalves
Aristides André
João Stuart
Em 1936 o Sr. Manoel Marçal Vieira, que ingressou nas pedreiras em 1928, aos
28 anos de idade, como “trabalhador”, aparece sob a rubrica de “Presidente”.
Em 19 de dezembro de 1935 Realino Costa Pinto deixa a diretoria e também
abandona o sindicato por motivos que não pude esclarecer. A sua saída causou um
estrago razoável na direção sindical, pois os documentos registram a perda de muitos
sócios neste evento:
(...) Só assim este Syndicato poderá reconstituir-se que tem sofrido um grande
desmembramento, por culpa de um elemento que imiscuio-se no seio deste Syndicato,
tido como Syndicalista e no entanto, é um verdadeiro trahidor de classe, cujo elemento é
Realino Costa Pinto. Luctou o quanto poude pela destruição do Syndicato. Porém não
poude vencer o seu mau instincto, pediu exonheração do cargo de Vice-Presidente do
Syndicato e também sua demissão do quadro social.
No período de 1° de Janeiro a 31 de Dezembro de 1935 – surgiu, no seio deste
Syndicato, um elemento, o qual foi Vice Presidente do mesmo, que nesse lapso de
tempo, propagou por todos os lados, o afastamento dos associados deste Syndicato.
Fica para nós uma incógnita, posto que, nas tantas correspondências enviadas
por ele, ou para ele, não percebemos qualquer vestígio de algo destoante, mesmo
porque, essas correspondências eram sempre muito práticas, administrativas. No
entanto, sendo um militante responsável por contatos externos, tendo participado de
vários encontros de caráter político sindical - ele foi por várias vezes delegado-eleitor e
também o representante do sindicato nos congressos sindicais - é plausível que esse
227
contato “externo” tenha agregado alguns elementos em sua concepção de mundo e de
sindicato.
Ou seja, desde 1933 até dezembro de 1935, o sindicato teve três presidentes e
composições diferentes na diretoria. Porém, não conseguimos perceber significativas
rupturas entre elas, ou grandes divergências entre os diretores, não obstante o caso não
esclarecido do Realino. Parece-me que havia uma certa unidade entre elas. As
mudanças que percebemos nas gestões sindicais desde 1933, em boa medida, são
reflexos das alterações nas circunstâncias político-administrativas que também
acontecem no plano do governo federal.
Assim, podemos perceber um sindicato muito mais envolvido com as discussões
políticas e operárias em 1933/34 e um sindicato muito mais preocupado com o
assistencialismo e a burocracia em 1935/36. Muitas vezes eu generalizo a ação da
diretoria a partir de documento que é assinado por aquele que ocupa o cargo de
presidente. Porém, isso é inevitável, tendo em vista que essa escassa documentação não
deixa transparecer divergências.
O traço de continuidade político-ideológica das diretorias pode ser comprovado
pela permanência dos principais nomes que compõem a diretoria. Antonio Ceciliano
Gonzaga, conforme informa a sua ficha, fora demitido em 04 de julho de 1934. No
entanto, ele foi contratado como funcionário do sindicato e continuou como membro
ativo e representativo, pelo menos até 1936, quando ainda encontramos muitos
registros seus.
Miguel Soria, empregado na fábrica, que foi vice-presidente na segunda gestão,
parecia ser o grande articulador na base e aparece em inúmeras correspondências
mantendo diálogo constante com Realino, também ele continuaria na direção pelo
menos até 1936. Como uma peça chave que atuava politicamente dentro da fábrica de
cimento, Soria é uma das figuras mais lúcidas, e, juntamente com Realino, fazia o elo
de ligação da direção com a base.
228
Esse sucinto relato histórico da direção sindical põe em cheque a versão
assumida por Élcio Siqueira223, que, baseado em Fillippini e Fernandes224, conclui que
“teria havido uma dupla direção no Sindicato de Pedreiras em 1934/1935”, pelo fato
de aparecerem diversas cartas assinadas em 1934 por Antonio Gonzaga e por Victor
Gonçalves, ambos assinando como presidente. Nada disso ocorreu. O fato é que as
gestões duravam apenas um ano e o Victor sucedeu o Antonio Gonzaga quando o
Realino não pode assumir a presidência. Em uma carta datada de 02 de fevereiro de
1934, Miguel Soria pede a Realino para convencer o Antonio Gonzaga a pleitear a
eleição para a presidência, pois este se diz “cansado”. A documentação parece não ter
sido bem ordenada pelos autores citados por Élcio Siqueira.
O sindicato e as empresas
Se quisermos revelar a história que se desenrola sob a carapaça oficial do
sindicato, precisamos antes escapar das simplificações causadas pelos rótulos que
caracterizam as correntes sindicais, ainda que isso nos coloque diante de dificuldades
para descrever e enquadrar as práticas da direção do sindicato em questão. Teremos
dificuldades em distinguir claramente os limites da retórica e das dissimulações que
certamente marcam os discursos de um sindicato com as características desse de Perus,
que vive numa época em que as dissimulações e as dúvidas parecem se colocar como
questão de sobrevivência para as correntes àquela época.
Ou seja, caracterizar um sindicato como “anarquista” ou “amarelo” certamente
nos dá uma idéia sobre a concepção de sociedade que possui determinada direção, e
pode ser determinante para distinguirmos as posturas diferenciadas nas mais variadas
circunstâncias. Entretanto, essa caracterização não diz tudo. Que o sindicato em estudo
não se enquadra no rol das direções revolucionárias ou mesmo críticas ao regime de
então, isso já se percebe de imediato. Porém, isso não reduz o papel dos sujeitos que,
223 SIQUEIRA, Élcio, op. cit. p. 179.
224 Trata-se de um trabalho de conclusão de uma disciplina de graduação feita na FFLCH/USP, portanto, não
editado, intitulado Vozes Operárias, cuja cópia pode ser encontrada na sede do Sindicato dos Trabalhadores em
Perus.
229
de forma singular, conduzem o sindicato entre as margens estreitas de decisão que se
lhes apresenta em cada conjuntura.
Observando de “perto” o cotidiano de um sindicato que poderia se enquadrar
como “amarelo” na efervescente conjuntura entre 1930 e 1936, nos faz deparar com um
movimento interessante e surpreendentemente complexo.
A documentação analisada sugere que as empresas Beneducci e Cia Ltda e a
Companhia Brasileira de Cimento Portland, se não são as únicas a formarem a base do
sindicato de então, pelo menos são elas as duas empresas mais importantes, haja vista
que a documentação pesquisada não registra a existência de outras. A família
Beneducci, além de grande proprietária de terras na região, tinha participação
majoritária na Perus-Pirapora até 1939 e explorava a extração de minérios e a
fabricação de cal. A CBCP era proprietária de várias pedreiras espalhadas pela região,
e tinha concessão de arrendamento da ferrovia Perus-Pirapora225.
Entretanto, quando das reivindicações do sindicato à empresa Beneducci,
algumas cartas eram enviadas ao “Dr. Sylvio de Campos”, que também era acionista da
estrada de ferro Perus-Pirapora, e o maior acionista brasileiro da CBCP. Sendo assim,
podemos inferir que, a despeito de oferecer condições de trabalho bem diversas, na
mesma região, sob a mesma base sindical, as duas empresas são vinculadas entre si,
pelos laços do capital e do capitalista.
Normalmente as comunicações feitas entre o sindicato e as empresas são
marcadas pelo tom negociador, conciliador, até bajulador, que busca demarcar bem a
sua ação legal e restrita à luta pelos direitos dos operários, mas se esquivando de
qualquer conotação política e ideológica. O tom é cordial e os problemas são sempre
identificados em questões localizadas ou em indivíduos, mas nunca questionando a
relação capital/trabalho, ou a empresa como um todo. Entretanto, não nos enganemos:
o tom bajulador assume o caráter de dissimulação, de teatralização, posto que,
simultaneamente as empresas aparecem denunciadas diante dos órgãos estatais
responsáveis pela gestão do trabalho.
225 Maiores informações podem ser encontradas em GORDINHO, Margarida, op. cit. .
230
Muitas cartas são escritas em tom de reclamação de fatos ocorridos entre
chefias e subordinados; há correspondências que entram em minúcias até de foro
particular, que denunciam desvios morais de algum encarregado da empresa, deixando
passar algumas cenas curiosas do cotidiano operário da época, como que visto pela
fechadura da história. Bom exemplo disso podemos ver nesses trechos de uma carta
dirigida ao Fiscal da Seção Social da CBCP, assinada por Krauss Perrin. Depois de ter
acusado o Sr. José Eloy de ter maltratado operários, Krauss acusa o feitor de:
Aproveitar nas horas de cerviço de espreitar escondido nas valetas as mulheres dos
operarios que etavam trabalhando para elle era e é cousa facilima largar os operarios no
cerviço e ir para a casa de uma viuva de poucos escrupulos para elle era canja largar os
operarios e vir tratar de suas eguas o passa o resto do dia em casa tocando sanfona não lhe
custava muito no entanto os Srs chefes sempre acharam um mais para o desculpar...
Depois de reclamar as arbitrariedades do Sr. Eloy e da cobertura dada pelos seus
chefes, Krauss arremata:
Quero crer Sr. Celço que os tempos do captiveiro operario já se passou e a mordaça que
nos tapava a boca já não existe, erguendo-se com seus lugares a justiça para com os
oprimidos a qual espero que V.S. saberá fazer não privando do pão uma familia por
paixões ou proteção de quem quer que seja. Perus 28/12/1933.
A direção do sindicato parece sempre disposta a mostrar a situação de legalidade
e de manter boas relações com as empresas, especialmente com a CBCP. Com a
Beneducci, a relação parece menos amistosa, o que é compreensível se pensarmos nas
dimensões de uma fábrica que é considerada a maior produtora de cimento do Brasil e
uma das mais modernas do mundo, como era a CBCP. Detectamos um movimento
grevista que deve ter durado sete dias na Beneducci, enquanto que na Companhia de
Cimento as correspondências não demonstraram mais do que algumas pressões
localizadas, como veremos mais adiante.
231
A greve na Beneducci
Todas as correspondências que encontramos dirigidas à Beneducci, ou se
referindo a ela, carrega o tom da denúncia de más condições de trabalho ou de
perseguição aos afiliados do sindicato. Através dos documentos pudemos detectar com
certo detalhamento um movimento grevista ocorrido no mês de setembro de 1934,
reivindicando aumento de salário. A primeira correspondência que encontrei data de 12
de junho de 1934 (há uma cópia que parece ser um rascunho desta carta, datada de 09
de junho), polidamente endereçada ao Dr. Sylvio de Campos, onde o sindicato diz
atender a uma comissão de operários que o procurou para “pedir a esta Diretoria uma
melhoria de salário que possa remunerar-lhes com menos sacrifício para o custeio de
vida”. A diretoria do sindicato, que achou “justo” o pedido, resolveu “escrever a V.S.
pleiteando o que os nossos companheiros aspiram”. O documento, assim, propõe
aumentos salariais para algumas funções.
O “pedido” é reiterado em outras oportunidades, mas só em 21 de setembro do
mesmo ano, uma pauta constando as deliberações de assembléia realizada no dia
anterior, que contêm as reivindicações, é encaminhada à empresa. São sete itens que,
sinteticamente exponho:
_ Equiparação salarial em relação aos ordenados praticados pela CBCP;
_ Distribuição de socorros e assistência sanitária;
_ Respeito com decisão e honestidade ao movimento sindicalista;
_ Baixar os índices de preços dos armazéns;
_ Readmissão dos operários sindicalistas demitidos;
_ Execução da lei de Férias de acordo com a lei;
_ Exigência por parte da Companhia de Carteiras Profissionais.
Obviamente o organismo competente do aparelho de Estado foi comunicado da
decisão da assembléia dos operários. Também em 21 de setembro, o Sub-diretor da
Secção de Assistência Social do Departamento Estadual do Trabalho foi comunicado
232
da deliberação de que “tomar-se-há uma atitude energica, caso não sejam
reivindicados pela Companhia os direitos dos seus operários. Esta medida energica
será a paralização de todo serviço da referida empreza Beneducci e Cia, Ltda...”. Em
outro texto, de 24 de setembro, o DET é novamente comunicado da ocorrência da
“greve pacifica contra aquella empreza” que não cedeu “um cintimetro do que foi
pleiteado”. A correspondência pede, então, para o órgão estatal “enviar um fiscal que
os dirigentes deste Syndicato estão promptos em recebe-lo e explicar detalhadamente a
origem da greve”.
Há dois bilhetes datilografados que dão pistas das estratégias utilizadas para
concretização da paralisação prevista; um é dirigido a um “companheiro” não
identificado, datado de 22 de setembro, e outro dirigido aos maquinistas que
transportam carga para a Beneducci, datado de 26 de setembro. O primeiro orienta que
o “companheiro...interditará energicamente a trafegação de locomotivas d'aquela
Companhia, exceptuando-se exclusivamente a carreira do M226 que somente conduzirá
carros de passageiros e ainda carros de cargas destinadas á Companhia de Cimento”.
O segundo, do dia 26, exorta os “Prezados Companheiros Leonel de tal e Foguista
Fulano de Tal” a não trafegarem com as locomotivas, a partir do dia 27, na “do
Entroncamento para Gato Preto e do Entroncamento para Água Fria, enquanto durar
a greve, evitando assim que a Beneducci e Cia zombem do elemento do operário, e,
demonstrarão a união invencivel que existem entre trabalhadores”. Esses fragmentos
de documento deixam entrever a existência e continuidade de um movimento que
enfrentava dificuldades e que necessitariam da solidariedade do setor dos ferroviários.
Nessa greve aparece uma outra forma organizativa além do sindicato. É o que
nos sugere esse trecho de um comunicado do sindicato dirigido aos grevistas em 26 de
setembro de 1934.
A Diretoria do Syndicato, na minha pessoa, todos os syndicalizados e Comissão de
Greve, firme intuito de fazerem ser respeitada a Associação de Classe....
226 O “M” é uma conhecidíssima composição de madeira da Companhia de cimento que transportava passageiros.
233
Há, portanto, uma Comissão de Greve na empresa, que entra também como
elemento nessa negociação onde também o DET participa.
Através dos documentos não é possível saber o saldo da greve. Sabemos que no
dia 27 de setembro houve um acordo acertado entre “os Diretores deste Syndicato, os
advogados desta Empreza, e o chefe daquella secção (do DET)”. Os operários
retornariam ao trabalho no Sábado, dia 29, a partir das 6 horas da manhã, “excetuandose
os operários demitidos, conforme esclarecimentos prestados naquela Secção de
Fiscalisação. O Syndicato aguarda confiante porem, que V.V.S.S. procedam o
respectivo inquerito junto ao DET, verificando assim se existe de facto, razões justas
para que aquelles operarios sejam demitidos”.
Pelo tom dos documentos, não nos parece que o acordo tenha sido muito
vantajoso para os operários. Além do mais, em carta datada de 02 de outubro,
endereçada à empresa, o sindicato reclama da ruptura de compromisso de não
represália por motivo da greve. A entidade afirma que os companheiros estão sendo
demitidos por perseguição e não por “diminuição de serviço”.
O primeiro item da pauta enviada a empresa Beneducci indica a diferenciação
de condições de trabalho entre esta e a CBCP, não obstante ambas terem como
acionistas ou proprietários a mesma pessoa, o Sr. Sylvio de Campos. O terceiro e o
sexto itens demonstram a hostilidade e resistência do(s) empresário(s) em relação às
recentes medidas do Governo no âmbito sindical e trabalhista. O item quinto traz à
pauta uma pendência junto à empresa que desde junho anterior havia demitido alguns
operários, alegando diminuição da produção, mas que para o sindicato não passou de
perseguição a sindicalistas. Entre os demitidos, figura um dirigente do sindicato. Já o
quarto item que reivindica a redução dos preços nos armazéns, indica que os
empresários da Beneducci, além do setor produtivo, mantinham também atividades
comerciais como mais uma fonte de ganho baseado na exploração dos operários.
234
O sindicato e a CBCP
Já com relação a CBCP, a atitude do sindicato é bem diferenciada. Na maioria
das cartas dirigidas a essa empresa ou aquelas que fazem alusão a ela, o tom que
predomina é de tolerância e cordialidade. Quando há críticas, elas são mais polidas e
nunca atingem a essência capitalista, mas, ao contrário, ela é sempre localizada.
Certamente que há uma dose de dissimulação nessa relação.
No mesmo período em que se começa o processo reivindicatório junto à
Beneducci, registra-se também um processo de reclamações de operários da CBCP, do
setor ferroviário, que procuram o sindicato para que este leve suas reclamações à
empresa. São várias as cartas enviadas à Companhia canadense e também ao DET, que
flagram esse momento de tentativa de negociação.
Porém, o sindicato que chegou a solicitar o apoio de maquinistas ao movimento
paredista da Beneducci, pelo jeito, sequer ameaçou a Companhia de cimento com
“atitudes enérgicas”.
As relações do sindicato junto à CBCP sugerem algo muito mais estreito. Em 14
de abril de 1933 acontece um episódio em três pedreiras da Companhia de cimento,
quando a empresa acusa a falta ao serviço de 48 operários, do total de 212, sem prévio
comunicado. A empresa teve seu funcionamento bastante prejudicado. No princípio a
empresa acusa o sindicato de ter incitado as faltas, ao que o sindicato responde em 20
de abril de 1933, se isentando da responsabilidade, dizendo desconhecer o fato, contraafirmando
que as ordens partiram dos próprios dirigentes da Companhia, arrematando
da seguinte maneira: “A Directoria do Syndicato, tem sempre propagado a ordem e
não a desordem”. O episódio encerra-se com a elucidativa resposta da empresa, que
assim se expressa, em 02 de maio do mesmo ano:
Sr. Derron, Perus. Com referência ao assunto de serviço na sexta-feira da semana santa,
sou informado pelo 1º secretário do Sindicato que na reunião daquela agremiação em data
de 30 de abril foram chamadas à ordem o pessoal que não apareceram no serviço tanto
235
naquele dia como no dia seguinte, sem motivo justificado, sendo exposto a necessidade
pelo futuro que a administração será sempre orientada com antecedência em qualquer
caso semelhante. Em vistas destes fatos e o espírito de co-operação, consideramos que
muito bem podemos deixar o assunto por liquidado.
Se o incidente teve alguma característica de greve, este se deu à revelia do
Sindicato, que tratou de chamar “o pessoal à ordem”. Porém, o mais provável é que o
alarme de greve não se confirme, pois não há indícios para tal conclusão. Essa minha
versão não condiz com a versão de Élcio Siqueira, que também cita o mesmo
documento e, mais uma vez, parece ter sido enganado pela leitura desatenta feita por
Fernandes e Fillppini, que enxergaram no episódio greves setoriais, e ainda mais,
“selvagens”, como acrescentou Élcio.
A consulta mais atenta à documentação certamente faria os pesquisadores
perceberem que no próprio documento da empresa, datado de 02 de maio de 1933, é
revelado que o dia em que houve esse não comparecimento maciço de trabalhadores
das pedreiras era uma Sexta-Feira Santa, conforme aparece grifado na minha
transcrição. Além do mais, o relato não fora feito por “fiscal do Departamento Estadual
do Trabalho em serviço em Água Fria”, como afirma Élcio, mas é apenas um
comunicado do Jonh Burke, Superintendente das Pedreiras da Companhia, ao Sr.
Donald Derrom, superintendente da fábrica.
Ainda que esse fato possa revelar alguma forma de rebeldia de 48 trabalhadores,
num universo de 212, que supostamente se recusaram a trabalhar no feriado, longe está
de se configurar uma greve, muito menos “selvagem”.
Porém, se, de fato, o sindicato não chegou a usar o recurso da greve nesse
período, isso não quer dizer que não tenha havido pressões reivindicativas. Em 27 de
julho de 1934, uma pauta de reivindicações foi enviada à Companhia e, desta vez, não
há indicações que a tensão tenha se restringido a um setor, uma vez que o sindicato
pleiteia as reivindicações “para os seus associados, empregados nesta companhia”.
Acho importante descrever essas reivindicações, pois são elas um ótimo meio para
verificarmos quais são os problemas mais sentidos naquela conjuntura:
236
1. Trafego, aumento de 35% sobre o actual salário.
2. Producção, equiparação aos mais elevados salários, dos demais, operários na Secção,
e augmento, sobre os melhores salários de 30%.
3. Turma da Linha equiparação nos presentes salários e augmento de 20%, abrangendo
todas as turmas.
4. Trabalhadores, que percebem $900 (novecentos réis) por hora, augmento de 30%.
5. Trabalhadores no regimen de empreitada, 30% sobre os carros.
6. Trabalhadores das manobras, equiparação com o que tem maior salário.
7. Fiscalização sanitária pela Junta de Hygiene desta companhia, nas habitações dos
operários.
8. Seguro de accordo com as leis Brasileiras, ficando a companhia de seguro obrigada,
a pagar as despezas de viagens, e estadia em São Paulo, quando, se tratando de
intimação, partida da mesma companhia.
9. Extinção dos alugueis de ranchos, onde não existe luz, e água potável.
Sobre a questão do salário e as disparidades entre eles, já nos referimos no
capítulo anterior, mas, podemos avaliar através desta pauta, qual era a defasagem
salarial sentida por cada setor da fábrica.
Buscando revelar algo mais a respeito da relação do sindicato com a CBCP, cito
uma correspondência assinada pelo presidente do sindicato, Antonio Ceciliano, datada
de 09 de junho de 1933, que era dirigida ao Sr. Donald Derrom, funcionário graduado
na CBCP, solicitando sua presença na assembléia em que seria escolhido o delegado
dos trabalhadores para compor o colegiado sindical da Constituinte de 1934. Fato que
não chamaria a atenção se o dito cujo não fosse simplesmente o superintendente da
Companhia, ou seja, um dos maiores representantes da empresa. Poderíamos
caracterizar este fato como ingenuidade? Muitas atitudes do sindicato me parece dar
margens a se levar em conta essa possibilidade. No entanto, o mais plausível é que se
trate de uma concepção ideológica em que o operário enxerga o patrão apenas como
diferente, não como contrário, e que aquele não se sente ameaçado pelo patrão, talvez
mesmo por conceber o sindicato com respaldo suficiente do Governo.
237
Porém, talvez o caso mais emblemático para caracterizar a complexidade dessa
relação sindicato/empresa seja aquele que envolve Antonio Rodrigues dos Anjos. Este
que ocupava o cargo de 1º secretário no sindicato e que foi demitido pela Beneducci,
por perseguição sindical e não por motivo de diminuição de funcionários, segundo a
entidade.
Um inquérito foi aberto junto ao DET e, durante meses, várias cartas são
enviadas ao Departamento fazendo tal reclamação e cobrando solução para o caso.
Entretanto, o empenho do sindicato tentando salvar a pele do companheiro de diretoria
chega ao ponto da entidade enviar carta à CBCP, datada de 30 de outubro, solicitando a
fineza de
collocar o portador desta, que é o companheiro Antonio Rodrigues dos Anjos, 1º
secretario deste syndicato; que a 3 meses acha-se desempregado em virtude da
diminuição de serviço que houve na pedreira Beneducci e Cia Ltda; e o referido operário
não mais desejando reitegrar-se naquella empreza; por este motivo almeja collocar-se na
Cia Brasileira de Cimento Portland; caso V.S. possa attender este pedido, ficarei
agradecido se puder empregá-lo aqui em Água Fria; mesmo nas Pedreiras; porque (Elle)
não escolhe serviço, visto ser um rapaz apto para qualquer serviço braçal...
Interessante a dissimulação do presidente do sindicato, que assina a carta. Usa
linguagem polida, quase subserviente, para pedir emprego para um sindicalista
demitido de outra empresa, negando o real motivo reclamado junto ao DET: para este
órgão o mesmo sindicalista nega o argumento da Beneducci de que a exclusão de
Antonio dos Anjos tenha sido motivada por “diminuição de serviço”, mas que teria
sido em represália à sua participação na greve.
De fato, encontramos algumas cartas de pessoas se dirigindo ao sindicato
pedindo ajuda ou mesmo intercessão para arranjar emprego nas empresas. Mas é
curioso o caso, principalmente quando o sindicato reclama da mesma empresa CBCP,
junto ao DET, através de carta datada de setembro do mesmo ano, acusando o não
pagamento correto de férias a funcionários, em desrespeito à lei editada pelo Decreto
238
23.768 de 18 de Janeiro de 1934, “que regula a concessão de férias aos empregados na
Industria, Sindicalizados”. Em outra carta enviada ao DET, de 27 de outubro de 1934,
o sindicato diz ter recusado assinar convenção proposta pela companhia de cimento que
“não produzia resultados satisfatórios”. Contudo, simultaneamente à essas
reclamações, o sindicato pede emprego para um diretor seu demitido.
O fato torna-se mais curioso ainda se lembrarmos que tanto a Beneducci quanto
a fábrica de cimento tem o sr. Sylvio de Campos como proprietário, ou acionista. Isso
reforça um pouco aquela possibilidade de tratar-se, em boa medida, de despreparo, ou
ingenuidade de uma diretoria que congrega operários sem experimentação política e
sindical.
Experiências como estas devem ter causado algum aprendizado aos dirigentes,
que buscaram outras vias para solucionarem problemas da mesma ordem, como ilustra
essa outra correspondência, datada de 27 de maio de 1936, onde o sindicato repassa ao
DET a responsabilidade de um pedido de emprego feito por um sindicalizado. O
sindicato pergunta
Se por intermédio desse Departamento será possível sua reintegração no emprego,
amistosamente. Por intermédio do Syndicato é difficil boa vontade existe, e mesmo
porque o syndicato é um orgam de defesa da classe, porem no momento que se dirige a
Companhia, em taes assumptos, ella não os recebe com muito agrado, aprezentando
subterfúgios não sendo attendidos pedidos desta natureza.
A relação do sindicato com os trabalhadores
Até aqui as evidências estão a indicar que a burocracia sindical assumia o papel
de intermediário entre trabalhadores e patrões, de alguma forma legitimado pela ação de
um Estado que também está, naquele momento, buscando a sua legitimação nas classes
e suas frações. A prática que aparece predominantemente registrada na documentação
mostra os trabalhadores se dirigindo ao sindicato para fazer os seus pedidos e
239
reclamações, este avalia e os encaminha às empresas e passa a cobrá-la via órgão do
Estado (preferencialmente o DET).
Desde maio de 1934 que os operários do setor de locomotivas da CBCPP
procuraram o sindicato para reclamar aumento nos salários, e este, optando sempre pela
via legal, envia cartas à empresa, que protela e atua com evasivas. Há correspondências
que demonstram a impaciência dos trabalhadores, mas que a direção sindical acaba por
atenuá-la. Uma delas refere-se ao “pessoal do tráfego que já estão cansados de
esperar pela resolução”, enquanto o sindicato pede para a empresa “usar de uma
franqueiza, sim, ou não, motivo pelo qual necessitamos desta resolução até Sábado,
dia 7 para em assembléia, que realizar-se-á no dia 8, com presença de um fiscal...”.
No dia 10 de julho uma correspondência deixa transparecer a revolta dos
operários na assembléia do dia 8 anterior, ao saber que a CBCP não respeitara o anseio
dos operários. No dia 26 de Julho há um encontro entre representantes do sindicato, da
CBCP e um representante dos ferroviários, de nome Manoel Rodrigues. Esse encontro
finaliza com a fala do representante da empresa, Sr. Luiz Sprovieri que diz “que
aquelles que não estivesse satisfeitos com o salário actual, pudiam pedir suas contas,
porque era excusado tentar sobre augmento que por hypotese alguma siriam
augmentados”.
Reparem que, depois de aparecer a figura da Comissão de Greve na Beneducci,
temos também agora a de Manoel Rodrigues, que aparece na negociação como
representando os ferroviários, que envolve também a empresa, sindicato e o órgão do
governo.
Há registro de correspondência mantida entre diretores do sindicato, datada de
11 de outubro de 1934, que narra presença no sindicato, de operários que trabalham na
locomoção, a pedirem resolução da situação dos salários. Em outra, datada de 23 de
junho de 1934, os operários carregadores de vagões, que trabalham por empreitada,
foram ao sindicato reivindicar aumento do preço pago por vagão preenchido. O
sindicato colocou as reivindicações em uma pauta e a apresentou à CBCPP. Esse
240
parecia ser, portanto, o padrão de atuação do sindicato, nesse período, intermediando o
contato entre trabalhadores e a empresa, através de um processo legal e negociado.
Em um bilhete não datado e que não especifica o autor, mas que pela grafia
suponho ser o vice-presidente Manuel Soria, que relata conversa entre um sindicalista e
um tal Luiz (que suponho ser Sprovieri, da CBCPP), demonstra um certo clima de
tensão entre os ferroviários e a CBCPP:
...a respeito pessoal locomotivas, eu fallei com o Luiz, e me disse que estava tudo
decidido que o pessoal ficasse calmo que estava tudo arranjado, portanto eu acho bom
para evitar barulho...quanto antes nós iríamos convocar uma assembléia e teríamos que
paralizar o serviço da fábrica por 5 horas para o pessoal assistir a assembléia, elle ficou
espantado e diz que não convem fazer isto.
Não obstante o aparente clima de mobilização (são muitas as correspondências
que falam do assunto dos ferroviários), não há outros indícios de tentativas que não a
pressão aos patrões, via burocracia sindical, como aparece nos documentos:
A Diretoctoria do Syndicato dos Operários em Pedreiras, por meio deste, vem mui
respeitosamente pedir-lhe esclarecimentos, sobre a milhoria de salário do pessoal do
trafego, que já estão cansados de esperar pela resolução...Terminou o mês em questão e a
morosidade continua. (Fragmento de carta do sindicato, enviada à CBCP, em
04 de Julho de 1934).
Em outra carta enviada à empresa, datada de 20 de julho do mesmo ano, o
Sindicato reitera o pedido e finaliza afirmando que “com certeza e nós fizemos o
possível para não ver os nossos companheiros no desamparo...”.
O caso Gregório
Que o sindicato se pauta pelo legalismo e prega a “ordem e não a desordem”, já
sabemos. Mas o caso de Gregório Martins Ferreira nos dá mais pistas sobre as
241
concepções que norteiam as ações do sindicato. A carta de 8 de setembro de 1934,
portanto, semanas antes da greve, em que o sindicato comunica a “demissão” do sócio
Gregório, por sua própria vontade, ela é bem emblemática:
... Gregório Martins Ferreira, sendo o mesmo conhecedor na entidade em que faz parte,
ser composta de homens conscientes e que não recuam um só passo fóra das prerrogativas
da lei. (Elle) Gregório, vendo que nesta entidade ninguem encontrou que coincidisse com
o seu ideal, querendo fazer do syndicato uma arma agressiva de exploração monetaria,
como não foram satisfeitos os seus intentos, tomou aquella atitude, desligando-se do
quadro social. Temos ainda a informar que o attentado havido no dia 04 de setembro de
1934 - com o fito de paralisação nos fornos de fabricação de cal, da Beneducci e
Companhia Limitada, no logar denominado Gato Preto, foi instigado por Gregório
Martins, sendo alguns dos adhezistas são socios deste syndicato, tendo os mesmos
infrigido o artigo 8º do nosso estatuto, em virtude de desrespeitarem a entidade que faz
parte, para acompanhar o elemento indezejavel a este Syndicato.
Houve, portanto, antes da greve de 22 de setembro, uma tentativa de paralisação
empreendida pelos próprios trabalhadores e que gerou isso que o sindicato chamou de
“attentado”, que aparece no texto grifado por mim. Este fato parece ter gerado algum
efeito sobre a diretoria sindical, posto que, em outra correspondência, que aliás tratava
de assunto diverso, o caso de Gregório é citado.
Assim, há uma carta datada de 02 de outubro de 1934, enviada pelo sindicato
aos Drs. Aluizo e Luciano Campos, da Companhia Beneducci, reclamando demissão de
um sindicalizado que foi substituído “por Braziliano Pereira, este que foi demitido por
ter feito parte na agreção contra ao Sr. Caitano Siminara (...ilegível...) por Gregório
Martins...por acompanhar o ideal de um comunista...”. Na versão do sindicato
apresentada aos patrões, um sindicalista teria sido substituído por um seguidor de
“comunista”.
Bem sintomática esta denúncia do sindicato. Se aventamos a possibilidade de
caracterizar como “ingenuidade” algumas posturas do sindicato em relação ao patrão, o
242
mesmo não podemos afirmar quando se trata de acirramento dos conflitos de classe. Aí
a relação é madura e bem estabelecida.
O certo é que revela mais um traço dessa relação entre direção-base.
Havia também um aparente rudimentar esquema de benefício, que prestava
serviços de auxílio mútuo, como mostra essa carta enviada a Antonio Ceciliano
Gonzaga:
Faço este bilhete para pedir ao Sr. um auxilio a sociedade sem falta, pois me vejo sem
recursos mais, o que heide fazer, eu tenho vontade de trabalhar mais por enquanto ainda
não posso as pernas não me ajudam, Seu Gonzaga quanto a receita que o Dr. mandou eu
vou parar uns dias para descansar porque me sinto muito fraco com as injeções.
Cldoveu Gomes.
Muitas vezes essa relação pode se confundir com traços de clientelismo:
Caro companheiro Realino esta é affim de apresentar este portador o cual eu pesso ao
bom companheiro para fazer todo meio poçivel em deixar ao colega junto em sua Turma
e fazer com que ele não seja dos menores em hordenado olhar que elle é um bom rapaz e
bastante o Soria te apresentar um Brasileiro de critério e muito camarada e ter compaixão
de um Brasileiro que já está 8 mezes parado sem trabalho e pesso alistalo no Syndicato
espero que o companheiro não despreze o meu pedido a Profição delle e chaufer e tem
alguma Pratica de mechanica.
M. Soria
Resta saber a que se refere “a Turma” do Realino. É emprego no sindicato ou o
Realino teria poder para indicar pessoas nas Empresas?
A partir de 1936, na gestão de Beneticto Loureiro, o sindicato estrutura um
sistema mais “profissional” de assistência médica e hospitalar e caixa de pecúlio.
Chega a ser interessante observar paripassu esse processo de metamorfose pelo qual
passam os sindicatos que vão transigindo paulatinamente de uma postura mais
reivindicativa e politizada a outra muito mais acentuadamente assistencialista.
243
Por outro lado, podemos perceber o status adquirido pelo sindicato e seus
sindicalistas, pelo menos no olhar daqueles socialmente mais “desassistidos”. Ainda
que esse traço de separação em nível social entre uma diretoria e os trabalhadores só se
acentue mais tarde, com a CLT, quando o sindicato formalmente se integra mais no
aparelho de Estado, cabe aqui o meu acordo com uma visão introduzida por Leôncio
Rodrigues227, quando este se refere a ascensão social a partir da incorporação no Estado
de uma burocracia diretamente sustentada pelo sindicato e pela crescente carga
assistencial. Repito que esse não é ainda o caso daquele sindicato à época, mas não
podemos esquecer que as direções sindicais nessa época se imaginam investidas de um
poder delegado pelo governo, perante os patrões. Daí não ser nenhum absurdo pensar
que essa relação também não se reflita na relação com o trabalhador mais simples.
Não é difícil imaginar o ambiente da Perus e Água Fria da época. Um bairro
bem afastado do centro em que a população vive umbilicalmente dependente da grande
fábrica de cimento e das pedreiras nas adjacências. Boa parte da população à época
morava em vilas de propriedade da empresa como vimos anteriormente.
O sindicato e o Estado
Armando Boito228 prefere caracterizar o sindicato oficial no Brasil como
sindicato de Estado, justamente para enfatizar o sindicato como parte do Estado e não
apenas subordinado a ele (p. 26). Boito assume uma posição extrema de achar que o
sindicato oficial não só impede a organização autônoma dos trabalhadores, mas ele
funciona como elemento desorganizador da classe. O conjunto da estrutura do
sindicato oficial impõe limites intransponíveis para uma ação autônoma, independente
da diretoria que ocupe o sindicato de Estado.
227 RODRIGUES, Leôncio Martins, , Leôncio Martins. Sindicalismo e Classe Operária (1930-1964) , in História
Geral da Civilização Brasileira, Tomo III, vol. 3, São Paulo, Difel, 1981, p. 528/9.
228 BOITO, Armando. O Sindicalismo de Estado no Brasil. Campinas, Ed. da Unicamp, 1991.
244
Ângela Gomes229 afirma que “O sindicato no Brasil não era autônomo, mas era
realidade que, recebendo o Imposto Sindical, promovia os interesses das massas
trabalhadoras. Nosso sindicalismo não era tutelado pelo fato de ser reconhecido e
exercer funções delegadas pelo poder público. Esta dimensão oficial era própria do
corporativismo moderno e contribuía para fortalecer o poder do sindicato”. Vejam
como a Ângela Gomes se distancia da tese do Boito. Enquanto para a autora, o imposto
sindical “promovia os interesses das massas trabalhadoras”, para este, o imposto é um
dos elementos centrais da aniquilação da autonomia operária.
Mas, seguramente, o atrelamento total ainda não é a situação do sindicato no
Brasil até 1936. A implantação do sistema de enquadramento do sindicato ao aparelho
do Estado não se dá de um só golpe, mas é um processo paulatino. O governo Vargas
talvez não contasse com a reação dos trabalhadores, que já no mês seguinte ao da posse
do novo governo organizou um movimento grevista de razoáveis proporções, posto
que, os trabalhadores já vinham enfrentando uma difícil situação que fora agravada
pelos efeitos da crise de 29.
O governo lança o decreto 19.770 poucos meses após o golpe e, a partir daí, põe
em prática uma campanha intensa para aglutinar as novas forças sindicais a fim de
combater o sindicalismo combativo. O primeiro ministro do Trabalho, Lindolfo Collor,
lota a sua agenda de viagens para as mais diversas regiões do país a fim de divulgar as
novas regras e convencer aos sindicalistas, inclusive àqueles claramente hostis, dos
benefícios da oficialização dos sindicatos. Leis de cunho sociais são elaboradas e
lançadas vinculando-as à sindicalização e até a Constituinte entra no “manual de
preenchimento da ficha de sindicalização”, como, aliás já dissemos acima.
No caso do sindicato que é nosso objeto de estudo, há uma característica que é
muito nítida: os sindicalistas enxergam o Estado como entidade que está acima das
classes e que tanto pode representar os interesses dos patrões, como pode também
interceder em favor dos trabalhadores. Como o discurso trabalhista procura passar uma
imagem de governo voltado para as “classes laboriosas”, muitas vezes esse discurso é
229 GOMES,Ângela Castro, A invenção do trabalhismo, op. cit. p. 244.
245
assumido pelo trabalhador de forma a-crítica. No caso, a impressão que fica é de que
num primeiro momento, os lideres do sindicato imaginam um governo e um Estado que
estão do seu lado para defender os seus interesses diante dos patrões.
Leôncio Martins Rodrigues é enfático ao afirmar que
não há dúvidas que o sindicalismo brasileiro foi criado de 'cima' e imposto ao conjunto
dos assalariados brasileiros. Porém, não há indicações de que as massas operárias tenham
se oposto à política social de Vargas ou ainda tenham entendido a legislação trabalhista
como algo contrário aos empregados. Ao contrário...foram encaradas como medidas de
proteção e não forma de repressão230.
Já comentamos acerca da linguagem legalista presente nos discursos que
aparecem nos documentos. As leis são sempre citadas, reiteradas como limites do
possível para qualquer tipo de ação. O que poderia ser um mero ritual dissimulador, no
caso desse sindicato não parece ser. Além do mais, os sindicalistas recorrem aos órgãos
estatais diante de qualquer situação. Esses órgãos às vezes são colocados como árbitros
que intercedem, ou devem interceder em todas as relações com as empresas. Às vezes,
as conotações das palavras nos documentos sugerem mesmo que esses órgãos sejam
organismos de defesa dos trabalhadores. Os sindicalistas recorrem aos Departamentos
do Trabalho, seja em âmbito nacional, seja em âmbito estadual esperando um
posicionamento rápido ao seu favor.
Quando da edição das leis trabalhistas, que criam a carteira de trabalho,
regulamenta as férias, regulamenta o trabalho de estrangeiros, etc., os sindicalistas se
sentem respaldados pelo governo e passam a cobrar imediatamente dos patrões o
cumprimento da lei, que ainda não havia sido assimilada pelo empresariado. Aliás, é
curiosa essa postura dos trabalhadores de assumir a cobrança se investindo de poder de
autoridade de Estado perante o patrão.
230 RODRIGUES, Leôncio Martins. op. cit., p.530..
246
Em carta assinada pelo seu presidente, o sindicato reclama junto ao DET,
acusando a prática da CBCP de atuar em desacordo com o Decreto 20.291 de
12/08/1931, “o qual instituiu a lei de Nacionalização do Trabalho”.
Ainda em junho, em carta datada do dia primeiro, dirigida a Dr. Frederico
Vermond de Lacerda Werneck, o sindicato solicita intervenção do Departamento do
Trabalho contra a Beneducci que demitiu Francisco Moura em 18 de abril, por este
“não querer disrespeitar as leis do Paiz”. A intervenção contra a empresa deve ser feita
“Para não desmerecer o espírito revolucionario e socialista de nossa classe”.
Em trecho mais adiante, a entidade se apresenta como defensora da lei como que
respaldada pelo Governo:
Este sindicato que tanto tem se esforçado para ver respeitadas as leis instituidas pelo
nosso Governo revolucionário, não pode admitir que elementos contrários se vanglorie de
pizar em cima de nossas leis.
Prestemos a atenção no discurso que se apóia totalmente nas leis
governamentais, onde o sindicalista se assume como um preposto do “nosso” governo
revolucionário, para enfrentar um patrão.
Há ainda uma outra passagem que ilustra muito bem essa sensação de poder do
qual os sindicatos se viam investidos, cientes que estavam do respaldo do governo. No
comunicado a trabalhadores da Beneducci em greve, datado de 26/09/1934, o sindicato
persuade trabalhadores da ferrovia a não trabalharem:
É o syndicato que garantirá esta attitude, porque é auctoridade reconhecida pelo governo.
Há uma sugestiva correspondência do sindicato encaminhada ao Sr. Júlio
Tinton, Chefe da Seção de Fiscalização Social do DET, sem data, mas provavelmente
de 1933, que denuncia boletins que atacam o DET e a diretoria do sindicato. O
sindicato protesta veementemente os dizeres que acusam a presença do fiscal do
Departamento que teria a função de coagir os trabalhadores a assinar a “convenção”. A
247
carta termina dizendo que o “Syndicato...sempre tem sido atendido nas suas
reclamações pelo DET”.
São estes alguns elementos que revelam a relação do sindicato com órgãos do
Estado que consegui pinçar dos fragmentos de documentos e que mais adiante servirão
de base para algumas conclusões acerca do perfil político-ideológico da entidade.
Vinculações com o "mundo exterior"
A documentação pesquisada até agora me imergiu tanto nas questões intestinas
de um sindicato que parece isolado de vinculações outras, que qualquer vinculação
parece nos abrir para a luz do “mundo exterior”.
Entre os documentos encontrados até agora, são raros aqueles escritos em tom
de resposta a correspondências recebidas de pessoas ou entidades de fora do âmbito do
sindicato, a não ser dos órgãos fiscalizadores que compõem a estrutura sindical e das
empresas da própria base. Pode ser que isso signifique simplesmente que os
documentos se extraviaram. Entretanto, pelas próprias características do sindicato e de
sua localização descritas até aqui, não descarto isso ser um indício da pouca
expressividade política da entidade no cenário sindical, nos seus primeiros anos de
implantação.
Aquelas correspondências recebidas e que restaram ao acervo até início de 1936
são raridades que podem ser contadas com os dedos de uma mão, porém,
sintomaticamente, são extremamente expressivas e muito bem pode indicar vestígios
daquela conjuntura.
Há uma correspondência de dezembro de 1934 em que o sindicato responde a
Marcio (?) Teixeira, no Rio de Janeiro delegando inteiro apoio ao Comitê Nacional de
Representação da Classe Proletária, usando estes termos:
...este sindicato dar seu inteiro apoio, ao Comité Nacional de Representação da Classe
Proletária e desde já fazendo votos pela victoria dos candidatos a Deputados a
representação de classe na Camara Federal.
248
Há uma outra carta endereçada ao Presidente da Comissão Coordenadora dos
Delegados-Eleitores, dos Sindicatos Operários na Indústria de São Paulo, onde o
sindicato de Água Fria confirma a participação do seu delegado eleito, Realino da
Costa Pinto, no Congresso dos Delegados-Eleitores da Classe Operária das Indústrias,
congresso que acontecerá no Rio de Janeiro.
Essas duas correspondências, mais do que falar dos contatos do sindicato de
Água Fria, revela o grau de mobilização e articulação de setores do sindicalismo
paulista para a Constituinte de 1934, criando comitês e realizando congressos. O livro
citado de Ângela Araújo dá mais detalhes desse Congresso que reuniu delegados de
sindicatos oficiais, realizado no Rio, informando que ele fora organizado pela
Federação do Trabalho do Distrito Federal e que tinha como um de seus objetivos o
apoio à candidatura de Getúlio Vargas para presidente no processo constituinte.
“Perdidas” em meio às correspondências expedidas encontramos três cartas
recebidas. A primeira delas, sem data definida, enviada pelo Sindicato dos Operários
em Construção Civil, fundado em 01.05.1934, localizado no bairro de Pedreira, em
Santo Amaro, que à época era município. Esta carta divulga “greve geral” de
trabalhadores contra a “grande exploradora canadense, Light”. Alega ao sindicato de
Água Fria que “estamos colligados na Coligação Proletária que contamos com 40
sindicatos, a lucta é grande e o inimigo poderoso”, e assim solicita apoio e ajuda
material. Esta carta é assinada por Jose Raymundo dos Santos e Miguel Del Rio.
Vejamos como essas correspondências, apesar de solitárias, não deixam de ser
bastante expressivas. Mesmo na sua simplicidade elas podem captar muitos aspectos de
uma determinada conjuntura. Provavelmente essa greve citada no documento refira-se
à greve de setembro de 1934, registrada no livro de Araújo, como uma das importantes
greves do período e que foram organizadas e dirigidas pelos sindicatos. A notícia de
greve em documento dessa data não é surpreendente. Araújo diz que "Os dois
primeiros anos do Governo Constitucional concentraram o maior número de grevistas
249
da década de 30". A maioria dessas greves foi conduzida por sindicatos oficiais, mas
algumas foram feitas a revelia dos sindicatos, ainda segundo a autora.
Ângela fala também da importância da atuação das Coligações articuladas para
formar uma "extensa rede de apoio 'moral', político e material aos grevistas" (p. 270).
A autora ressalta o papel de “entidades federativas, congregando um número
considerável de sindicatos reconhecidos, constituindo importantes suportes para os
movimentos grevistas nesse momento...”. A correspondência que fala de 40 sindicatos
articulados na Coligação parece comprovar a afirmação exposta no livro de Araújo.
Eis aí também uma prova cabal de que o sindicato de Água Fria não estava só,
mas articulado numa Coligação. Através do jornal A Platéia de 27/02/1935, Ângela
Araújo localiza o Sindicato que é objeto de nosso estudo, como filiado à Federação
Sindical Proletária de Estado de São Paulo, “fundada em fevereiro de 1935 pela
reunião de vários sindicatos, inclusive o dos Operários em Fábrica de Bebidas e o dos
Operários em Pedreiras de Água Fria”. (Grifos meus)
Pois bem, além desses dois sindicatos se tangenciarem nessa Federação, o
mesmo ocorre na nossa documentação, como percebemos em outras duas
correspondências recebidas são do comecinho de 1936 e tratam de um mesmo assunto:
a prisão de Antonio Ceciliano Gonzaga e Renato Alves, respectivamente, funcionário e
diretor do sindicato de Água Fria, em 1936. Essas são emitidas pelo Sindicato dos
Operários nas Fábricas de Bebidas de São Paulo. A primeira é uma cópia de uma carta
que esse sindicato enviou para a Delegacia de Ordem Social, solicitando a liberdade
dos dois companheiros de Água Fria, pois “ao que saibamos, não exercem atividades
subversivas no seio do nosso operariado”.
A Segunda carta data de 21/01/1936 e apresenta “Despesas feitas por este
Syndicato, para liberdade dos companheiros desse sindicato presos na Delegacia de
Ordem Social”.
Como sindicatos coligados, a solidariedade se impôs. Araújo mais uma vez não
deixou de registrar esses eventos entre os sindicatos. Falando da importância dessas
coligações em nota de rodapé, à p. 270, ela diz que “A atuação destas entidades foi
250
fundamental na denúncia de arbitrariedades e violências contra os paredistas (...) e na
mobilização para soltura dos presos e para conseguir ajuda material”. Aí temos mais
uma vez a fonte referendando e sendo referendada pela pesquisa acadêmica recente.
Perfil ideológico do sindicato: uma primeira aproximação
Como já indiquei na introdução, optei pela seleção/organização/apresentação
dos documentos para que eles servissem de referenciais para a construção de uma
narrativa que esboçasse uma história dos primórdios do sindicato dos queixadas. Essa
escolha, é claro, colocou em segundo plano o debate teórico sobre a questão do
sindicalismo oficial na década de 30.
Trabalhei basicamente com um tipo de fonte, que é aquela disponível no
sindicato e que, além de escassa, trata de um período muito curto, de 1933 a 1936.
Pois bem, feita a exposição dos marcos referenciais deixados pela
documentação, resta-me extrair alguns traços essenciais do texto para tentar elaborar
uma síntese que me possibilite definir os primeiros contornos políticos e ideológicos
daquela primeira direção sindical em Perus.
O primeiro traço característico que destaco é o legalismo. Já demonstramos
acima esse traço explícito nos documentos, que revela uma direção que parece
enxergar a legislação social do governo Vargas como uma grande dádiva e que caberia
aos trabalhadores respeitá-las e usufruí-las. Destacamos também uma carta do sindicato
que se esquiva de uma acusação da empresa CBCPP pela falta de 48 operários em dia
de trabalho e que se diz defensor da ordem e não da desordem.
Vimos também que mesmo diante de um movimento grevista, como aquele que
aconteceu na Beneducci, o sindicato, que parece ter sido empurrado para o movimento,
fez questão de frisar que a greve era o último recurso e tratou de seguir os trâmites
legais, sempre buscando informar e solicitar mediação do DET. O tom das
correspondências não deixa dúvidas de que a “ação direta” não faz parte das estratégias
251
de enfrentamento do sindicato. Aliás, o sindicato nesse período dá claras mostras de
que não tolera a ação política direta. Para respaldar essa imagem, podemos lembrar o
caso do Gregório, que fora acusado de promover um atentado na Beneducci narrado em
páginas acima; o caso da denúncia do boletim que critica o DET e a direção sindical,
entre outras passagens em que aparece explícito a posição anticomunista da direção.
Armando Boito chama esse fenômeno de ideologia da legalidade sindical,
caracterizado pela “submissão voluntária ao conjunto de normas jurídicas que
regulamentam a organização e as formas de ação sindical no Brasil”. O autor vê um
traço específico do legalismo brasileiro, segundo o qual “cabe ao Estado estabelecer
qual organização pode representar sindicalmente os trabalhadores”. Diferenciando
essa especificidade do legalismo brasileiro das experiências tredeunionista e também
da fascista, Boito localiza a ideologia da legalidade sindical como uma manifestação
localizada da ideologia populista “na medida em que representa o fetiche do Estadoprotetor
no terreno sindical”231.
Nesse sentido, Cláudio Batalha, quando se refere aos sindicatos “amarelos”,
pondera que “Em contrapartida de seu legalismo, de seu apoio às instituições, os
amarelos exigem do Estado...medidas sociais e respeito dos 'direitos' da classe
operária”232. De fato, a impressão que fica quando enxergamos a preocupação do
sindicato em se enquadrar perfeitamente dentro das leis, é a de que, com essa postura,
ele se coloca no direito de exigir do Estado ou do governo.
A linguagem aparentemente subserviente é outro traço característico da diretoria
do sindicato em questão. Notamos o aparente excesso de zelo na linguagem de algumas
correspondências de dirigentes sindicais encaminhadas às empresas, especialmente
quando se tratava da CBCPP.
231 BOITO, Armando, op. cit.
232BATALHA, Cláudio. Le Syndicalisme "Amarelo" à Rio de Janeiro (1906-1930). Tese de Doutorado,
Université de Paris I, Panthéon-Sorbonne, 1986.
252
Observemos um trecho de uma carta enviada em ao Superintendente da CBCPP,
Sr, John U. Burke, assinada pelo presidente do sindicato, que faz algumas reclamações
sobre questão de moradia na área da Fábrica233:
...venho pedir que a Cia. por seu alto critério e justiça, seja cortada, digo dividido o
terreno dos fundos de casa de conformidade com o que lhe pertença.
Esperando não ter lhe aborrecido neste sentido, aguardo as suas ordens.
O seu menor creado sempre ao seu inteiro dispor e atenção.
Domingos Ribeiro Antunes
É claro que devemos levar em conta a possibilidade de uso da tática da
dissimulação, posto que, como já nos referimos anteriormente, essa linguagem muda
quando o endereço é o órgão do Estado. Porém, talvez esse traço traga à tona algum
aspecto particular a este sindicato, posto que, há sindicatos oficiais com características
ideológicas semelhantes, mas que assume um discurso mais altivo, como fica muito
claro no caso do Sindicato dos Trabalhadores e Fábrica de Bebidas e o da Construção
Civil, citado acima. Não precisamos nem aludir à diferença da linguagem utilizada por
setores mais combativos do movimento operário paulista.
Transcrevo integralmente uma carta de 12.03.1934, em que Gonzaga retribui a
um correspondente seu, Doutor Luiz Carbajo Valiente, por achá-la marcante e bastante
significativa no sentido de fornecer elementos esclarecedores do perfil psicológico de
um homem que foi referência importante do sindicato e que remete-nos a refletir sobre
a complexidade que se esconde por detrás desse fenômeno que chamamos de
“sindicalismo amarelo”:
Com inmenso prazer, respondo a carta de V.S. com data de 1 do corrente, na qual
demonstra V.S. que é um cidadão sem vaidade, não se prevalecendo da posição que
possui no seio da classe que pertence, se fôra outro jamais tiria essa gentileza em dar suas
233 Documento datado de 24 de maio de 1940.
253
noticias a um rude operario inculto, e sem profissão definida só a V.S. cabe este acto de
cordialidade, demonstrando, assim, que é um homem do povo, e um homem para o povo.
Respeitosas saudações.
Sem aprofundar detalhes, destaco apenas dois aspectos. Se ele foi alçado ao
cargo de presidente é inegável que ele tinha algo que o distinguia dos demais operários.
Ainda assim, o sentimento de autodepreciação em relação a um membro de outra classe
é significativo. Isso pode revelar, quem sabe, um traço de uma sociedade com um fosso
social dividindo espaços de convívio bastante demarcados, com mundos diferentes e
com raras intercomunicações.
Como expressão da sua rudeza, Gonzaga destaca o fato de não ter “profissão
definida”, o que pode revelar o traço de uma ética em que trabalho assume importante
valor moral. Ética que está presente nas variadas correntes operárias, desde os
anarquistas até as correntes “amarelas”. Segundo Cláudio Batalha234, no âmbito da
concepção dos “amarelos” o trabalho é razão de orgulho e a ignorância é o pior dos
males. Ética que assume importante papel no discurso do trabalhismo, como bem
lembra Ângela Castro Gomes235: “o trabalho como meio de ascensão e a dignidade do
trabalho são eixos em torno do qual se monta sua comunicação com a sociedade e o
mundo da política” .
A documentação nos aponta relações de interesses e favores que permeiam a
prática dos dirigentes em relação às empresas bem como em relação entre
trabalhadores de base e direção. Pois bem, poderemos muito legitimamente explicar
esse fenômeno pelo viés sociológico, enquadrando-o ainda como característica do
populismo, enfatizado por Boito. De fato, se o paternalismo tem como um de seus
traços centrais a prática do favor, talvez seja lícito relacioná-lo à ideologia que enxerga
os direitos trabalhistas como dádiva do Estado-Pai e protetor, imagem, aliás, que bem
condiz com a auto-imagem construída no discurso de Vargas perante os trabalhadores.
234 BATALHA, Cláudio, op. cit.
235 GOMES, Ângela Castro, A invenção do trabalhismo. Rio de Janeiro, Vértice/IUPERJ, 1988, p. 9.
254
Também acho que não estaria fora de questão se relacionássemos esse fenômeno
às características peculiares de um local afastado do centro urbano, com característicos
traços comunitários, como já destacamos, onde há uma grande empresa que funciona
como grande geradora, ou doadora de emprego e condições de vida aos trabalhadores.
No entanto poderíamos recorrer também aos traços culturais de uma sociedade
que ainda apresenta marcas de um período em que a sociedade se movimentava tendo
como força motriz o interesse, o favor, o benefício, que tem como contrapartida a
bajulação, a ordem, a obediência, o servilismo.
Quando falo em paternalismo, refiro-me à prática social que toma como
parâmetro para toda a sociedade, as relações de um determinado tipo de família onde
há uma nítida hierarquização entre os seus membros, que se articula em torno da figura
central do chefe da família, o pai. Na típica família a relação entre as pessoas é
marcada pela prática da servilidade e da obediência, em respeito às figuras que detêm
maior autoridade devido à sua maior proximidade do elemento central do poder - o pai.
Na sociedade, as relações entre as pessoas são marcadas principalmente pelos traços de
dependência, do favor, do prestígio. No nosso caso teríamos O Estado no centro, de
onde irradiariam as dádivas que se propagariam pela Fábrica e daí para o sindicato e
deste para o trabalhador “desamparado”. Benefício, dependência, respeito,
subserviência, favor, gratidão, castigo, são traços marcantes nas relações sociais. A
dependência e o favor são nexos efetivos da vida ideológica da sociedade que se baseia
na prática do paternalismo. É o paternalismo, portanto, um conjunto de costumes e
práticas sociais que funcionam como elemento ideológico central para o
amalgamamento das relações sociais de um determinado período da história brasileira.
Em nenhum dos documentos pesquisados encontramos qualquer referência feita
à sociedade capitalista, ou mesmo qualquer crítica às empresas enquanto exploradoras
da força de trabalho. As críticas sempre encontravam o alvo, no máximo em pessoas da
hierarquia da administração. Se havia problemas, era por culpa de algum empregado,
geralmente graduado, que arcava com a culpa pelos males.
255
Com relação à política, os vestígios deixados pelos documentos apontam na
direção de uma diretoria que se ampara nos marcos do discurso do Governo Vargas.
São várias as passagens em que o nome de Getúlio é citado. Em 20 de julho de 1934, o
sindicato envia carta ao Presidente Vargas, nesses termos:
Felicita excelentissimo Brasileiro justa escolha feita pela Assembleia Nacional
Constituinte e congratula-se com V. Excia hypotecando, o seu apoio incondicional.
Em bilhete enviado a Realino, M. Soria, vice-presidente do sindicato, encerra
carta com a expressão “viva a Dr. Getulio Vargas temos que vencer ou morrer”.
Em outra carta também de Soria enviada a Realino, datada de 02/02/1934 ele
diz:
...porque aqui eu estou a contar com elle [Gonzaga, então presidente do sindicato] elle diz
estar cansado, mas creio que os seus discipulo não tornarão a ver mais um segundo
Getulio Vargas no poder diga a nosso Presidente que o futuro do nosso descanso está
prestes a chegar...
Outro elemento, que faz parte do discurso varguista e que encontramos no
sindicato, é o nacionalismo. É comum aparecerem na linguagem dos sindicalistas,
elementos que mostram o tipo de leitura que eles fizeram naquele período onde o
governo incorporou no seu discurso o conceito de nação:
O syndicato protesta energicamente este acto de afronta movida por um extrangeiro, de
ideas opostas ao regimem do nosso governo Brasileiro. (...) Não admitimos que
extrangeiro deste jaez monospreze a lei brasileira, e os nosso patrícios.
Em carta enviada ao DET em março de 1935, o sindicato se apóia na Lei de
nacionalização editada em agosto de 1931, para denunciar a fábrica de cimento, que
estaria desrespeitando a legislação em favor dos estrangeiros:
256
São duas clausulas em dizacordo(...)
Entretanto, diverços extrangeiros, com as mesmas funções, estão percebendo salários
uperiores, aos dos Brasileiros (...)
A Companhia está também sendo infractora neste artigo(...
Anexo segue a relação dos dispensados [em que] comprovamos a infração em que está
submitida a referida Companhia. Portanto, peço a V.S. para mandar proceder a abertura
de um inquérito de conformidade com o artigo 19 deste mesmo Decreto, pois o caso
requer providências urgentes.
Já sabemos que na CBCPP, o número de operários estrangeiros é bastante
significativo e que estes estão alocados mais no setor especializado do operariado e
que, em conseqüência, gozam de algumas regalias. Entretanto, há sinais de que esse
“nacionalismo” não ultrapassa o nível do discurso retórico, que segue na esteira do
corpo de idéias que são comuns aos discursos da época. Não há qualquer indício de
incômodo na direção do sindicato, pelo fato da empresa ser canadense e dela deter o
“monopólio” da produção de cimento à época.
Por outro lado, se há o episódio em que os sindicalistas reclamam da
substituição de um brasileiro por estrangeiro, há também um outro caso em que o
sindicato reitera durante meses, junto à empresa Beneducci e ao DET, o pedido
reintegração de três operários que são estrangeiros e sócios do sindicato.
Em carta de 03/02/1935, o sindicato reitera a solicitação de reintegração de dois
alemães Frederico Von Gerhart e Frederico Gerhart Filho e um italiano, Bozzoto
Pietro.
Isso indica que, na verdade, o sindicato tem, primeiramente, o senso de
corporação, de categoria, quem sabe até, de classe. Para defender seus associados, ele
se utiliza de argumentos os mais variados possíveis, como já foi possível perceber. Ou
seja, se há traços de nacionalismo, esse traço é difuso, tênue, sem profundidade.
Um último traço que gostaria de destacar é o tom de uma linguagem que, a
despeito de todas as características arroladas, traz marcas de um discurso de corte
classista. São várias as marcas que aparecem na linguagem utilizada, seja nas
257
expressões como “Saudações Proletárias”, seja em situações onde se delimita um
campo de classe:
V. S. não deve ignorar que, um Syndicato de operários, não é um Syndicato Burguez,
para ser desembolçado do próprio portador uma quantia que não está em seu alcanse e
nem elle (o portador) possui, visto o salário que percebe não compensar nem um terço de
seu esforço phisico236.
Há várias outras passagens onde aparece na linguagem essas marcas de noção
de classe social. Isso me remete imediatamente para uma discussão constante da obra
citada de Batalha, quando ele busca definir os contornos e as características desse setor
do sindicalismo brasileiro que costumamos chamar de “amarelo”. E aqui eu não tenho
dúvidas em enquadrar esse sindicato que é objeto de nosso estudo, no rol do
sindicalismo amarelo. Afinal, essa terminologia me parecia reunir algum consenso
entre aqueles que se debruçam sobre o tema do sindicalismo. Ângela Araújo diz que
o sindicalismo amarelo compõe um conjunto de correntes sindicais de cunho reformista,
formado no interior da Primeira República e que seriam no pós-30 uma importante base
de sustentação do governo revolucionário237.
No mesmo caminho, Boris Fausto considera essa corrente um embrião do
trabalhismo que algumas décadas depois teve influência no meio operário (in Araújo,
p. 2000).
No entanto, para Cláudio Batalha, o final da década de 1920 marcou o
“crepúsculo do sindicalismo amarelo”. Assim, ele não enxerga continuidade entre as
correntes reformistas que se integraram logo de início na estrutura sindical oficial e o
sindicalismo reformista das duas primeiras décadas do século XX. Em seu trabalho,
Batalha defende que:
236 Trecho de carta enviada ao Ministério do Trabalho, onde o sindicato justifica despesas do seu orçamento.
237 ARAÚJO, Ângela, A construção do consentimento....op. cit., p. 191.
258
o sindicalismo amarelo não é um movimento imposto desde fora da classe operária (pelo
Estado ou pelo patronato), mas ele constitui um movimento autônomo fundado sobre um
projeto próprio e inscrito em uma certa consciência de classe238.
Ângela Araújo discorda dessa conclusão do Batalha. Ela afirma que os
sindicatos amarelos foram substituídos pelos sindicatos “ministerialistas” e
constituíram no interior do movimento sindical a principal base de sustentação da
política social e sindical do Governo revolucionário e que, portanto, a presença de uma
corrente reformista autônoma, com tradição de militância e representatividade foi pré
condição para o estabelecimento do corporativismo. A autora diz concordar com
Rodrigues que seria difícil a montagem da estrutura sindical sem o apoio de parcela do
operariado.
Não acho adequado o termo “embrião”, que aparece no texto atribuído a Boris
Fausto, posto que o sindicalismo reformista do pós-30 não é uma forma desenvolvida
daquilo que o precedeu em décadas anteriores. Entretanto, eu não saberia distinguir
diferenças substanciais entre as posições ideológicas e práticas sindicais das correntes
reformistas de antes e depois de 1930. Batalha tenta fazer essa distinção pela
característica de autonomia e existência de projeto próprio daquelas correntes de antes
de 1930. Não me parece que esse traço, se partirmos do pressuposto de que ele exista,
pese suficientemente para negar as outras tantas semelhanças a ponto de se tornar outra
coisa.
É certo que a conjuntura mudou sensivelmente depois de 1930. As correntes
políticas e sindicais se ajustam ou não a essa nova configuração. Os trotskistas e
pecebistas não atuavam no sindicato oficial até antes de 1933 e passaram a atuar
depois. Eles se viram forçados a se incorporar à estrutura oficial, mesmo criticando-a.
O sindicato dirigido por essas forças não tem a autonomia que tinham antes de 1930 e
nem por isso descaracterizou as correntes como trotskistas e pecebistas.
238 BATALHA, Cláudio, op. cit.
259
É o próprio Batalha quem alerta, que:
sob o título de “amarelos” ou “reformistas”, oculta-se um conjunto de correntes
ideológicas - muitas vezes adversárias uma das outras - sustentando uma série de práticas
idênticas ou muito semelhantes, mas com um espectro ideológico bastante diversificado,
que vai desde o socialismo reformista até o mais estreito tradeunionismo, passando por
correntes que se arvoram republicanas sociais ou cooperativistas239.
Ou seja, não obstante tanta diversidade entre os “reformistas”, há traços que são
essenciais que os unifica, que os identifica. E, sinceramente, não consegui enxergar
essas diferenças essenciais entre as práticas de antes e depois de 1930.
Para Batalha, o golpe de misericórdia sobre o sindicalismo amarelo é dado após
1930 pela formação de sindicatos controlados pelo Estado, “que põe fim a
possibilidade de um terreno de acordo” (p. 477). Para esse autor, ao nível do
movimento sindical, a idéia dos “amarelos” de um movimento forte e unificado nunca
se torna uma realidade. Por isso, as mudanças empreendidas pelo Estado no domínio
social após 30, se situam no sentido contrário aos projetos dos “amarelos”. No centro
desses projetos volta sempre a idéia forte de um sindicalismo que pela sua implantação
e seu poder, é capaz de impor suas reivindicações. Ora, a idéia de um movimento
sindical sob controle estatal é antagônica à concepção do sindicalismo proposto pelos
amarelos. O quadro dos anos 1930 é pois de destruição do movimento sindical tal qual
era concebido pelo sindicalismo amarelo, conforme Cláudio Batalha (op. cit. p. 479).
Vejamos alguns traços do sindicalismo amarelo, segundo Cláudio Batalha.
Matrizes comuns: positivismo e evolucionismo. Análise do capitalismo só aparece
marginalmente, o anticapitalismo não faz parte das suas preocupações, critica os
“defeitos” do capitalismo. Crítica moral, aos indivíduos ou patrões em particular.
Concebe a noção de classe. Importância da educação profissional. Trabalho é razão de
orgulho. Ignorância é o pior dos males. Greve como último recurso. Principal
239 Idem, Ibdem.
260
adversário é o sindicalismo de ação direta. Anticomunismo. Legalismo. Estado acima
das classes. Gradualismo. Ritualismo. Vejam quantas características atribuídas por
Cláudio Batalha aos amarelos do pré-30 e que se encaixam perfeitamente às
características destacadas por mim no sindicato em questão.
Entretanto, tendo a concordar com a análise que o Batalha procede sobre a
consciência de classe. Para ele, que retoma o conceito de consciência de classe desde
Marx, Lenin, Hobsbawm, Luckáks e Thompson, em lugar de ver o reformismo como
uma degenerescência do movimento operário, é possível a encarar como uma forma de
consciência de classe operária, como um de seus projetos entre outros.
Qual socialismo esquerdista no Sindicato?
Élcio Siqueira, guiado por um trabalho de final de uma disciplina de graduação
de Fillippini e Fernandes, citado anteriormente, entre as páginas 175 e 179 da sua
dissertação, nos mostra uma seleção de documentos do sindicato em estudo, que
aparece ordenada de tal forma que o leva a chegar a conclusões bem diferentes
daquelas que norteia esta dissertação. Ele agrupa documentos, como aqueles que tratam
do episódio da falta de 48 operários nas pedreiras e que julgou se referir a uma greve
selvagem, com outros que falam da greve na Beneducci e do “attentado” supostamente
provocado por Gregório, finalizando com o documento que insinua um “racha” na
direção, que ele enxerga como fenômeno de “dupla direção no Sindicato”.
Expostos os documentos, Élcio conclui:
Para tanto, também levaram em consideração diversas cartas assinadas pelo diretor
Antonio Ceciliano Gonzaga como presidente nas quais são expressas idéias claramente
esquerdistas, como a de filiar operários interessados a um “Partido Socialista”. Ceciliano
que acabou detido em 15 de janeiro de 1936, por denúncia de dois
companheiros...(Fillippini e Fernandes, 1992, p. 12-3).
261
Mais adiante, ainda na página 180, Élcio vai detectar a presença do nome de
Realino Costa Pinto Filho constando entre os componentes de chapas sindicais na
década de 1940, sendo isso suficiente para ele supor que “o sindicalismo
revolucionário primordial de algum modo se fez sentir na evolução ulterior das lutas
populares na Perus”.
A nossa análise já demonstrou os equívocos induzidos pelas fontes que
nortearam Siqueira na questão da suposta greve nas pedreiras e também na suposta
dupla direção sindical naquele período. Precisaríamos checar, no entanto, a orientação
socialista e revolucionária concebida na origem do sindicato, conforme supõe Siqueira
e suas fontes.
De fato, amostras de documentos soltos de um contexto mais geral podem levar
a conclusões desse tipo. Porém, a forma como analisei a documentação, leva-me a
conclusões bem diversas dessas apontadas pelo Élcio Siqueira.
Primeiramente, não há nenhum indício de que as lideranças nesse período citado
se enquadrem no campo da revolução e, talvez dentro desse genérico rótulo de
“esquerda”. Os documentos mostram que Realino, Gonzaga e Soria eram fervorosos
defensores do Getúlio Vargas, como vimos acima.
Na entrevista concedida por Elpídio Costa Pinto (que se diz comunista), em
02/06/2002, este que é primogênito do Realino, afirma que Realino Costa Pinto era
“getulista roxo”. Porém, ainda que o Realino pai tivesse sido um revolucionário, não há
nenhum elemento na genética a transmitir caracteres revolucionários à geração
seguinte, como sugere o Élcio ao citar o Realino Filho como sinal de continuidade do
“sindicalismo revolucionário em Perus”.
Já indicamos que a documentação aponta o sindicato como se enquadrando
dentro de um espectro anticomunista e defensor da lei e da ordem imposta pelo
governo de Getúlio. E isso não deve soar como crítica valorativa e depreciativa, mas
apenas como uma constatação.
De fato, há documentos de 1933/34 que revelam alguns matizes ideológicos que
não é peculiar apenas daquele sindicato, mas sim do período em estudo.
262
Antonio Ceciliano Gonzaga, na sua gestão como presidente, envia carta ao
superintendente da CBCP, datada de 09 de junho de 1933, convidando-o a participar da
assembléia do sindicato para escolha do delegado-eleitor, sendo que, uma semana
antes, mais precisamente, no dia 01 de junho, ele remete uma correspondência
sintomática ao Dr. Júlio Tinton, Chefe da Seção de Fiscalização Social do DET. Nesta
carta ele identifica um “momento de regozijo para as classes trabalhadoras” e que nos
“achamos todos em uma massa compacta para um só ideal que é o socialismo”. Ele
externa o desejo de “se alistar para votar, com mais aproximadamente 80 eleitores, no
partido socialista (...) já que não temos um dirigente socialista aqui” e finaliza
pedindo para o Chefe do DET indicar a quem se dirigir para a alistá-los.
Sem dúvidas, sinais de um tempo. Muito provavelmente o partido socialista
citado por Gonzaga refere-se ao Partido Socialista Brasileiro, fundado no Congresso
Revolucionário do Brasil, realizado em 1932, do qual participaram “além das
organizações tenentistas (como o Clube 3 de outubro, a Legião Cívica 5 de Julho, o
Clube 5 de Julho, etc.) outros grupos que também se identificavam com
revolucionários, dentre os quais destacavam-se os socialistas”240.
Este partido, segundo Araújo, adotou programa mais próximo do corporativismo
do que do ideário socialista e uma postura nitidamente governista. O Sr. Tinton, Chefe
do DET, poderia muito bem ser membro ou simpatizante dessa corrente tenentista,
apesar de que, nessa essa época, esse grupo já se apresentava com bastante
divergências com o núcleo central do poder. É relevante notar ainda que Araújo fala de
discordâncias entre o PSB e o PSB de São Paulo, que se afastava mais da linha
governista.
De toda forma, esse esclarecimento detalha melhor o posicionamento político de
Antonio Gonzaga, naquele momento, que, para Siqueira, era um “esquerdista”.
Com relação à prisão de Gonzaga, citada pelo Élcio, o que consegui compor foi
o seguinte: na noite de 15 de janeiro de 1936, Antonio Gonzaga e Renato Alves (que
também fazia parte da diretoria) são presos pela polícia da Ordem Social, suspeitos de
240 ARAÚJO, Ângela, A construção do consentimento..., op. cit, p. 204.
263
ação subversiva. Ficam sete dias encarcerados. O sindicato dos Operários em Fábrica
de Bebidas é que intervém e libera os companheiros, mediante pagamento de fiança.
De fato, chequei as suas fichas no arquivo do DOPS e o fato se confirma, apesar dessa
documentação não explicitar nada de mais, senão o fato curioso da polícia tentar, sem
sucesso, ligar a sua vinda da Paraíba para São Paulo, justamente no efervescer dos
acontecimentos da revolta tenentista de 1922 na capital paulista.
Quando da sua libertação, a carta do sindicato de bebidas refuta a condição de
subversivo, afirmando serem eles “trabalhadores”, como não poderia ser diferente.
Mas, em uma correspondência íntima, datada de 04 de maio de 1936, Gonzaga, o
servente das pedreiras e sindicalista, abre o coração para um amigo seu que mora ou
mudou-se para Rio de Janeiro. Gonzaga delira com os encantos da “Cidade
Maravilhosa” e sua cultura, quadro que se contrapõe à “vida medíocre” que leva. Além
do mais, ele se refere ao ambiente em que vive como ambiente de “hypocrisia”.
Cansado e desencantado, ele revela seu sonho em partir dali, quem sabe para o Rio.
Acaba também confessando que fora preso, mas não sabe “exatamente porque”.
Gonzaga, além de fundador do sindicato, sempre se comportou como seu grande
secretário, função que assumiu no sindicato ao deixar a diretoria e também a fábrica.
Ele parecia gostar muito de escrever, possuía um lampejo literário e uma caligrafia
vistosa. Em cartas anteriores, já vinha demonstrando uma profunda amargura e
decepção. Com os elementos que dispomos, nos é impossível distinguir se as suas
frustrações e decepções estão ligadas mais ao ambiente interno do sindicato ou à
política em geral, ele que se mostrava tão fervoroso getulista. Pois bem,
paradoxalmente, o ex-presidente Gonzaga, que durante o ano de 1933 tantas cartas
assinou referindo-se entusiasticamente ao “Governo Revolucionário”, acabara de ser
preso juntamente com seu companheiro Renato, pela Polícia de Getulio Vargas,
permanecendo encarcerado durante sete dias, “sem saber exatamente porque”.
De fato, a parca documentação não nos permite chegar a resultados conclusivos,
mas, acontecer uma prisão de sindicalista, ainda que “amarelo”, no comecinho de 1936
não é nada estranho àquela conjuntura. É nesse período que é criada a ANL (Aliança
264
Nacional Libertadora), em 1935, liderada pelos comunistas e que culmina com o
movimento intitulado de intentona comunista, que serviu como pretexto para uma
brutal ofensiva governamental que ultrapassou de longe os grupos envolvidos com a
quartelada, com a ANL e com o PCB e que serve de justificativa para o fechamento de
sindicatos e partidos de oposição, para o aprisionamento de parlamentares e membros
das correntes trotskista e anarquista que, inclusive, se opunham ao putsch, conforme
nos fala Leôncio Rodrigues. Paulo Sérgio Pinheiro se refere a esse movimento como
“a última revolta tenentista”, no livro241 em que o autor refaz de modo profundo e
crítico, a trajetória do PCB até 1935.
Acho bastante plausível que na virada de 1935 para 1936 muitas pessoas recém
despertas para o mundo da política desde 1930, com o incrível recrudescimento da
repressão a partir dos fins de 35, tenha experimentado grandes desilusões com o forte
discurso do trabalhismo.
Ilustro esse fenômeno publicando na íntegra um depoimento de Antonio
Augusto da Silva, testemunha ocular daquele período e que aparece aqui como
representante daqueles que figuraram no centro deste palco da história que narrei, que,
com suas palavras simples e sentidas, compõem uma cena que expressa uma extrema
sensibilidade e que bem pode servir de sintoma daqueles tempos:
241 PINHEIRO, Paulo Sérgio. Estratégias da ilusão: a revolução mundial e o Brasil (1922-1935). São Paulo,
Companhia das Letras, 1992
265
266
O Sr. Antonio testemunha uma cena chocante de uma greve de ferroviários da
Sorocabana, onde o advogado do Sindicato dos Ferroviários é surrado por policiais que
“meteram o facão no pobre homem”. Muito provavelmente esse movimento refere-se
àquele ocorrido em janeiro de 1934 e que, curiosamente, é citado em nota de rodapé, na
página 272, de novo no livro de Araújo:
Na greve dos ferroviários em janeiro de 34, por exemplo, foi preso o Sr. Lívio Xavier que
era advogado do Sindicato de Sorocabana (A Platéia, de 20/01/34).
Interessante como Antonio se expressa quando o advogado invoca a autoridade
da “garantia do governo” e os soldados respondem-no com violência, e “deceram a sua
garantia”. Ou seja, a garantia do governo Vargas para o Sr. Antonio, era o cassetete,
ou, quem sabe, o facão.
Tão emblemático como essas simples e sugestivas palavras é o gesto que Sr.
Antonio encontra para mostrar a sua indignação e se vingar das atrocidades do
Governo: rasgando a sua carteira do sindicato dos Operários em Pedreiras de Água Fria
que, para ele, “nada Valle”.
Conclusão
Chego ao final desta dissertação com a sensação de que temos muitas
informações produzidas e que, portanto, precisamos pontuá-las e procedermos a um
balanço panorâmico para chegarmos às nossas conclusões.
Vimos que Perus, Caieiras e Água Fria compõem o que chamaríamos
contemporaneamente de uma micro-região, especializada na produção de cal e
cimento. Uma região distante, mas integrada na produção de uma mercadoria vital para
a expansão urbana de São Paulo.
Destacamos também a importância da invenção da “pedra artificial” (o concreto)
que substitui largamente a utilização da madeira e do ferro, representando um avanço
267
tecnológico determinante da expansão dos equipamentos urbanos: barragens, avenidas,
prédios, pontes, etc.
Chegamos ainda a dimensionar o tamanho e a importância do complexo
produtor de cal que antecedeu a chegada da fábrica de cimento no Brasil, sugerindo
que aquela região abastecia, provavelmente, todo o estado de São Paulo. A primeira
ferrovia industrial do país fora montada (ilegalmente) para atender a esse complexo.
A fábrica de cimento Perus é uma empresa de grande porte que representa o
primeiro momento de implantação da indústria de base no Brasil. Quando da sua
instalação, combina três processos de trabalho bem distintos, que bem reflete o estágio
de desenvolvimento das forças produtivas do período, onde o trabalho manual sem
qualificação quantitativamente predominante, se combina com o trabalho “artesanal” a
alimentar um mecanismo automático na fabricação do cimento.
Com relação às primeiras gerações que formaram a força de trabalho da
Companhia, podemos afirmar que se tratava predominantemente de uma força de
trabalho majoritariamente nacional, mas com expressiva participação de estrangeiros,
principalmente de portugueses; uma população de trabalhadores jovens, com a
presença razoável de menores. Trata-se de uma mão-de-obra amplamente não
qualificada, com grau de instrução que reflete o padrão da época e que permanecia
relativamente durante um bom tempo no emprego.
O estudo de caso flagra também a participação notável de negros e “mulatos”,
que, naquele período, começam a incorporar definitivamente o contingente do
proletariado industrial paulista. Traz números impressionantes de acidentes de trabalho,
que, aliás, é uma informação rara nas pesquisas historiográficas, mostrando mais uma
face perversa da exploração do trabalho no período.
A pesquisa traz informações minuciosas sobre a questão salarial, trazendo ao
debate a questão da luta pela isonomia salarial dentro da empresa. O salário médio do
operário da fábrica não atende às necessidades básicas para a reprodução da força de
trabalho e coloca-se numa faixa intermediária em relação àqueles praticados na
indústria paulista da época.
268
As condições de vida fora da fábrica também é ligeiramente exposta, mostrando
alguns aspectos da vida cotidiana e, principalmente, das implicações da convivência
em vilas operárias pertencentes à Companhia.
Finalmente, a pesquisa apresenta o processo de constituição do sindicato das
pedreiras de Água-Fria que, na verdade, representa também os operários da fábrica.
Trata-se de um sindicato “amarelo”, que apresenta uma concepção peculiar de
consciência de classe que, não obstante atender aos desígnios estabelecidos pelo
projeto do governo de então, busca o cumprimento das leis que beneficiam os
trabalhadores da sua base.
Enfim, creio que este trabalho mostra a importância e a potencialidade de um
estudo de caso que não perde de vista as relações com a totalidade.
269
ANEXO 1
Planta da Fábrica de
Cimento
e suas vilas-operárias
270
271
ANEXO 2
Esquema de funcionamento
de uma fábrica de cimento
272
273
ANEXO 3
Modelos de fichas de
trabalhadores da CBCP
274
275
276
277
278
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Centro Histórico Mackenzie – Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo-SP.
Centro de Documentação do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria de Cimento, cal
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Companhia de Cimento Portland Perus, acervo localizado em Cajamar-SP.
Revista de Engenharia, Centro Acadêmico Horácio Lane, Mackenzie, 43, dez. de 1926;
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